domingo, 10 de dezembro de 2017

Consciência é Amor


Essa identidade está presente porque ela está apoiada e sustentada por uma base, que é basicamente pensamento. Se você busca a Origem do pensamento, se você vai à Fonte do pensamento, se o seu olhar se volta para encontrar a Natureza Essencial e Substancial do pensamento, você encontra o Vazio. O Vazio é o fim dessa base que sustenta essa ilusória presença de alguém. Sua Natureza Real é o Vazio! Em sua Natureza Real não há essa base; embora o pensamento possa aparecer, ele é só um fenômeno. O que dá identidade a esse fenômeno chamado pensamento, é essa desatenção na qual você foi criado. 

Todos vocês são desatentos, todos estão sonolentos; não estão de fato acordados, estão todos dormindo. Essa sonolência é essa desatenção que faz o pensamento ser essa base que sustenta essa identidade. Mas de fato, não existe essa identidade, tudo o que existe é o Vazio, que é sua Natureza Essencial, e que, curiosamente, funciona como a base dessa identidade... Um jogo divino…. Você está livre desse jogo quando não está emaranhado no meio dele, perdido no meio dele, isso se chama Consciência. Essa Consciência é a Atenção.

Você precisa “desenvolver” essa Atenção! O que lhe deram desde a infância foi a desatenção; que é esse modus operandi, que é essa maneira de atuar, de se mover idealizada, planejada, calculada e executada pelo pensamento. Poderíamos chamar de inconsciente, mas essa divisão entre consciente e inconsciente é uma divisão muito arbitrária – não há divisão no pensamento. Todo pensamento acontece nessa desatenção – poderíamos chamar isso de inconsciência. Quando está acontecendo nessa Atenção, está acontecendo só nessa Consciência… então não há inconsciência, quando não há inconsciência não há mecanicidade, não há essa coisa calculada, idealizada, planejada e executada por essa ego-identidade, essa pessoa-identidade.

É fundamental se despir de todo condicionamento, e isso só é possível no fim dessa desatenção. Quando você vem a Satsang, eu lhe dou fogo para essa fogueira – a fogueira da Consciência – eu lhe dou fogo colocando lenha. Lenha são dicas... é o que na Índia chamam de Upadesa – o ensinamento. A qualidade do meu ensinamento é não ensinar, é lhe despertar, é lhe trazer para Consciência lhe dando Atenção, alimentando essa chama. Então nessa fogueira da Consciência, a chama é alimentada pela Atenção, e o que faz esse fogo da Atenção arder são as dicas que eu lhe dou. Essa é a minha upadesa, o meu ensino… 

E o meu ensino, basicamente, é que não há nada para se aprender. Ser não se aprende! Ser é como o Amor: Ele acontece, você não faz Isso acontecer. É algo que explode dentro de você de forma natural e espontânea. O amor não se aprende nem se cultiva, não é como um relacionamento que é cultivado pelos acordos, pelos diálogos, por essa coisa de discutir a relação... assim se cultiva relacionamento. Mas relacionamento é uma coisa do ego, isso não é Amor. 

Amor está na relação, não no relacionamento; Amor é não cultivável, relacionamento é cultivável. Você passa anos em um relacionamento chamado amoroso – eu chamaria isso de relacionamento adormecido. Os acordos que se fazem para se manter o relacionamento, um relacionamento adormecido e não amoroso. O Amor não conhece relacionamento e assim não pode ser cultivável. 

Assim como essa Consciência, assim como essa Atenção, assim como esse ensino, você não pode cultivar isso, você pode despertar para isso e você desperta para isso de uma forma natural e espontânea. É um acontecer, assim como o Amor é um acontecer não cultivável. Deus só é reconhecido nesse constatar do Amor, e isso não é cultivável, você não pode crescer nessa direção, você pode despertar para ela. No campo da ciência, da religião, da filosofia, da psicologia ou de qualquer área do conhecimento humano, ou do assim chamado conhecimento divino, dessa tão badalada espiritualidade, nesses campos, você pode cultivar algo, não aqui. 

A Meditação não é cultivável, a Meditação é Consciência, que é Atenção que recebe todo material de queima para fazer arder essa chama desse ensino, dessa Upadesa, por isso que Satsang é fundamental. Satsang significa estar em boa companhia, na companhia do sagrado, do divino. Isso já é conhecido há milhares e milhares de anos no oriente, a importância de estar próximo de um homem ou mulher que é uma fogueira – uma fogueira incendiária, em chamas. No oriente, chamam isso de Guru. 

Estar em boa companhia é estar com o Guru, Aquele ele está fora do jogo, esse jogo que é todo o movimento do pensamento desatento, inconsciente, habitual, mecânico, planejado, idealizado e executado. Fora do jogo você é sábio, dentro do jogo você é estúpido; fora do jogo você é Bhagavan – termo indiano para bem-aventurado, aquele que vive livre da miséria da mente egoica. Bhagavan é o sábio, é você em sua natureza real, é estar fora do jogo, uma fogueira em chamas aquecendo tudo, dando brilho e calor à sua volta. 

Dentro do jogo você é um tolo, um estúpido e medíocre, é um miserável, não importa o quanto de luxo você viva cercado, não importa o quanto de saúde exista aí no seu corpo, ou quanta riqueza você tenha ou acredita ter nessa sua estupidez e mediocridade, você continua sendo um miserável. Isso está só na desatenção, na inconsciência, não na base da Realidade presente; isso ainda é a periferia, a superfície, o movimento do jogo, o movimento da inconsciência do pensamento. 

