quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Verdade é Felicidade


Mais uma vez estamos juntos, focando naquilo que é essencial. Mais uma vez nos colocamos nessa disposição, tendo uma aproximação legítima, que é essa aproximação do “coração”. Nosso propósito nesse encontro é investigar essa questão da Realidade. Esse trabalho é para aqueles que já perceberam, sentem claramente, que a vida sem essa Realização é uma vida sem significado; é para aqueles que sentem um impulso verdadeiro e estão dispostos a investigar verdadeiramente essa questão da Realização, que representa a Real Felicidade.

A vida sem esse significado real, que é a constatação do que verdadeiramente nós somos, é uma vida distante da Realidade, distante da Verdade, e Verdade é Felicidade. O tema básico em Satsang é sempre a questão da Felicidade; não a busca de um significado para a vida, mas sim a constatação da Felicidade, que é a Vida. A mente está sempre buscando significado para ela mesma, que é o significado que ela projeta como sendo real para ela própria. Aqui não estamos interessados na mente e no significado que ela busca. A mente, com suas projeções, pode estar em busca da paz, da liberdade, da felicidade, ou de qualquer coisa que ela projete, mas tudo o que ela projeta é parte do que ela deseja, ou parte daquilo que ela teme. Portanto, isso não pode ser real.

Felicidade é o Estado de Ser, não um estado que a mente possa alcançar, porque tudo o que a mente pode obter ainda é parte dela mesma. Desfrutar da Felicidade real do Ser, que nós somos, requer que a mente retorne à Fonte, saia da sua habitual agitação. A mente geralmente está muito agitada, com pensamentos, sentimentos, desejos, medos, imaginações, conclusões, objetivos, e tudo isso está voltado para fora, para aquilo que ela conhece. Essas atividades da mente são a causa de todo distúrbio, de toda confusão, então, ela necessita cessar essas atividades, e isso é quando você está desidentificado da mente.

Identificado com a mente, você está distante de sua Natureza Essencial. Toda confusão está nessa identificação com a mente. A verdadeira Felicidade é algo descrito como essa Paz, da qual as escrituras tratam, falam, que é uma Paz que ultrapassa toda a compreensão humana − é esse Estado Natural de Ser, no qual a mente, com toda a sua atividade, cessa; é essa compreensão de sua Real Natureza. Você passa a maior parte do seu dia se confundindo com pensamentos, sentimentos e tudo aquilo que a mente conhece; tem raros momentos de descanso em si mesmo, de descanso nessa Presença, nessa Consciência, nessa Verdade de si próprio, de si mesmo, que é Felicidade, Paz.

Compreendem isso? Observem que é exatamente assim que acontece!

Assim, toda essa atividade cria o distúrbio, afasta você dessa simplicidade e calma de apenas Ser. A Felicidade é algo que já existe aqui e agora, dentro de nós, e de fato é a nossa verdadeira Essência, nossa verdadeira Natureza. Mas a mente está sempre procurando sensações, buscando satisfações e realizações de prazer, e, somado a isso, ela está constantemente fugindo de alguma coisa, de alguma dor, o que é basicamente medo. Esse é o movimento dessa ego-identidade. Quando falamos que a Felicidade é essencialmente o nosso Ser, nós estamos dizendo que essa mesma Felicidade é a natureza da Consciência em nós. Então, quando há Consciência, há Felicidade.

Se você carrega alguma forma de sofrimento, isso é sinal de inconsciência, de identificação com a “mente egoica”. É impossível haver infelicidade na Consciência. Miséria e sofrimento é possível na inconsciência, mas isso é algo impossível na Consciência, porque Consciência é plena Felicidade, é plena Liberdade. Infelicidade é prisão. Não importa a condição do corpo e nem da própria estrutura psicossomática, ou seja, não importa a condição do corpo ou da mente (aqui, mente é esse mecanismo de percepção, de movimento de pensamentos, lembranças, intelecto, e assim por diante), quando há Consciência tudo isso funciona de uma forma bastante natural, sem nenhum conflito, sem nenhuma desordem, sem nenhum distúrbio e sofrimento. O único elemento estranho aqui é essa “mente egoica”, é a ilusão de uma identidade presa a essa identificação com as histórias, presa às imaginações do pensamento.

Geralmente, o sentido de “pessoa” está presente nessa inconsciência, sobrecarregado de crenças, histórias, desejos, preocupações. Portanto, Felicidade significa Consciência, e Consciência significa o verdadeiro conhecimento, sem qualquer ilusão. Na Índia, esse verdadeiro conhecimento é chamado de Jnana, que significa a compreensão do que é falso, e essa compreensão é o fim do falso, da ilusão; isso é o Real Conhecimento.

Está claro isso?

Quando o falso é visto como falso, a ilusão perde todo o seu poder e desaparece. Então, o que está presente é a Liberdade, a Consciência, a Felicidade. Assim, a mente retorna à Fonte e desaparece ali. Isso é Silêncio, Inteligência e Verdade. Você não pode saber o que você realmente é identificado com a mente, seus desejos e medos. A menos que você tenha essa clara visão, o verdadeiro conhecimento de quem você verdadeiramente é, estará sempre vivendo no medo e no desejo, e vivendo dessa forma não há como ter o significado Real da palavra Felicidade. Aquilo que é o seu Estado Natural pode ser visto somente dentro dessa constatação – quando a mente termina – e, então, toda busca termina; a busca material, espiritual, termina.

Tudo isso precisa ser encontrado, ou constatado, dentro de você, e não do lado de fora. A palavra Satsang significa encontro com a Realidade do Ser – a Realidade que você é, aqui e agora, dentro. Isso é Ser, Consciência e Felicidade – Sat-Chit-Ananda (essa é a expressão da Vedanta).


Ok. Vamos ficar por aqui. Valeu pelo encontro. Namastê


*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite do dia 11 de Setembro de 2017 Encontros online todas as segundas, quartas e sextas as 22h. Baixe o App Paltalk e participe!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Desejo é medo e medo é desejo


A mente tem a necessidade de conhecer, porque ela tem a carência de não saber. O “não saber” na mente é a ignorância que busca conhecer. A ignorância do Sábio não busca conhecer, porque não há necessidade nenhuma de saber. A ignorância do Sábio é Ser, que é completo e, portanto, não é limitado, finito, nem é conhecido; não tem o que sabe e o que não sabe, nem o que sabe e o que ainda falta saber. É uma ignorância que carrega a compreensão do que É e o que É já está completo, não se estende, não se acrescenta, não aumenta nem diminui. Isso é Sabedoria, que é Ignorância, que é o “não saber”.

