terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Meditação é o seu Estado Natural


Vocês precisam aprender a lidar com o corpo e a mente da mesma forma que conseguem lidar, com tranquilidade, com o carro de vocês. Você entra no carro, liga e dirige… Volante, pedais, marcha… Depois que chega ao destino, sai do carro, tranca-o e pronto. Depois que deixa o carro fechado, você não se comporta como se ainda estivesse dirigindo; o carro fica para trás.

Há milênios as pessoas procuram estar no controle dessa máquina, desse carro, chamado “corpo-mente”. Elas tentam isso através de uma prática chamada meditação e eu quero falar um pouco sobre isso, porque eu considero a Meditação como um assunto de extrema importância, se você está trabalhando o fim dessa ilusão – a ilusão da egoidentidade, da separatividade.

Há milhares de anos as pessoas tentam controlar a mente. Elas têm frases como: “Se você controla a mente, você controla o corpo!”. A questão é que, de fato, é essencial que você não se prenda à ideia “eu sou o corpo”. Todo problema humano está exatamente nisso: ele tem um carro e, quando o deixa fechado, continua se comportando como se estivesse dirigindo. Então, é claro que deve haver desordem na vida dessa forma. Esse é um comportamento completamente doentio; é o comportamento da egoidentidade.

Você está identificado com o corpo, assim como alguém está identificado com o carro depois que o desliga e não precisa mais dele. O corpo é só uma máquina, um instrumento da Consciência, mas quando ele fica a serviço dessa identificação, disso que chamamos de “mente egoica”, surge o problema.  Na hora em que a máquina está desligada, ela não está em uso, então você a deixa quieta. Se ela está em uso, ela está em ordem. Se ela não está em uso e, mesmo assim, você se comporta como se ela estivesse, então tem-se a desordem, a confusão, o sofrimento, a miséria e todo problema humano que conhecemos.

A tentativa de controlar a mente e o corpo através de uma técnica chamada meditação já tem sido feita há muito tempo e, até hoje, o máximo que se conseguiu foi um artificial controle sobre esse mecanismo através da meditação tradicional (uso de uma técnica de respiração, de repetição de mantras ou de determinadas posturas físicas).

Meditação é algo presente como Consciência, como seu próprio Ser. Seu eterno Ser é Consciência, é Meditação. Então, você não precisa obter isso – essa liberdade de deixar a máquina desligada quando ela não estiver em uso – porque isso já é inato, já está aí. Meditação é o seu Estado Natural. Tudo que você precisa é deixar a máquina desligada e não se comportar como se ela estivesse ligada. E como é que você se comporta assim? Pensando e produzindo o cultivo de sentimentos atrelados ao pensamento, quando o corpo só está parado, sem fazer nada.

Quando o corpo está ativo, fazendo alguma atividade como caminhar, comer, lavar pratos, cuidar da casa, escovar os dentes, você não precisa da mente envolvida nisso; a não ser que a atividade seja intelectual, que precise do uso de palavras. Nesses casos, o intelecto irá utilizar uma forma ordenada para trabalhar as palavras, como na escrita de um livro. Para isso, a sua atenção inteira permanece nas palavras que você está colocando no livro — você não fica tratando das contas que você tem para pagar, nem da malcriação que seu filho lhe fez, ou da raiva do marido, porque a atividade ali é só escrever o livro, nada além disso! Não se confunda com a desordem que o pensamento quer produzir.

Reparem que estamos abordando essa questão da Meditação como algo totalmente diferente de uma prática, um sistema ou uma metodologia. Isso já tem sido tentado e não tem dado certo. A Meditação é seu Estado Natural, de desidentificação do experimentador em dada experiência. Até mesmo para fazer uso de um pensamento, quando se faz necessário, não precisa de você ali como um pensador, como o autor das ações, ou como uma pessoa magoada, ofendida, ferida, ou mesmo entusiasmada, alegre (o que, na verdade, é puro excitamento mental). Na Índia, eles chamam de Sahaja Samadhi, isso que é você em seu Estado Natural.

No meu caso, eu não saio da Meditação. Sair da Meditação seria me comportar como se o carro ainda estivesse comigo, em vez de deixá-lo desligado, parado. Isso criaria desordem! Isso seria uma completa desordem! Seria como se eu estivesse no trânsito e saísse atropelando as pessoas, me chocando com elas, conflitando com o que é. Para isso, se fariam necessários o corpo e a mente, e eu não preciso colocar o corpo, a mente e tudo que ela representa (sentimentos, sensações, emoções) na experiência das relações… Isso seria a ilusão de uma máquina ainda ligada.

Vocês compreendem o que estou dizendo?

Se você está na ilusão de estar dirigindo um carro enquanto ele está parado, você está na ilusão da separação, do controle, do medo, do desejo, da confusão, vivendo toda a miséria que a mente tem construído. É preciso estar atento, porque isso é uma coisa muito viciada, cultural e socialmente aprendida—uma herança dos pais, dos avós, da sociedade, do mundo, da insanidade humana… Essa é a confusão de ser uma pessoa na experiência de falar, de se relacionar, de comer, de dormir, de andar, de trabalhar, de lidar com os outros…


Então, o que é Meditação? Meditação é você em seu Estado Natural, livre do conflito que a mente produz, ou procura produzir, o tempo todo, como alguém se passando por você na experiência, dirigindo um carro imaginário. Então, você fala demais, você pensa demais, você sente muito, se emociona o tempo todo e, é claro, se irrita muito, se aborrece muito, se contraria muito, se chateia muito…

*Transcrito a partir de uma fala em um encontro presencial na cidade de Cabedelo - PB - em Agosto de 2017 

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