Por isso que o meu convite a você é: Acorde! Dê um salto para fora da mente, vá além da dualidade, essa dualidade é aquilo que começa com o pronome pessoal eu, quando você se refere a si mesmo ou a si mesma, sinalizando a presença do corpo presente aí. Isso não é mecânico, não é inconsciente, não é aprendido; isso é despertar, isso não requer tempo. Na verdade, isso é o final do tempo. Para os acordos, para os contratos, o tempo é necessário. Mais uma vez estamos vendo a fraude, a mentira, a ilusão, qualquer coisa acontecendo no tempo, isso está tomando o lugar da Felicidade. O que acontece nos relacionamentos: um contrato, uma coisa firmada, eu te dou isso e você me dá aquilo, funciona assim. 

Você já está completo, não está fazendo acordo com a vida, não está num relacionamento com ela, você não está separado dela como Consciência. Por isso, Consciência é Amor, não há nenhum acordo aí. Você não pode ter um relacionamento com Deus, não pode fazer um acordo com Ele, não pode entrar num contrato, você não tem como controlar isso. É tão simples... você não tem como realizar isso no tempo, não tem como negociar, não se engane quanto a isso, você não pode negociar comigo, não é um acordo, é uma entrega, uma entrega nesse despertar. 

Isso é muito desconfortável, você sair do controle, tudo aquilo com o qual você entra em contato, você transforma num relacionamento, numa possibilidade de você trocar, barganhar, basicamente controlar. É impossível despertar assim, é necessário uma vulnerabilidade, que implica em não ter nenhum poder, nenhum controle e isso dá muito medo. Como se não houvesse medo no controle, como se o controle não fosse exatamente uma necessidade de uma segurança que o próprio medo produz. Você está condicionado a viver com medo, por isso que tem que controlar tudo. 

Quando você vem a esse espaço chamado Satsang, você só chega aqui porque já cansou de relacionamentos, está cansado de todo esse jogo, aí eu posso lhe dar Upadesa. Está cansado de toda essa desatenção, de toda essa inconsciência, de todo esse controle, de todo esse sentido de ser alguém, aí eu posso lhe entregar algo para alimentar essa chama, essa chama da Atenção, que é possível nessa Consciência. Então, a sua fogueira incendeia, e quando ela incendeia você está fora da limitação do tempo, do espaço, de um “eu”… aí Bhagavan está presente, o bem-aventurado, o Buda, o Acordado!


*Transcrito a partir de um trecho de uma fala em um encontro presencial de João Pessoa em Agosto de 2017 


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

É em você que o universo aparece



Eu sou Meditação, eu sou Alegria, então eu não preciso de nada… Você já tem muita coisa, fique só com isso. Não queira mais nada, porque aí você cria o futuro, e tem que ouvir o palestrante ensina-lo a fazer um plano para daqui cinco anos! Eu acho muito engraçado isso… “Faça um plano para os próximos cinco anos! Onde você quer estar?” Onde você pode estar a não ser Aqui? Isso não faz sentido para mim…

Isso faz sentido para você? Onde você quer estar daqui a cinco anos? Aqui! E daqui a quinze anos? Aqui! (risos) Como você pode se afastar de si mesmo? O tempo é uma convenção social! O pensamento é o social e o tempo é uma convenção do pensamento, é uma convenção social! Não existe tal coisa como o tempo! Tempo é distância entre aparições. Se eu jogar isso aqui [o mestre ameaça arremessar um objeto] eu crio convencionalmente a ilusão do tempo para dizer que essa aparição saiu e chegou em algum lugar, mas o que eu chamo de lugar é a ilusão do espaço, onde apenas são possíveis aparições. Mas qual a realidade das aparições sem o espaço? Então, para onde foi o tempo? Não precisa estudar física para ver isso. Tempo só é possível no espaço, são distâncias entre aparições – o que nós chamamos de objetos. Mas o que são esses objetos? São aparições no espaço! Mas de que espaço estamos falando se não existe nenhuma aparição? Então, onde está o tempo? Tem que estudar Física, tem que conhecer fórmulas matemáticas? Por favor! (risos)

Quando você diz que os pavões estão do outro lado… como você pode afirmar uma coisa dessas? Você tem que construir um espaço! E esse espaço é só uma imaginação, e é isso que cria o tempo. Então, para esse objeto chamado corpo sair daqui e constatar a existência de pavões do outro lado, essa aparição chamada corpo tem que ser real, esse espaço tem que ser real – esse espaço que é a distância entre esse suposto corpo, esse suposto objeto e os pavões. E o que nós temos aqui como “real” é só pensamento imaginando coisas, imaginando um espaço, imaginando pavões, imaginando um corpo… tudo imaginação!

Em seu Estado Natural que é Meditação, não há tempo! Tudo está ali, mas não há nada ali! Como no Ser: tudo está no Ser, mas nada está no Ser; tudo está em Deus, mas nada está em Deus; porque não há nada além de Deus, porque também não há Deus; isso é só um pensamento que a gente joga fora também! (risos). Então, o que você tem? Nada! Tudo! Você! Você é Deus! Só “você” fala que Deus existe. Então, primeiro tem “você” e depois vem a ideia de Deus. Quem é real? Quem chegou primeiro? (risos) Então só tem Você! É em Você que Deus aparece e também desaparece. É em Você que o universo aparece, que os pavões do outro lado da casa aparecem, que esse corpo também aparece... Tudo imaginação sua! Você é a Consciência, é Aquilo que torna possível essas aparições – torna possível imaginando.

Percebem como tudo isso é lindo? Como não tem nada em lugar nenhum? Como não tem lugar? Como tudo é O que É? Dê o nome que quiser para isso! Deus, Consciência, Presença, Self, Ser, Eu...