Qual o problema com a mente egoica? A mente não fica com o “não sei”, aliás, ela só tem continuidade no “vir a ser”, no “se tornar”, no “chegar”, no “alcançar”. Ela se movimenta nessa ilusão de estar num processo de crescimento, de evolução e de ampliação − é a natureza da mente egoica! Quando não há mente, não há esse movimento e isso é o que eu chamei agora de “ignorância”; não é uma ignorância que pode deixar você ignorante, mas a Ignorância que é pura Inteligência.

De onde nasce essa fala? Nasce da Inteligência! Não nasce do inteligente, porque não há o inteligente. Há somente a Inteligência, que é sinônimo de Ignorância, que não tem necessidade de saber qualquer coisa. Isso é Sabedoria! Então, Sabedoria é igual a Ignorância, que é igual a Inteligência, a Consciência, a constatação do que É, a Totalidade, ao Absoluto... Sua Natureza Real é assim.

A cultura, a educação, o estudo e os livros não podem lhe dar Isso, mas a Meditação pode fazê-lo constatar... não vai lhe dar Isso, mas vai fazê-lo constatar, porque já está aí. Então, você constata, ou descobre, o Sábio que você é e a ilusão termina. Com o fim da ilusão, há o fim da ignorância e a constatação da Compreensão, da Verdade, da Inteligência, e, com isso, o fim do sofrimento.

Quando o sofrimento termina? Quando o desejo e o medo terminam! Você quer ser algo por temer, por medo, ou por desejar escapar da dor, que também é medo. Então, desejo é medo e medo é desejo. Na Meditação, isso termina! Meditação que é a constatação de sua Natureza Real, que é Deus, que é Consciência, Presença, Verdade. O nome não importa, porque o nome é como eu coloquei agora há pouco... Mais uma vez, a gente volta para o conhecimento. Abandonemos isso, porque já sabemos que isso é ignorância aprendida... Então, a gente abandona o nome e toca na “Coisa”, ou melhor, se dissolve na “Coisa”. A mente se dissolve, se dilui na Fonte, que é a Consciência, a Verdade, Deus.

Participante: E essa experiência é transferível? Você pode transferir? Como garantir que o que você está falando não é mais um conhecimento?

Mestre Gualberto: Isso é mais um conhecimento! Se você quiser que seja, será mais um conhecimento. Se você desistir dele, ele desaparece.

Participante: Mas, qual é a diferença?

Mestre Gualberto: A diferença é existencial e não intelectual. A minha terminologia é intelectual, mas minha vivência é existencial. Eu não comunico o “intelectual”, porque eu estou além dele. Porém, você pode transformar Isso em algo intelectual; fazer como muitos hoje em dia e até se propor a fazer Satsang por aí. Depois de algumas lições, você pode transformar isso num conhecimento também, como qualquer conhecimento que se adquire.

Participante: Assim como acontece com as religiões, Mestre?

Mestre Gualberto: Sim, como fizeram com Buda, com Jesus, com Mahavira, com Krishna... Transformaram o existencial em Krishna em intelectual nos livros; o existencial em Cristo, no intelectual nos evangelhos. Então, não há nenhuma garantia de que isso aqui seja realidade... no intelecto não! Existencialmente, sim! Existencialmente é Real! Agora, se você ouvir e quiser adquirir isso, você adquire como uma nova informação, um novo conhecimento. Mas, você vai continuar aí, tendo mais uma coisa a acrescentar em cima das outras que você já tem; ou seja, será mais um lixo, mais um conhecimento Advaita ou Neo Advaita.

Participante: Mas, qual o “brinde” aí, onde você chega? Qual é o diferencial? Eu senti a sua Presença quando cheguei, mais no silêncio do que na sua fala...

Mestre Gualberto: Eu sou o Silêncio! Vocês é que me fazem falar. Eu não tenho nenhum problema em lidar com o que Sou, que é o Silêncio, mas vocês terão sérios problemas em ficarem somente com o Silêncio que Sou. Primeiro, não poderão capturar isso em sua totalidade − esse primeiro já é o último, porque vocês não poderão lidar com isso, dentro de todo esse peso de condicionamento que ainda carregam. Então, precisam de uma comunicação verbal para ir além dela e descobrirem a beleza de estar comigo nesse Espaço. A primeira coisa em que eu toco em vocês, quando vêm, é nessa dimensão.

Sabe qual é a primeira sensação que você tem, quando está comigo? Eu vou colocar em palavras, mas não tem nem como colocar em palavras... É algo que dentro de você bate assim: “Que coisa! O que é isso?”. Não é a minha fala... Antes de eu abrir a boca, olho para você e tem uma “coisa” que bate aí dentro. Então, quando eu começo a falar e gesticular, é a Natureza do Ser se expressando. Não é Marcos Gualberto, não é uma pessoa, não é uma figura, não é alguém. A mesma Consciência aqui é a mesma aí, é uma ressonância! Há um contato nessa dimensão.

Agora eu vou responder a sua pergunta. Como pode não haver mente aqui, e ter essa precisão, não só da linguagem, como o poder de acompanhar e não perder o fio da meada? A sua pergunta é: “Qual a diferença, onde está o diferencial?” O diferencial está na ressonância, que é existencial e não intelectual. Você não vai permanecer comigo porque “eu tenho um intelecto brilhante”, porque “intelecto brilhante” têm esses palestrantes por aí... Eu tenho um intelecto mediano. Não é o intelecto; é a Presença da Consciência, que é Inteligência. Só que isso não é o que impressiona você. O que impressiona você, aqui, é o poder desse Silêncio, é o que o Ser reverbera, aqui.

Como um participante disse, tem momentos em que esse Silêncio varre completamente sua mente e toda a sua história. É como se algo dissesse aí dentro: “Uau!”, e você fica paralisado, literalmente. Você olha para mim, como qualquer um que chegar aqui, e vai dizer: “Olhe o jeito como o pessoal olha para ele”! Mas, se duvidar, dentro de instantes, também, vai ser capturado pela mesma “coisa”, pelo mesmo toque de Presença, de Silêncio, de Consciência. Isso é o poder da Shaktipat, do toque da energia, do toque da Presença, da Consciência. É isso que mantém você nessa proximidade.