Você só toma ciência do espaço, porque é a Consciência disso! Quando é que você toma ciência disso? Quando você cria isso. Como é que você cria isso? Imaginando! Se não houver imaginação sobre espaço, não há espaço… então, não há pavão, não há distância, não há corpo. Primeiro, precisa aparecer o corpo para depois aparecer o espaço, o intervalo entre você e um suposto corpo chamado pavão, lá do outro lado. Tudo isso está na imaginação! A única Realidade é que tudo é O que É, mas não o que você vê; é O que É! O que você vê é imaginação; O que É está além da imaginação.

Permaneça aí! O corpo desaparece, a mente desaparece e os pavões também. Espaço, tempo, nascimento, morte… tudo mais desaparece. Isso é a “Coisa”! Sem nome! O pensamento não alcança, palavra não define, só o Silêncio – o Silêncio além do silêncio que você conhece. Tudo isso está além de “você”. Paradoxalmente, tudo é Você. Você é isso!

Não pense!

Permaneça aí! Isso é Meditação! Não tem nada a ver com o corpo parado, com uma técnica de meditação. O pensamento está criando o mundo, mas não há mundo sem pensamento. Quando o pensamento aparece, o pavão aparece, a esposa, os filhos, o trabalho, os problemas... tudo aparece. Sem pensamento, não há mundo, não há nacionalidade, não há país, não há nada… A única coisa que não desaparece, que nunca apareceu… Você!

O corpo apareceu, mas não é Você; o espaço apareceu entre objetos que também apareceram; tudo que aparece não é real, e o que desaparece também, mas Você está aí. Você está além do pensamento! Feche os olhos e permaneça sem pensamentos e descobrirá que Você está aí. Não tem corpo, não tem nome, não tem sexo, não é homem, não é mulher, não é branco, não é preto, não é discípulo, não é guru... só Você!

*Transcrito a partir do trecho de uma fala em um retiro no Ramanashram Gualberto na cidade de Campos do Jordão no mês de Outubro de 2017.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O Despertar para a Verdade


Estamos diante de um novo conhecimento e aqui a palavra conhecimento é usada de uma forma muito estrita, específica. Autorrealização é a aproximação de uma nova forma de conhecimento – o conhecimento de uma natureza diferente da que nós usamos para esse tipo de palavra. Designamos conhecimento como a tradução verbal de uma dada experiência, percepção ou a ciência de algum tipo de objeto. Aqui, quando falamos dessa Realização, que é a realização da Verdade sobre nós mesmos, estamos falando de um conhecimento completamente diferente daquele.

Assim, em encontros como esse, estamos discutindo o conhecimento de nossa Real e Verdadeira Natureza, o único conhecimento real que nos interessa aqui. O que nos interessa é saber quem ou o que nós somos – esse é o Real conhecimento! Esse conhecimento tem o significado bastante estrito, é o conhecimento daquilo que realmente nós somos e isso implica uma completa ausência de qualquer ideia preconcebida, de qualquer conceito, crença ou conhecimento no sentido comum.

Não estamos aqui nesse encontro de Satsang tentando alcançar um objetivo imaginável, ou uma ideia preconcebida. Assim, esse conhecimento não nasce de uma ideia preconcebida, nem de um objetivo imaginável. Esse legítimo conhecimento é o conhecimento do desconhecido e, dessa forma, um conhecimento diferente do comum. Então, quando falamos do conhecimento do Ser, conhecimento de nós mesmos, estamos falando do desconhecido e o desconhecido não pode ser preconcebido ou imaginado, porque isso faria parte, ainda, do pensamento. O que é parte do pensamento é parte da mente, e o que é parte da mente não é real, não é verdadeiro.

Portanto, aqui nós temos a primeira coisa dentro dessa aproximação, desse trabalho: é necessário ir além do conhecido, além da mente, além do conhecimento! Então, o verdadeiro conhecimento do Ser é o desconhecido. A Verdade jamais pode ser capturada, apreendida, pela mente e, sendo assim, ela não pode ser aprendida. A mente não pode apreender, capturar isso… essa não é uma forma real de aproximação. Muitos estão tentando fazer isso através dos estudos, chegando até mesmo a dizer que existe um “passo a passo” pelo estudo da Advaita. Você pode estudar a Advaita e intelectualmente criar um passo a passo, mas você não pode apreender a Verdade pelo intelecto, não pode capturar isso.

Esse assunto é um assunto que não tem forma, não é um objeto, não é algo que possa ser analisado… A Verdade não é algo assim! Tudo que é possível se conhecer é algo assim, mas o desconhecido não é algo assim. Então, você não alcança a Verdade, não atinge a Verdade, não “chega lá”. Quando a Verdade está presente, “você” não está, o conhecido não está. Parem com essa bobagem! Você não pode capturar isso ouvindo falas de Satsang, pois essas falas não servem para isso! E por que não? Porque esse assunto não tem forma, não é um objeto de pesquisa, não dá para estudar isso. Se você anda ouvindo muitas falas sobre isso, está somente acumulando conhecimento e conhecimento ainda é parte da mente… isso não é a Verdade!

Existe uma forma de ouvir isso, mas não é pelo intelecto, nem ouvindo um professor. Um professor vai lhe dar conhecimento sobre isso, mas isso não é a Verdade. Outra coisa aqui é que, enquanto estiver ouvindo um professor, você adquirirá conhecimento, o que representa um novo condicionamento, um novo aprendizado, uma nova ciência, porém, isso não é a Verdade, é somente uma forma de ouvir a Verdade. Um professor não pode lhe dar isso, mas um Mestre vivo sim! Somente um Mestre pode fazer você ouvir a Verdade. Um Mestre vivo é a Verdade, não é um professor, não está tratando com o conhecimento… O Mestre não está lhe comunicando informações, conhecimento, pois ele não é um professor, não estudou isso.

A Verdade não estuda conhecimento. A Verdade expressa a Verdade! Então, você pode ouvir somente a Verdade vinda da VERDADE, ou seja, a única forma de ouvir a Verdade é ouvindo a Verdade nascendo da própria Verdade. Dessa forma, você é tocado pelo desconhecido, por Aquilo que não tem forma, não é explicável – isso é ouvir a Verdade da VERDADE! Não precisa do intelecto, ele não entra nisso, porque Isso não é algo que passa pelo raciocínio, pela lógica, pela conclusão. Isso é algo que vai direto ao SER, ao coração, é a Verdade com a Verdade.

Você tem que ser “iniciado” na Verdade... Na Índia eles chamam Isso de “iniciação”. Um Mestre vivo lhe dá essa iniciação da Verdade! Percebam a graça e a beleza disso: não é um conhecimento sendo passado, não é uma informação sendo comunicada, não é algo que vem de um professor para um aluno, nem são amigos, em volta de um professor, discutindo um tema sobre alguma coisa que possa ser compreendida, analisada, estudada – tudo isso ainda está dentro dessa dimensão da egoidentidade, dentro da dualidade.

A Verdade não pode ser entendida, nem ser comunicada com uma forma, uma lógica, uma didática. A Verdade está nessa comunhão da Verdade com a VERDADE. Assim, o verdadeiro discípulo, o devoto, pode ouvir através dessa iniciação – essa é a forma de ouvir – e a Verdade é despertada em seu coração. Você não vai apreender a Verdade, vai despertar para a Verdade. O verdadeiro Guru desperta o verdadeiro discípulo, ou devoto, porque Ele tem essa Presença, essa Graça... Ele é essa Verdade! Então, ele tem a Presença, a Graça, o Poder e a habilidade de despertar um discípulo, um devoto, para aquilo que Ele É, para a Verdade Dele mesmo.

Percebam a clara diferença aí… um professor leva o aluno somente até onde ele chegou, assim como um Mestre vivo desperta o devoto para isso que Ele É. Você só pode compartilhar aquilo que você tem! A impressão que tenho, nessa fala, é de que eu estou apenas fazendo uma introdução (risos). Então, a única técnica possível – se é que podemos usar essa palavra – está na arte de ouvir, que é ser iniciado pelo Poder, pela Presença, Graça, daquele que é a Verdade. Assim, a Verdade desperta a VERDADE; não ensina a verdade, pois ela não precisa ensinar. A Verdade apenas desperta, porque a Verdade do Guru é a Verdade do discípulo, do devoto. Portanto, esses encontros de Satsang que nós temos não fornecerão informações nem teorias sobre isso. Dessa forma, a minha recomendação é: “Permaneça em silêncio, nessa participação passiva, mas dentro de uma atitude de plena consciência, plena atenção!”
                                                                
*Transcrito a partir de uma fala em encontro online na noite do dia 23 de Outubro de 2017 Encontros online todas as segundas, quartas e sextas as 22h (horário de Brasília) 
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domingo, 3 de dezembro de 2017