É claro que, com o passar do tempo, como Deus é muito completo, você vai perceber que está diante de uma Inteligência que não é ordinária; não está diante de um professor que você admirou na faculdade. Você vai sempre perceber que é algo um pouco maior, comparado àquele professor que você admirava na faculdade, porque é algo diferente. É essa ressonância que pode dar a você essa certeza, e esse é o diferencial.

Primeiro, você vai perceber que eu sou o único “cara”, a única “pessoa” (como é assim que você vê todo mundo, então vai me ver, também, como uma pessoa) que, por exemplo, não tem medo de dizer para você o que eu tenho que dizer, e, ao mesmo tempo, tenho uma Graça e uma Beleza que irão encantá-lo. Você vai dizer: “Caramba! Como pode? Ele está me dando ‘pancada’ e eu continuo gostando dele! Ele está me escrachando, ridicularizando a minha autoimportância e, ao mesmo tempo, eu me sinto muito bem”! No fundo, você vai perceber que não tem nada de pessoal, que não é como ser escrachado, ridicularizado por uma pessoa que não gosta de você. Na verdade, quando olhar para mim, você vai dizer: “Caramba! Tem algo nele que não me deixa ter raiva dele”; a ponto de não dizer “ele está sendo pessoal comigo”, porque não é verdade!


Participante: Mestre, eu senti essa ressonância. O Senhor traduziu exatamente isso. Eu ficava tentando entender com a mente o que é isso que eu sinto e não dá... É somente entregar “os pontos” e ficar aqui. Não dá para traduzir, melhor nem falar porque piora as coisas...

*Trecho de um encontro presencial em Fortaleza em Setembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

Onde há busca há sofrimento


A própria busca perpetua uma forma ou outra de sofrimento, porque, basicamente, “Aquilo que é” pode ser procurado, mas não pode ser encontrado. Vocês falam: “Estou à procura de mim mesmo…”. É isso? Você tem que procurar a si mesmo? É a si mesmo que você está procurando? Você não está aqui e agora? Que inquietação é essa? Que intranquilidade é essa? Que desassossego é esse? Então, que procura é essa? O que vieram fazer aqui? O que vocês vão fazer? Para onde vocês vão? Esse é o vício da procura, esse vício de procurar coisas novas. Você arruma um namorado, depois arruma outro, depois outro… Arruma um carro, depois arruma outro, depois outro… Qualquer coisa tem que ser nova, para ficar velha na sua mão e você poder ir atrás de uma outra coisa. Por que isso? Onde é que está o "x" da questão? Qual é o problema real?

Participante: A busca da felicidade…

Mestre Gualberto: Não é possível encontrar a felicidade! Descarte isso! Olhe para isso que está aqui, que é essa inquietude, essa intranquilidade, todo esse desespero humano, esse conflito, esse medo, esse desconforto, toda essa dor e infelicidade. E agora? Você já sabe que procurar não vai dar, pois você vai encontrar uma outra coisa para tentar tapar esse buraco, mas essa outra coisa vai ser menor que esse buraco e não vai conseguir tapá-lo… O buraco é muito maior! Então, o problema é esse buraco, esse vazio, essa infelicidade. E de onde nasce essa procura? Será do vazio ou será uma imaginação sobre o que se pode fazer com esse vazio? A imaginação do que se pode fazer com esse vazio dá início à procura e, aí, tudo o que se encontra é menor que esse vazio: você coloca algo nesse vazio e ele o engole. Tudo que se encontra é muito pequeno diante desse enorme vazio da infelicidade, da incompletude, da insuficiência, da dor.

Freud, Jung, Adler, Maslow… Quem resolveu isso, doutores? Ninguém resolve isso! Quem resolve isso?[Participante aponta para o Mestre Gualberto] .

Não é assim… Eu não resolvo isso. Você resolve isso! O que eu posso fazer é o que o meu Guru fez por mim: mostrar como você pode resolver isso aí. Eu estava sozinho, nessa mesma situação de vocês. Quando eu encontro vocês, vocês não me surpreendem, porque eu sei bem o que é isso, mas isso não está mais aqui. Você resolve isso por uma ação da Graça… Você resolve não continuar perpetuando isso e, aí, isso se resolve por uma ação da Graça, uma ação Divina, uma ação de Deus, uma ação dessa Coisa Desconhecida… uma ação do Guru.

Nesse sentido você está certo: se você não atrapalhar, eu resolvo. Você resolve me deixando resolver, mas não pode fugir. Eu ensino você a ficar quieto, a ficar aí, a não se mexer, a não se mover. Eu trago a quebra do encanto pelas coisas externas, dessa tentativa de você encontrar alguma coisa lá fora para preencher aí dentro. Eu ocupo isso! Por mais de vinte anos, meu Mestre ocupou o lugar de todas as coisas na minha vida, foi o tempo que eu precisei. Cada um precisa de um determinado número de anos, de meses, de dias, ou de horas, porque somos muito teimosos… Não é? Eu ensino você a desaprender, a deixar de olhar para fora… Eu ensino você a olhar para dentro. Todo o meu trabalho é para que você pare de buscar em toda parte, em todo lugar, alguma coisa para colocar nesse vazio.

A Verdade é que você nasceu para Ser, somente Ser… não para ser mãe, pai, empresário, filho, avó, avô, esposa, professora, médico... Você nasceu para Ser, só Ser, e você se esqueceu disso. Você está sendo "alguma coisa", e isso é um buraco, um vazio, que jamais se preenche. Aí, para piorar, a mente (isso é um velho truque dela) se compara com outros e diz: “Aquilo sim é que é ser feliz”. Não satisfeito com querer ser “alguém”, você quer ser um “alguém” como aquele “alguém”, então vai estudar, lutar, se preparar, trabalhar naquela direção. E ser “alguém” significa ter as coisas que “alguém” deve ter, pois “alguém” especial, como você se vê, se sente, deve ter casa, carro, um marido, uma esposa, depois meia dúzia de filhos, depois uma casa de praia…

Todos os familiares ficam muito felizes, quando você dá um filho para o seu marido. Você mesma se sente realizada! Você se sente um homem realizado quando dá netos para a sua mãe, sobrinhos para a sua irmã, para o seu irmão… Você deixa todo mundo feliz! Mas você olha para si e diz: "É só isso?”. Então, a mente diz: “Não! Tem mais alguma coisa que você ainda não conquistou”. Aí, parece que, quanto mais coisas você coloca, mais este vazio se torna evidente.  