Imortalidade Consciente


A Consciência não fala; Ela está em silêncio! A mente fala. A Consciência está além do som e do silêncio. Você não pode ouvir a minha voz. Mas você pode desfrutar do meu Silêncio. Na mente, você expressa pensamentos. A Consciência é só Silêncio, não tem expressão. O que diferencia um professor advaita de um Mestre, é que esse último nunca fala, enquanto o primeiro fala bastante.
Com um professor você aprende, porque ele tem o que ensinar. Com um Mestre você desaprende; ele só faz uma coisa: destruir os seus conhecimentos, porque eles não servem para nada. Conhecimento trata só do conhecido. Conhecimento que é conhecido só serve para sonhar. Através do conhecimento, você constrói um foguete e lança no espaço sideral. Então, o foguete sai da terra, rompe a lei da gravidade, e vai para o espaço sideral. No entanto, o foguete, a terra, a lei da gravidade e o espaço sideral são parte do sonho; não servem para mais nada, apenas para isso. Se o conhecimento não serve para realizar a Felicidade, ele é inútil. Ele vai colocar um satélite no espaço, e agora o GPS vai funcionar, os canais das televisões irão transmitir o sinal, mas nada que os canais das TVs estarão mostrando irá dar Felicidade. Então o conhecimento não serve para nada.
Aqui, existem médicos nesta sala. Através do conhecimento médico, científico, você pode curar os seus pacientes. Estarão com o corpo saudável, irão viver mais tempo, miseravelmente. Desculpe doutor, o seu conhecimento não serve para nada! Só prolonga a miséria. Acabei de provar à você, que o conhecimento é inútil. É só para prolongar o sonho.
O Silêncio destrói o sonho, Ele representa Imortalidade Consciente, Felicidade Suprema. Então, o Silêncio é importante, o conhecimento não. Desculpe doutor, o seu conhecimento é um lixo. A ciência atômica, a física quântica, o conhecimento nuclear não servem para nada. Nada disso pode fazer os seus olhos brilharem de felicidade.
Eu não sou doutor. Eu apenas sou O que Sou. E você é só O que É. Isso basta. Você não precisa conhecer nada nesse mundo. Apenas conheça a si mesmo. Esse é o único conhecimento válido. Se você conhece quem Você É, você sabe que não está aí, que não há ninguém para se conhecer. Então, você sabe que tudo é Ele, e Ele é reverenciado em tudo. Então, você o contempla e o desfruta em toda a parte, e Ele é a sua alegria. Então, o único conhecimento que importa é saber quem é Você. Você nasceu para isto.
Não são as minhas palavras que estão fazendo ”essa coisa” funcionar. Essa coisa chamada Satsang acontece por si só. Não tem alguém nisso. Você não volta por causa das palavras. Existem muitos escritores, filósofos, muitos cientistas... e eles são impressionantes. Gente admirável. Há muitas pessoas maravilhosas no mundo. Não é isso? Você tem que aprender a se divertir com tudo isso, não pode levar isso muito a sério. Eles estão brincando de gente importante. Deixe eles acreditarem que estão impressionando vocês. Mas não se deixem impressionar. Eles não conhecem a Imortalidade Consciente. Depois da morte, todos viram fantasmas. E vocês sabem como é a vida dos fantasmas, alguns são fantasmas camaradas e outros não.
E o que é que muda? Nada muda! Se você não vive a sua Natureza Real agora e aqui, qualquer coisa lá, ainda é a mente, num tempo criado por ela mesma. A Realidade está aqui e agora. Tudo mais são construções da mente: planos espirituais, céu, inferno, umbral… Se você está identificado com a mente, você está no tempo, vai parar em um desses lugares, não tem jeito. Mas se a mente desapareceu, se ela imergiu na fonte, o universo material e imaterial desapareceu.
Lindo isso, não é!? O fim do sonho!
Há algo que o aflige mais do que isso? Desejar o que não está aqui e agora? Querer que alguma coisa seja diferente do que é? Compreendam a paz do Sábio: Ele não quer nada, está só se divertindo, rindo de toda essa loucura.
Compreendem isso?
Deus está se derramando abundantemente. A Vida é Graça, é Alegria, é Deus, só tem Deus! É que o jogo dele parece muito cruel para você, alguns estão nascendo, e outros estão morrendo... Ontem, eu vi um pássaro comer um inseto; ele vinha voando e o pássaro foi mais rápido do que ele. É um jogo. Não tem nada errado na sua vida. Você não tem vida pessoal, porque não tem pessoa. Só tem o jogo. Então, quem veio e já foi, tudo bem, não exija nada que já foi embora, e não exija nada que ainda não chegou. Tudo vai chegar, e tudo vai partir. Mas é um jogo. Não torne isso algo pessoal. Aí você aprende a viver como um Sábio, sem apego, sem desejo, sem medo.
Quando as pessoas me perguntam: “como você pode viver assim?”. Aí eu volto a pergunta para elas: “como você pode viver assim?”. É a mesma pergunta. O Sábio está fazendo a mesma pergunta que o tolo. Como explicar isso? É um mistério.
A sua certeza sobre tudo é muito grande. Abandone isso. Abandone o que acredita conhecer. Você não sabe nada!
Há uma expressão que é usada aí fora, de uma forma pejorativa. A expressão é: “santa ignorância”. Já ouviram a expressão? Mas é uma belíssima expressão. Porque retrata exatamente o Estado Natural. É de completa ignorância e de uma sacralidade inacreditável. Seu Estado Natural é de santa ignorância. É bastante paradoxal. Aquele que compartilha o real conhecimento, não sabe nada!
Não é paradoxal?

*Transcrito de um trecho de uma fala, em outubro de 2017, durante um retiro no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

É assim que todos estão vivendo


Olá, pessoal! Boa noite! Sejam bem-vindos a mais esse encontro aqui pelo Paltalk.

Estamos dentro dessa aproximação, dessa investigação, averiguação. Como temos falado com vocês, em diversos outros momentos, aqui, o segredo está nessa prontidão em ouvir, afinal, é essencial você descobrir a verdade sobre si mesmo.

O homem comum vive de uma forma completamente reativa. Suas ações são constituídas de meras reações condicionadas. Afinal, por que isso tudo acontece? Essas reações são como a maquiagem que a mulher coloca para sair à noite, ir a uma festa. Ela fica diante do espelho e ações reativas, todas nascidas do pensamento e dessa programação de ser alguém, é algo como uma maquiagem que você sempre está apresentando para si mesmo e para os outros.

É assim que todos estão vivendo, esse é o modelo comum a todos. Esse falso “eu”, essa “pessoa” que você acredita ser, é apenas uma maquiagem egoísta, estúpida, medíocre, miserável. Você sai pelo mundo com seus desejos e medos, em meio a coisas amigáveis e hostis, agradáveis e desagradáveis, e é isso que você chama “minha vida”. Essa é a vida da “pessoa”.

Então, todas as suas reações, tudo que você faz, sente, fala e pensa é uma mentira! Tudo isso é falso! Não há verdade em você! Quando as “pessoas” vêm a Satsang, a esse encontro, e eu digo para elas que são uma fraude, elas ficam muito irritadas. Quando elas vêm e eu digo que são miseráveis, elas não conseguem ver isso, porque estão viciadas em viver nesse jogo de prazer e dor, de satisfações grosseiras ou mais refinadas. O pêndulo vai para um extremo (solidão, depressão, tristeza), depois volta para o outro lado, e elas terminam achando tudo isso muito normal. Então, tenha paciência em acompanhar isso!

Quando você faz uma ideia acerca da vida como ela é, você está numa autolimitação e todos vivem à sua volta nesse modelo. Então, parece ser a coisa mais natural da vida viver nesse modelo! Tudo isso é profunda inconsciência, total inconsciência, total imersão e identificação na mente egoica, no modelo da falsa identidade. Aquilo que você chama de “vida” é algo enraizado na mentira, nesse falso “eu”.

Seus bisavós viveram assim, seus avós viveram assim (talvez tenha algum deles ainda vivo), seus pais estão vivendo assim ou até morreram assim, e você está vivendo exatamente assim, criando seus filhos assim, vivendo um relacionamento matrimonial, amoroso, íntimo com alguém dessa forma. Eu acho que você, hoje, deveria estar procurando outra sala e não essa aqui, porque hoje o assunto está muito “pesado”. Lamento por vocês terem entrado na sala hoje!

Eu quero dizer que você tem que acordar menino (a), ou você vai morrer como seus avós, nesse estado miserável, sem saber por que nasceu e por que está morrendo. Na hora do nascimento não teve nenhuma ideia por que nasceu e na hora da morte também não vai saber.

A questão é: podemos ir além dessa mentira ou a gente continua assim? O que você me diz, você que está aqui, diante dessa fala?  Essa é a pergunta: é possível descobrir uma ação que não seja nascida do ego, que não seja nascida do medo, do desejo, dessa programação, dessa mentira? Ok, porque se isso é possível, então, é possível viver de uma forma livre da miséria do homem comum, ordinário, dessas “pessoas” com quem você convive todos os dias – a primeira é com você mesmo (a).

Estamos juntos, dá para acompanhar isso? Tem alguém irritado? Bateu o desespero ou algo do tipo? Se sim, é porque é um sinal de que o “despertador” está tocando.

Tudo isso deve ser compreendido de forma clara. Você pode ouvir um “Guru” e ele animá-lo bastante, aliás, hoje em dia nós temos muitos “gurus” que são como animadores de programa de auditório. Eles dizem: “você é a felicidade, você é o Buda, você é a verdade, você é o Cristo, você é Deus! Não existe ego, não existe Guru, não existe ensinamento... Tudo é o que é e é agora”! Então, você fica muito animado, você se sente muito motivado, porque “não existe nada que você precise fazer, tudo já está pronto” – assim eles dizem e isso é muito animador! “Você não precisa abandonar seus medos, o medo que você tem da namorada, da mulher, do marido; você não precisa abandonar a inveja, no sentido da comparação e que provoca o ciúme, o desejo de controlar, possuir e dominar; não precisa soltar suas crenças, opiniões, conclusões religiosas, idealistas, políticas, filosóficas; não existe nenhuma ilusão, nenhum falso ‘eu’... Você é a verdade”!

Então, o que vai acontecer? Você vai continuar ouvindo esse tipo de fala por mais 98 anos. Se você já tem 15 anos, é só você somar “15 + 98”; se você tem 40, é só somar mais 98; se você tem 30, é só somar mais 98. É uma matemática simples! Assim, quando você estiver com 128 anos de idade, você vai ter um conhecimento profundo sobre Neo Advaita, sobre a visão “não dual” da vida. Então, você morre sem saber por que nasceu e por que está morrendo. Todos morrem! É somente uma questão de tempo.


Vamos ficar por aqui! Até o nosso próximo encontro! Namastê!


*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite do dia 27 de Outubro de 2017 Encontros todas as segundas, quartas e sextas as 22h - Para participar baixe o App Paltalk


terça-feira, 28 de novembro de 2017

A imersão da mente no coração



Bem-vindos ao Satsang! Estamos mais uma vez juntos neste maravilhoso propósito, que é a aproximação do reconhecimento desse momento. Nosso Natural Estado de Ser é agora mesmo, nesse momento, de absoluta Felicidade e é isso que nos tem escapado. Aquilo que obscurece o fluir ou a expressão dessa Felicidade são esses constantes pensamentos ocorrendo dentro da cabeça, numa rápida sucessão.

Pensamentos são como nuvens que obscurecem nosso Natural Estado de Felicidade. O hábito forte é o dessa inquietude da mente... A “mente egoica” é extremamente agitada e quando ela está assim nos tornamos incapazes de vivenciar essa inerente Felicidade. A infelicidade é essa agitação da mente – muita ocupação, preocupação, antecipação – e daí nasce toda confusão. A verdade é que a mente está sendo constantemente impelida pelos seus antigos hábitos e condicionamentos. Então, esse movimento de identificação com pensamentos, que produzem desejos e medos, é algo muito constante.

Assim, a mente é constantemente impulsionada a se mover para fora, sempre se movendo para as suas exterioridades, sempre em direção a coisas que ela imagina serem importantes para ela. Se você observar, a mente está sempre ocupada com assuntos particulares, sempre envolvida com histórias ligadas ao sentido de personalidade, pessoal. O objetivo da mente é realizar alguma coisa para ela própria, pois o sentido de “pessoa” é muito importante para ela. A mente, basicamente, é esse sentido de “pessoa”. Assim, esse nosso Natural Estado de absoluta Felicidade, presente nesse instante, está sendo obscurecido pelo movimento constante da mente e seus pensamentos. Quanto maior é essa atividade da mente, mais obscurecido se torna esse Estado; quanto mais veloz esse movimento inquieto da mente, há mais ansiedade, estresse, nervosismo, preocupação, sofrimento.

Agora mesmo, nessa sala, você tem um encontro com uma fala nascida desse Estado Natural de Felicidade. Então, o Mestre é aquele que nos mostra que não é possível realizar ou alcançar a Felicidade, porque ela é algo já presente aqui e agora, nesse instante. Tudo o que temos a fazer é nos voltarmos para a direção correta, que não é o exterior; a direção correta é a imersão da mente no “Coração” e esse é o espaço ou lugar da Felicidade.