Para preencher esse vazio, você também vai para as religiões, vai buscar gurus… Esse vazio é criado somente pela sensação de ser “alguém”. Não é por Ser, mas pelo desejo de “vir a ser”, pela intenção de ser. Você, que nasceu para Ser, esqueceu como Ser, confundindo-se com as operações da mente cultural, social, educada e treinada para obter. Assim, não tem como a felicidade ser a sua Real Natureza, e, no lugar disso, há a infelicidade.

Você vê como não se trata de buscar? Buscar o torna mais infeliz! Ser é uma questão de desaprender essa coisa de “vir a ser”, de ser “alguém”, aí só fica Isso: Ser! Então, a mente para com essa tagarelice interna, esse monólogo, essa coisa de falar com você mesmo o tempo todo. Você é alguém que, constantemente, está sendo ofendido, magoado… Você encontra uma coisa e diz: “Agora vou ser feliz!”, mas aquilo frustra você. É uma frustração muito grande ser “alguém”: ser mãe, pai, marido, esposa…

É incrível como isso é simples! Então, do que é que estamos mesmo tratando em Satsang? Estamos falando do fim da ilusão de ser “alguém”; estamos apontando para um Estado livre do ego, do medo e do sentido de uma “pessoa” presente, com as suas buscas e insatisfações intermináveis. Estamos falando do fim da mente egoica, que transporta nela tantas crenças e ideias, tantos conceitos e conhecimentos, tantas experiências e tantas soluções, as quais nunca resolvem nada e, ainda, criam mais situações, que, por sua vez, criam mais situações. Então, é melhor ir além da “pessoa” e deixar o mundo por conta Daquele que está brincando dessa forma. A princípio, parece uma coisa muito cruel para você, mas é apenas leela (como os indianos chamam essa brincadeira) o modo como Deus lida com tudo.


Você cria filhos para eles terem filhos e perpetuarem toda a miséria humana, porque essas crianças também vão ter filhos que, por sua vez, vão ter filhos, e essa dor humana, essa miséria, essa leela continua. Você não vai mudar isso! Você vai acordar desse sonho; é só o que você pode fazer. O sonho é assim: carrega o bem e o mal, a crueldade e a bondade, a estupidez e a sabedoria humana, o construir e o destruir. Então, acorde do sonho! Assim, você está além do ego, da mente, desse jogo, desse vazio, dessa inquietude, desse absurdo estúpido que é a vida humana sem o Divino; a vida do “eu”, com todos os “meus” (minha casa, minha esposa, meus filhos, meu marido, meu corpo, minha mente, minha saúde, minha doença…). E agora?

*Trecho de uma fala em encontro presencial na cidade de Fortaleza no mês de abril de 2017

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A ilusão da busca da felicidade

Em geral, o olhar que você tem para o mundo, para a vida, para tudo à sua volta, é algo orientado por escolhas, desejos e medos, algo que você constantemente está tentando manipular; essa é a base do condicionamento humano. Nós não ficamos com a realidade do momento presente e isso significa que não ficamos com a verdade do que é, daquilo que está aqui. Assim, a totalidade dos eventos, acontecimentos, está sempre sendo interpretada mentalmente, ou seja, estamos constantemente interpretando a vida, a realidade, através do pensamento, das ideias. Estamos sempre tentando acertar, ajustar a totalidade dos acontecimentos, dos eventos. 

Não podemos nos aproximar da Verdade através do pensamento. Não há nenhuma realidade no pensamento, pois ele é apenas um fenômeno acontecendo, como qualquer outro, e não pode dar significado a nada. O pensamento não pode interpretar o que acontece, nem pode interpretar a vida, essa coisa tão vasta e misteriosa, e, no entanto, é isto que você tem procurado fazer através dele.

Todo o conhecimento e todas as informações sempre envolvem a noção de tempo, espaço e de um percebedor das coisas. Então, perceber as coisas está sempre nessa noção de tempo, espaço e um percebedor, com o pensamento e suas ideias sobre o que acontece. O que estou dizendo é que toda noção que você tem, por exemplo, sobre o relacionamento em família é algo que você, como um percebedor do que está acontecendo ou parece estar acontecendo, está sempre avaliando no tempo e espaço. Você está sempre criando uma história particular, pessoal, sobre tudo isso e, é claro, está muito envolvido com essa história.

A sua identidade pessoal está dentro dessa história. Você é o percebedor, no tempo e espaço, e isso falsifica completamente a realidade do fenômeno, desse simples acontecimento. Você está sempre julgando, comparando, aceitando ou rejeitando, e isso está produzindo sofrimento para este falso "eu" presente, porque é ele esse percebedor do tempo e espaço, dentro dos eventos e acontecimentos. Isso é completamente falso, pois não é possível você conhecer a totalidade dos acontecimentos, eventos, sendo um percebedor, identificado com a ilusão dessa falsa identidade.

Todas essas informações envolvendo tempo e espaço são somente uma criação do próprio pensamento e, consequentemente, essa representação mental que você faz termina sendo, necessariamente, dualista. Em outras palavras, ela está julgando o que é bom e o que é mau, o que é certo e o que é errado, e está dentro dessa coisa de gostar ou não gostar. Veja como isso é interessante: essa é a dualidade e é exatamente isso que sustenta a ilusão de um sofredor; e o sofrimento somente é possível quando existe um “sofredor”. Esse é o mundo que você conhece quando está perdido na mente, identificado com essa crença.

A mente cria um tempo e um espaço psicológicos — tenta evoluir dentro desse espaço e, para evoluir, ela precisa de tempo. Ela nunca está satisfeita com o que está surgindo neste instante. Ela está imersa em todo tipo de conhecimento, experiências, e tentando transformar "o que é" numa outra coisa. Então, ela cria todo tipo de ilusão, sendo a maior de todas elas a busca da felicidade; projeta uma “felicidade” que ela idealiza e vai em busca disso, através de uma realização pessoal, profissional, amorosa... Esse é o modelo supostamente lógico, verdadeiro, da realidade, no qual você foi educado para viver, mas, na verdade, é somente uma representação psicológica da vida, uma interpretação mental de uma realidade puramente subjetiva, imaginária. Agora, fica claro para você porque chamam isso de “estado de sono”, no qual o “sonho” da separação, de uma entidade separada de Deus, está acontecendo; como se houvesse você e Deus, você e a Verdade... Esse é o “sonho” acontecendo nesse "sono" da ignorância sobre quem você é verdadeiramente.