Talvez a sua pergunta seja: “Como diminuir essa agitação? A mente e sua agitação, a mente e seus pensamentos, a mente e seus planos, projetos, preocupações, antecipações”? Talvez seja essa a sua pergunta, e por isso a nossa ênfase está na Meditação. A arte da Felicidade é a arte da Meditação, mas não é o que você entende por meditação, pois aquietar a mente temporariamente, para depois ela voltar a se agitar novamente, não é Meditação. Esse tipo de meditação tem sido ensinado ao redor do Planeta.

O que eu entendo por Meditação é ficar quieto, não é ficar quieto fisicamente, nem forçar, também, a mente à quietude. Isso, de certa forma, com algum exercício, alguma prática e certo tempo, você consegue fazer, aprendendo a focar a mente num só ponto, respirar de uma determinada forma; existem diversas técnicas capazes de lhe dar isso, nesse formato. Nossa ênfase, aqui, é completamente outra. Basicamente, Meditação é o florescer de seu Estado Natural e o “terreno” para o florescimento Disso, dessa Meditação, seu Estado Natural, é a observação cuidadosa, paciente, aplicada desse movimento da mente, momento a momento. Então, essa auto-observação é a Real forma da investigação da ilusão desse falso “eu”. Portanto, a autoinvestigação é auto-observação.

Se você está dirigindo seu carro ou caminhando para algum lugar ou assentado assistindo TV, esse é o momento de observar esse falso “eu”. Apenas observar! Observar os pensamentos que surgem, quais são as preocupações, as motivações, quais são as lembranças de duas horas atrás, de um dia atrás, anterior. Então, diante da TV, dirigindo o carro ou caminhando, você está observando a história de um falso “eu” se revelando. Quando isso chega, tenta capturar você no tempo, que é criado pelo pensamento, por essa imaginação, que é memória. Pensamento é sempre imaginação, que é conhecimento.

Esse conhecimento, que é pensamento, imagina o passado e o futuro. Quando você se perde nesse tempo criado pelo pensamento, está identificado com um personagem, com a história desse falso “eu”. Enquanto você dirige o carro, caminha ou assiste televisão, não é esse instante que importa para a “ego-identidade”, mas a história que surge nesse instante. Quando você é capturado pela história, você está na ilusão do falso “eu”, agitado por essa “ego-identidade”, e não há Liberdade, Paz, Amor, Felicidade.

Então, a Felicidade não está presente em dirigir o carro, em caminhar ou assistir televisão. Você está identificado com um personagem, preso a história do “eu”, dessa falsa identidade. Essa é a ilusão desse personagem, seu estado ilusório de ser; é a ausência de seu Estado Natural de Meditação. Portanto, a Meditação começa quando esse espaço fica completamente limpo dessa agitação mental, memória, imaginação, desses pensamentos.

É necessário descobrir a Felicidade de seu Estado Natural, que é Meditação nesse instante, nesse momento presente. Isso é Real Meditação: desidentificar-se completamente desse “eu” ilusório, desse personagem. Essa Presença fundamental do nosso Ser é pura Consciência, é pura Liberdade, Verdade, Felicidade.

Reparem que, em nossas falas, nunca separamos “Ser” de “Felicidade”, porque Ser é Felicidade e Felicidade nunca está separada de Meditação! Essa é a verdade detrás de tudo. Quando, por uma ação da Graça, você é atraído a Satsang, quando você chega a Satsang, o único propósito desse encontro é o encontro com Deus, que é Ser, Consciência, Felicidade. Então, o Guru, ou Mestre, é aquele que nos atrai exatamente para nos mostrar a irrelevância da mente, a ilusão desse personagem que você acredita ser.

É bem interessante... Todos estão atraindo sua atenção para a exterioridade. Quando o Mestre chega, ele captura sua atenção para que você se volte para dentro – daí a importância do Guru. Ele é aquele que lhe diz: “Você não é a mente, não é o corpo”; “você não é esses sentimentos, nem esses pensamentos”. A minha compreensão disso é que você não tem a mínima condição de descobrir isso sozinho, ou já teria descoberto. O Mestre é aquele que lhe aponta, que sinaliza, que lhe mostra isso, porque em um verdadeiro Mestre esse trabalho já está finalizado. O que estou falando é que um verdadeiro Mestre é Aquele que já realizou Isso; não estou falando de um professor, de um orientador, de alguém que ainda se sente uma “pessoa”, mas fala teoricamente dessa “não pessoa”. Portanto, compartilhar a Verdade é compartilhar o Ser, a Felicidade, e Isso é Meditação!


Ok? Vamos ficar por aqui. Valeu pelo encontro! Namastê!

*Transcrito a partir de um fala em um encontro online na noite do dia 20 de Setembro de 2017 - Encontros todas as segundas, quartas e sextas as 22h - Para participar é só baixar o App Paltalk e entrar na sala que é aberta somente no horário do encontro.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O Despertar é resultado de um trabalho


Você vê um pianista e sua desenvoltura, habilidade, espontaneidade, quando ele está tocando e você diz: “Como é bonito isso. Ele é tão natural fazendo isso”. Você olha e diz, ainda: “Eu queria conseguir fazer assim”. Então, na primeira vez que você se assenta ao piano, você vê o quanto isso é complicado, mas para ele é tão simples... Quando ele faz isso, há tanta graça, tanta beleza, tanta naturalidade nisso.