Há uma beleza nesse momento chamado Satsang, onde podemos discorrer sobre isso, não com palavras, mas através da investigação. Há algo que pode romper com tudo isso: uma vida de entrega e dedicação à investigação da Verdade. Você nasceu somente para isso. Nasceu para descobrir que não nasceu, que não há nenhuma entidade separada aí presente, nessa única realidade que é Deus.

Então, essa representação intelectual, verbal, mental, imaginária que temos do mundo, que se sustenta nessa crença de tempo, espaço e percebedor, é algo completamente falso. Isso termina induzindo ao surgimento desse estado de inconsciência, conhecido como “sono”. A base que sustenta tudo isso é a identificação com o pensamento.

Como é que você consegue acompanhar isso? Afinal, ouvir isso significa o que para você? Como isso o toca? Como é que lhe soa saber que você não é essa pessoal consciência, que não é quem acredita ser, que não existe um indivíduo presente nesse momento?

O pensamento sempre é a base do tempo e do espaço; a base para essa falsa identidade "se movimentar".


Ok, pessoal. Vamos ficar por aqui e até o nosso próximo encontro. Namastê.


*Transcrito a partir de um encontro online na noite do dia 18 de Setembro de 2017 - Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (GMT-2 Horário de Verão).

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Beleza Dessa Realização





Você não precisa aprender o que já sabe, precisa apenas se lembrar, mas você anda tão ocupado que não tem espaço para isso. O espaço está sendo tomado por atividades da mente e seus desejos, suas vaidades, seus caprichos, suas buscas… A mente está tomando todo o espaço que você tem para Ser. Então, você casa, tem filhos – ou ainda quer fazer isso – o que implica trabalho, necessidade de trabalhar, necessidade de construir uma vida para atender a todos os seus desejos. O desejo tem muitas consequências. Algumas podem parecer boas e outras não, mas essas consequências estão sendo boas ou ruins para este que está se ocupando e, quando você se ocupa, seu espaço e tempo são tomados. Assim, não há tempo e espaço para Ser, para a Felicidade, para a Realização, para a Completude, que é esse Amor, que é essa Liberdade. 

Quando você vem a Satsang, você se dispõe a se desocupar e a encontrar um tempo para Ser, para investigar a Natureza do Ser, a Natureza da Realidade. Porém, não se pode investigar a Natureza do Ser, a Natureza da Realidade, e se deparar com essa Totalidade, com essa Completude, com essa Liberdade, com esse Amor, com essa Felicidade, enquanto você estiver se ocupando com a “pessoa” e seus desejos – o desejo de ser pai, de ser mãe, de ser chefe de família, de realizar alguma coisa… A “pessoa” nunca terá tempo e espaço para outra coisa, a não ser para ela mesma, mas quando ela está, não há Verdade e, se não há Verdade, a ilusão opera, e ilusão é sofrimento. 

A ignorância não é real; a Verdade apenas não foi lembrada. A Verdade não é lembrada enquanto a ilusão da ignorância se mantém. A ilusão da ignorância é esse afastamento para outras coisas, as quais ocupam o lugar da Verdade, do Divino, de Deus, da Consciência, da Sabedoria, da constatação de sua Natureza Divina, de sua Natureza Real. Por isso, os sábios falam da importância de ir além do mundo, de renunciar o mundo. Agora, você compreende a implicação disso! Renunciar o mundo é viver sem conflitos que o desejo produz. Renunciar o mundo significa estar “morto”! 

Por isso que Satsang é assustador! Por isso que alguns vêm e depois desistem! Satsang é para todos, mas, na verdade, é só para alguns, porque, no fundo, ninguém quer morrer. Todos querem a Felicidade, a Paz, a Liberdade, a Verdade, o Amor, mas querem da forma que a mente deseja. Em suma, você quer ter tudo que adquiriu e tudo com o que se identifica, mas quer permanecer sem conflito. Então, a Felicidade é uma coisa impossível! 

Ser “alguém” significa ter coisas, o que faz com que você se sinta “vivo”, e “alguém vivo” não está em paz, porque lidar com o que se tem dá muito trabalho, muita preocupação, toma muito espaço e tempo. Entenderam a questão toda? Por isso se fala da renúncia… É de fato uma morte! Não é, basicamente, abandonar tudo do lado de fora, porque isso é relativamente fácil. Se você tiver coragem de dizer não a tudo e a todos, você pode conseguir isso. Alguns já fizeram! Mas a “morte” não está nisso! É algo muito mais radical! É uma coisa interna! 

Esse espaço e esse tempo que se fazem necessários para esse Despertar começam e terminam aqui e agora. Começam com a lembrança de que você não é corpo e que esse corpo não é seu, nem aquilo com que ele entra em contato – pessoas, objetos e lugares. Então, o cerne da questão é: “Quem sou eu?”. 

Percebam a beleza do Despertar, a beleza desse Florescer, a beleza dessa Realização… Não se trata do que está fora do corpo, nem do que está dentro da cabeça, mas dessa constatação de sua Real Natureza, dessa “Coisa” inata. O reconhecimento Disso, a lembrança Disso, é a morte da ilusão da ignorância, é a morte da “pessoa”, é a morte dos desejos e, quando os desejos terminam, o medo também termina. Eu não estou falando de uma morte real, mas de uma morte ilusória, porque só pode morrer aquilo que é uma ilusão. O que é real não morre! Só pode desaparecer aquilo que apareceu, e aquilo que apareceu vai desaparecer, isso é uma questão de tempo. Então, não importa o que você ama; não é seu! 

Reparem como é lindo isso! Não há nada que seja permanente, que permaneça imutável, intocável pelo desaparecimento. A impermanência é a natureza das aparições, porém há algo aí que não pode desaparecer, porque nunca apareceu! Você sabe que está aí, mas você nunca viu! Há algo que está presente, não pode ser negado, mas nunca vai ser encontrado, porque nunca vai ser visto! Isso é como os olhos: você sabe que estão aí, mas você nunca os viu. Para vê-los, você tem que olhar para o espelho. Mas, ao olhar para o espelho, você vê os seus olhos ou o espelho? Percebe? Você nunca vai ver os seus olhos! No máximo, você vai ver algo que reflete alguma coisa. Da mesma forma, o seu Ser não pode ser visto, a sua Natureza Verdadeira não pode ser vista, não pode ser capturada, apanhada, mas Ela está aí. Você se esqueceu de Ser, você se esqueceu do que você é, e agora está com objetos, está com espelhos. Você nunca vai saber quem você é! Lembrar é possível, saber não! 

A única coisa que você tem feito de forma equivocada, de forma errônea — e por isso está todo enrolado, sofrendo, confuso, desorientado, assustado, cheio de problemas — é se confundir com o que você não é, esquecendo quem, de fato, você é. Você está fazendo isso olhando para espelhos, encontrando coisas que você não pode segurar. Você não pode segurar suas riquezas materiais, suas riquezas emocionais, suas posses… Pessoas são posses psicológicas, imagens psicológicas e coisas são posses físicas, mas você não pode segurar isso. Não pode segurar o corpo, porque também é uma riqueza que não lhe pertence. Quando você adoece ou o corpo começa falhar, você fica muito desesperado, você fica muito assustado, mas o corpo vai desaparecer. Você tem que usar esse tempo e esse espaço para se lembrar de que você não é o corpo e que o melhor lugar para se estar é em Satsang, sobretudo quando o corpo está falhando, pois é onde você descobre que não é o corpo. 

Na Índia, é muito apreciada a oportunidade de estar diante de um Jnani, de um Sábio, de um Mestre, que é aquele que vive em totalidade, desidentificado do corpo e, consequentemente, do mundo e das aparições. Então, confia-se na Graça, na Presença, na Sanidade, na Santidade de um Mestre vivo, porque, talvez, um olhar seja suficiente para que se deixe a forma de modo sereno, sem gritos de desespero. Se você entrega a vida a Deus, então entregue também a sua morte a Ele! Você não controla a sua vida, portanto você não pode controlar a sua morte. Mas, se você entrega a sua vida, Deus cuida da sua morte. Por isso, o ponto aqui sempre será esse: Quem é você? 

Se você perguntar a um Sábio: “Você sabe quem você é?”, ele lhe responderá: “Não! Eu não sei quem sou… Eu Sou!”. Com essa Realização, quem fica para saber? Não fica nada! Podem perguntar: “Você é um Iluminado, um Realizado?”. Não sei! Eu só sei o que não sou: não sou o corpo, não sou a mente, não sou o mundo, não sou as experiências, não sou pai, não sou mãe, não sou avô, não sou nenhuma história atrelada a esse corpo. Então, se você disser que eu sou bonito, isso será uma questão sua e não minha; se você achar que sou feio, isso será uma questão para você e não para mim; se você me chamar de Guru, isso será uma questão sua; se você me chamar de fraude, também será uma questão sua e não minha. 

Simples, não é? Eu sou qualquer coisa que você quiser que eu seja neste momento, porque no momento seguinte você vai querer outra coisa e terá também essa liberdade de me ver da forma que você quiser. Eu não me importarei também, porque eu sei o que não sou; porque eu só sou o que Sou. 


*Trecho de uma fala em um encontro presencial na cidade de Cabedelo - João Pessoa - em Dezembro de 2016

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Meditação é o seu Estado Natural


Vocês precisam aprender a lidar com o corpo e a mente da mesma forma que conseguem lidar, com tranquilidade, com o carro de vocês. Você entra no carro, liga e dirige… Volante, pedais, marcha… Depois que chega ao destino, sai do carro, tranca-o e pronto. Depois que deixa o carro fechado, você não se comporta como se ainda estivesse dirigindo; o carro fica para trás.

Há milênios as pessoas procuram estar no controle dessa máquina, desse carro, chamado “corpo-mente”. Elas tentam isso através de uma prática chamada meditação e eu quero falar um pouco sobre isso, porque eu considero a Meditação como um assunto de extrema importância, se você está trabalhando o fim dessa ilusão – a ilusão da egoidentidade, da separatividade.

Há milhares de anos as pessoas tentam controlar a mente. Elas têm frases como: “Se você controla a mente, você controla o corpo!”. A questão é que, de fato, é essencial que você não se prenda à ideia “eu sou o corpo”. Todo problema humano está exatamente nisso: ele tem um carro e, quando o deixa fechado, continua se comportando como se estivesse dirigindo. Então, é claro que deve haver desordem na vida dessa forma. Esse é um comportamento completamente doentio; é o comportamento da egoidentidade.

Você está identificado com o corpo, assim como alguém está identificado com o carro depois que o desliga e não precisa mais dele. O corpo é só uma máquina, um instrumento da Consciência, mas quando ele fica a serviço dessa identificação, disso que chamamos de “mente egoica”, surge o problema.  Na hora em que a máquina está desligada, ela não está em uso, então você a deixa quieta. Se ela está em uso, ela está em ordem. Se ela não está em uso e, mesmo assim, você se comporta como se ela estivesse, então tem-se a desordem, a confusão, o sofrimento, a miséria e todo problema humano que conhecemos.

A tentativa de controlar a mente e o corpo através de uma técnica chamada meditação já tem sido feita há muito tempo e, até hoje, o máximo que se conseguiu foi um artificial controle sobre esse mecanismo através da meditação tradicional (uso de uma técnica de respiração, de repetição de mantras ou de determinadas posturas físicas).

Meditação é algo presente como Consciência, como seu próprio Ser. Seu eterno Ser é Consciência, é Meditação. Então, você não precisa obter isso – essa liberdade de deixar a máquina desligada quando ela não estiver em uso – porque isso já é inato, já está aí. Meditação é o seu Estado Natural. Tudo que você precisa é deixar a máquina desligada e não se comportar como se ela estivesse ligada. E como é que você se comporta assim? Pensando e produzindo o cultivo de sentimentos atrelados ao pensamento, quando o corpo só está parado, sem fazer nada.

Quando o corpo está ativo, fazendo alguma atividade como caminhar, comer, lavar pratos, cuidar da casa, escovar os dentes, você não precisa da mente envolvida nisso; a não ser que a atividade seja intelectual, que precise do uso de palavras. Nesses casos, o intelecto irá utilizar uma forma ordenada para trabalhar as palavras, como na escrita de um livro. Para isso, a sua atenção inteira permanece nas palavras que você está colocando no livro — você não fica tratando das contas que você tem para pagar, nem da malcriação que seu filho lhe fez, ou da raiva do marido, porque a atividade ali é só escrever o livro, nada além disso! Não se confunda com a desordem que o pensamento quer produzir.

Reparem que estamos abordando essa questão da Meditação como algo totalmente diferente de uma prática, um sistema ou uma metodologia. Isso já tem sido tentado e não tem dado certo. A Meditação é seu Estado Natural, de desidentificação do experimentador em dada experiência. Até mesmo para fazer uso de um pensamento, quando se faz necessário, não precisa de você ali como um pensador, como o autor das ações, ou como uma pessoa magoada, ofendida, ferida, ou mesmo entusiasmada, alegre (o que, na verdade, é puro excitamento mental). Na Índia, eles chamam de Sahaja Samadhi, isso que é você em seu Estado Natural.

No meu caso, eu não saio da Meditação. Sair da Meditação seria me comportar como se o carro ainda estivesse comigo, em vez de deixá-lo desligado, parado. Isso criaria desordem! Isso seria uma completa desordem! Seria como se eu estivesse no trânsito e saísse atropelando as pessoas, me chocando com elas, conflitando com o que é. Para isso, se fariam necessários o corpo e a mente, e eu não preciso colocar o corpo, a mente e tudo que ela representa (sentimentos, sensações, emoções) na experiência das relações… Isso seria a ilusão de uma máquina ainda ligada.

Vocês compreendem o que estou dizendo?

Se você está na ilusão de estar dirigindo um carro enquanto ele está parado, você está na ilusão da separação, do controle, do medo, do desejo, da confusão, vivendo toda a miséria que a mente tem construído. É preciso estar atento, porque isso é uma coisa muito viciada, cultural e socialmente aprendida—uma herança dos pais, dos avós, da sociedade, do mundo, da insanidade humana… Essa é a confusão de ser uma pessoa na experiência de falar, de se relacionar, de comer, de dormir, de andar, de trabalhar, de lidar com os outros…


Então, o que é Meditação? Meditação é você em seu Estado Natural, livre do conflito que a mente produz, ou procura produzir, o tempo todo, como alguém se passando por você na experiência, dirigindo um carro imaginário. Então, você fala demais, você pensa demais, você sente muito, se emociona o tempo todo e, é claro, se irrita muito, se aborrece muito, se contraria muito, se chateia muito…

*Transcrito a partir de uma fala em um encontro presencial na cidade de Cabedelo - PB - em Agosto de 2017 

sábado, 4 de novembro de 2017

Planeta dos Zumbis



A pergunta é: por que você não está lidando com a Realidade? Será mesmo necessário encontrá–La? Ou Ela é algo presente, mas seus ouvidos não estão atentos e seus olhos não estão abertos para Ela?

O que tenho notado à minha volta é um completo descaso com a Realidade. Não temos olhos nem ouvidos para Ela, e toda essa negligência se mostra como confusão. A mente é expert em criar confusões de todo tipo. Você não se encontra afastado da Realidade porque não possui olhos ou ouvidos, mas porque não tem interesse nisso verdadeiramente. E assim você tem conduzido a sua vida… uma vida aborrecida, tediosa, infeliz, cheia de conflitos!

Você diz: “Eu me esforcei tanto, me dediquei tanto, me sacrifiquei tanto por ele, por ela, e, no entanto, ele, ou ela, não me considera… Afinal, eu sou sua mãe, sou seu pai, sua namorada, seu namorado…” Dessa forma, há um constante conflito, um constante pesar, uma constante dor, um constante sofrimento. Tudo isso porque você está cultivando essa imagem, na qual você se sente rejeitado, manipulado, usado… É apenas uma imagem que se projeta em autoimportância nessa relação.

Tudo isso é muito simples! É simples ver o quanto você está agarrado a essa imagem que você tem do outro e de si mesmo. Reparem como o ego é simples e ao mesmo tempo complexo! O que estou dizendo é que você não tem nenhum problema quando não tem essa imagem de si mesmo, mas você aprecia muito isso! Viva livre da imagem, desse falso “eu”!

Você despreza a Realidade e fica com a ilusão. A ilusão é uma permanente fonte de vitalidade para esse “zumbi”. Vocês sabem o que é um zumbi? É uma criatura estranha. Ela não está viva e nem está morta, e tudo que ela faz é assustar. Esse falso “eu”, que alguns chamam de ego, é um zumbi. Não é uma coisa viva – não existe nenhum ego que seja real – mas também não é uma coisa morta, a ponto de se dizer que não está aparecendo.

Enquanto houver a fantasia, a ilusão, toda essa confiança que se dá aos pensamentos, aos sentimentos, às crenças, esse “morto-vivo” continuará assustando! Você vem ao Satsang e parece querer se livrar disso, mas, no momento seguinte, lá está você de volta, se levantando de um túmulo e procurando a quem assustar. Eu fico bastante impressionado. É muito assustador! Com um pouquinho mais disso, eu mesmo ficaria assustado (risos).

Afinal, por que você está em Satsang? Você quer mesmo se livrar dessa falsa identidade, desse personagem, dessa autoimagem? Quer exorcizar de uma vez por todas o zumbi? Então você tem que parar de alimentá-lo. Sabe como você alimenta isso? Mantendo essa crença sobre quem você é, no contato com o mundo, com a vida, com as pessoas, com as experiências.

Tudo em sua volta confirmará a crença que você tem acerca de si mesmo… Absolutamente tudo! Aquela mulher que vive com você dirá que você é o marido dela. As crianças pequenas que nasceram chamarão você de pai. Aquela senhora mais velha que o criou irá chamá-lo de filho, e você olhará para ela e a chamará de mãe. Aquele homem que vive com ela, você chamará de pai. Se aquela moça que mora com você, que o chama de marido, tiver um namorado, outros chamarão você de chifrudo.

Tudo confirma que você é alguém, porque todos o tratam como alguém para eles e esperam ser tratados como alguém por você. Isso é um complô! Conspiração seria a palavra mais correta. Toda a sociedade espera de você… Você tem uma imagem que a sociedade lhe dá, que o mundo lhe dá, que todos à sua volta lhe dão. E você adora isso! Faz uma questão enorme de ser considerado! As pessoas têm que lhe dar bom dia, boa tarde, boa noite… Você quer ser alguém respeitado, quer se sentir considerado, amado. Sua imagem não pode ser ferida, ofendida, magoada, discriminada, rejeitada, muito menos odiada, abandonada, traída. Dessa forma, o zumbi continua vivo.

Hoje, nós estamos no planeta dos zumbis. Esse é o estado da humanidade nesse momento, com um modo de viver completamente fútil, medíocre, infeliz, miserável… E tudo isso porque não se presta atenção, não se escuta e não se vê. É necessário estar atento nesse escutar e nesse ver, para que esse falso “eu”, essa falsa identidade, esse comportamento de zumbi, de um morto-vivo, desapareça. Este é o Despertar, a Iluminação, a Realização de Deus.

Enquanto você estiver mantendo essa imagem de si, você terá muitos à sua volta para apreciá-la e desprezá-la. Pela apreciação e pelo desprezo, eles alimentarão essa imagem que você tem de si mesmo e, assim, você permanecerá dentro da conspiração dos zumbis; continuará sendo parte desse filme. Esse filme é o sonho da ignorância, o pesadelo da ilusão. É necessário Acordar, Despertar! Pare de sustentar essa imagem! Pare de buscar apreciação, reconhecimento, satisfação, preenchimento, compreensão e aceitação no outro! Só então você poderá descobrir o que é ser livre. Claro que isto significa o fim do planeta dos zumbis — o seu mundo tem que ser destruído. Na realidade, é literalmente assim que acontece.

Você não encontrará Ramana Maharshi, Buda, Jesus, Osho e Krishnamurti fazendo parte desse mundo. São seres de outra espécie, não fazem parte da espécie dos zumbis. Por isso que chamavam isso de nascer de novo; e para nascer tem que morrer! Quando você morre, o mundo desaparece. Eu falo de uma morte real, para um nascimento real. Então, primeiro você morre de verdade e nasce de verdade. Assim, você não é mais um zumbi, não é mais uma espécie de criatura que nem está morta e nem viva. Compreende agora? O mundo não compreenderá isso. Um homem como Cristo caminha nesse mundo como alguém diferente, uma espécie diferente, um ser diferente… Há uma qualidade nova, uma fragrância, um perfume, uma leveza…


A Felicidade é a natureza, a qualidade, dessa Presença. Tudo isso simplesmente acontece quando essa imagem, esse sentido do “eu, essa ilusão, esse pesadelo com zumbis assustados e assustando, se desfaz.

*Transcrito de uma fala em um encontro online na noite do dia 1º de Setembro de 2017 - Encontros online todas as segundas, quartas e sextas as 22h - Para participar baixe o App Paltalk.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Despertar para a Meditação



Em Satsang, nos deparamos com uma limitação, que é a limitação da linguagem, da fala. O propósito, nesses encontros, é que você vá além da fala, e, se ficarmos em silêncio, vá também além desse silêncio – isso porque tanto o silêncio quanto a fala não podem, de fato, ajudar.

Quando você aceita as limitações da linguagem, entende que nada do que está sendo falado aqui é, em última instância, algo verdadeiro, algo final. Contudo, ao mesmo tempo que as palavras podem nascer de uma teoria, de uma crença, elas também podem nascer de uma vivência, de uma experiência direta, e, em razão disso, ficam carregadas de um Poder, de uma Presença Real. Nesse sentido, as palavras se tornam mais do que meros apontamentos verbais; elas entram como bombas poderosas e podem ter um efeito completamente destruidor nessa estrutura do ego, que é todo esse condicionamento que todos trazem para dentro do Satsang. O mesmo acontece nesse silêncio, para aqueles que sabem ficar nesse silêncio, que sabem entrar nesse silêncio.

Nosso interesse aqui não está em estudar um sistema filosófico, espiritual. Aqui, não temos a preocupação de não errar. A Sabedoria não se preocupa com isso, a Verdade não se preocupa com isso, mas um sistema filosófico sim. Quando se adquire um determinado conhecimento, você tem a preocupação de se manter nele, naquilo que é só uma nova doutrina, um novo sistema de crenças, algo aprendido; isso não é Sabedoria.

Assim, o poder desse encontro não está exatamente na fala, mas no efeito que se encontra por trás dela, naquilo que pode ser sentido aí, nessa explosão que pode ocorrer aí, neste instante. Uma fala que nasce do Silêncio real, toca o Silêncio real; uma fala que nasce da Sabedoria real, toca a Verdade real presente dentro de você. Portanto, não se preocupe com o conhecimento aqui, nesse espaço. A Liberação, a Realização, a Iluminação, não nasce do conhecimento; Isso acontece com o fim desse sentido egoico, desse sentido de separação.

Nesse momento, você não está ouvindo alguém que sabe das coisas, que sabe de algo que você não sabe. Aqui o ponto é outro! Todo o meu propósito nesse encontro é lhe mostrar como viver sem conflito, sem sofrimento, e não lhe dar algum conhecimento novo. Eu quero lhe mostrar que é possível viver livre do sentido de dualidade, de separação, o que significa viver em Felicidade, que é quando não há mais medo, ilusão, sofrimento. Isso não tem nada a ver com conhecimento, com saber alguma coisa que outros não sabem, conhecer alguma coisa que outros não conhecem; não se trata disso! Trata-se, basicamente, de não se confundir mais com a mente, com as suas criações, com as suas crenças, com as suas ideias. Portanto, quando você estiver em Satsang, já tenha isso muito claro para você: não tente aprender algo aqui! Você está aqui exatamente para desaprender tudo! Trata-se do esvaziamento de todo esse conteúdo, de todas essas crenças, experiências… de absolutamente tudo!

Sabedoria é Meditação e Meditação é ausência de conteúdo. Isso é você em seu Ser, em seu Estado Natural. Estamos sempre diante de algo novo, desconhecido, da vida em seu movimento. Assim é a Sabedoria, a Verdade, e isso é Meditação! Um outro nome para Meditação é Amor. Na Índia, eles chamam isso de samadhi. Não é um transe, não é uma experiência mística, é você em seu Estado Natural. Nele, você come quando tem fome e dorme quando tem sono. Você tem uma vida normal. Externamente, você é como qualquer outra pessoa, mas não há mais “pessoa” aí, não há mais o “sentido de alguém” presente em uma ocupação profissional, tratando de negócios ou cuidando da rotina do dia.


Percebem que não há nada para aprender aqui? Você não aprende a Meditação, você desperta para Ela. Estou dizendo que você sai do sono e desperta! Você investiga a natureza da ilusão, entrega isso, e, assim, a Meditação floresce. Esta autoinvestigação, esta auto-observação, acontece com essa entrega, essa rendição. Isso é parte da devoção a Deus, à Verdade. Quando isso acontece, você desperta para a Meditação!

*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite do dia 30 de Junho de 2017 - Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (horário de Brasília) - Para participar e só baixar o App Paltalk

Compartilhe com outros corações