É exatamente a mesma coisa quando você se depara com um Sábio, com um Ser realizado, e você diz: “Como é bonito Isso! Por que eu não consigo? Isso é tão espontâneo, tão natural... Por que meu piano não toca, não produz música assim?" Mas você não deve se sentir assim, pois aquele pianista começou o treinamento aos cinco anos de idade. Quando ele tinha dois anos, a mamãe já o colocava sentadinho no banquinho e fazia-o brincar com as teclas, pegando os seus dedinhos delicados e batendo com eles nas teclas...  Ele começou muito criança, vem trabalhando nisso há muitos anos.

O Sábio realizado é resultado de muitas horas de “piano”. Um homem como Ramana, que nunca foi capturado na teia da ilusão, já nasceu com muitas horas de “piano”. Então, você não deve se sentir assim... É necessário você se “assentar ao piano” e começar. Como os seus dedos não têm habilidade, ainda, o cérebro “não funciona bem com as mãos”, não há, também, uma memória motora nos dedos, no mecanismo, na “máquina” [corpo], e, então, você não acerta as “notas”... É muito esforço e zero de resultado... Muito Satsang e você olha e diz: “Não está acontecendo nada. Ainda não consigo ver a vida, o mundo, assim, nem consigo ver as pessoas dessa forma”; ou “Eu ainda fico ofendido, magoado, sinto rejeição”; ou “A ‘partitura’ está na minha frente, sei que as notas estão ali, mas eu não consigo acertar”...

Compreendem o que eu quero dizer? Eu conheço a teoria toda, já ouvi isso milhares de vezes. Confie no que estou lhes dizendo. Não desistam! Vocês têm dificuldades, ainda, porque não sabem como este mecanismo egoico funciona. Vocês não conseguem perceber todo o truque, distraem-se muito, com facilidade; não percebem o que está acontecendo claramente aí dentro, os velhos truques da mente, e ela está nesse exercício há muito tempo. Quando nós nos encontramos aqui, eu digo para você: “Não desista”! Depois que tudo está resolvido, não há mais problema nenhum, e aí a música é produzida com facilidade. Mas, no momento, você precisa dar tempo a si mesmo. A Verdade não está no tempo, mas a ilusão é o tempo!

Existem alguns professores advaitas que já estão “tocando o piano” com habilidade, facilidade, vendo que é simples demais, então, eles podem dizer para você: “Não precisa praticar... Está tudo tão claro! Não há nada que se possa fazer, ou que se precise fazer”. Essa é a fala neo advaita nesse tempo, mas essa não é a minha experiência, com meu Mestre. Um dia eu ouvi uma fala de Jiddu Krishnamurti em que alguém da plateia perguntou para ele: “Senhor, isto parece tão simples quando o senhor fala, mas eu não consigo viver isso”. Sabem qual foi a resposta do Krishnamurti? “Saia daqui e viva isso. Você não vive porque não tem interesse”.  Tinha tanta força em sua argumentação, tanta sabedoria em sua fala que, de fato, não se pode discutir com um Buda, mas isso não resolve, porque a pessoa sai dali e tudo continua na mesma.

Eu tive a felicidade de nunca ter ouvido ninguém falar sobre essa “coisa”. No ano de 2007, em que aconteceu Isso aqui, que a “bomba caiu”, eu não sabia o que tinha acontecido, porque eu não tinha ouvido nada sobre Isso. Eu tinha o contato com Ramana, meu Guru, mas no coração. Eu não tinha lido sobre Isso, não sabia quem ele era, quem tinha sido. Somente muitos anos depois eu fiquei sabendo a história dele e somente agora, há pouco tempo, eu comecei a ler sobre Ramana. Eu não sabia nada sobre Isso, então, eu fui muito feliz. A minha guiança esteve no “coração" durante 21 anos, de 1986 até o ano de 2007, quando a “bomba caiu”, e eu não sabia o que tinha acontecido: “O que é isto? Por que está tudo assim? Por que eu estou em tudo? Por que estou dentro dela, dele, dos objetos? Por que só tem Eu?... Por que essa ‘coisa’, que eu chamo agora de Alegria? Por que é tudo uma bobagem? Tudo é muito engraçado!”.

Durante 21 anos, tinha medo, dúvida, tristeza, problemas, mas havia uma direção Dele... Ramana estava vivo aqui, muito longe de uma imaginação dessa coisa estar acontecendo hoje à minha volta. Então, na minha experiência, você tem que ter paciência com isso, confiar em seu Mestre. Em algum momento, na sua vida, a Graça de Deus vai tocar você e atraí-lo − é quando o Guru toma forma para você.

Portanto, não é como diz a neo advaita. Talvez alguns já nasceram “tocando piano”, e outros estão fingindo que tocam (isso é muito mais comum acontecer), mas essa não é a minha experiência, pois eu não nasci “tocando piano”. Em meu caso não foi com 16 anos, nem com 8 anos (como é o caso de Papaji, que somente pôde definir tudo isso, conseguiu assentar o Estado, aos 34 anos de idade, diante de Ramana). Então, no meu caso não foi com 16 anos, nem com oito anos, mas aos quarenta e cinco anos. 

Ontem fizemos um bolo: 55 anos... E eu estou aqui há dez anos, em meu Estado Natural. Eu tenho 10 anos! Eu sou uma criança! Vocês não devem se lembrar da minha idade cronológica, biológica, pois eu não me importo com essa idade. Já que gostam de se lembrar das coisas, lembrem-se de quando o Guru nasceu, quando seu Mestre nasceu. Quando ele nasceu, já nasceu por causa de você, para encontrar você. Ele nasceu para amar você, ser o único Amor da sua vida, da única Vida real. Então, você tem que ter paciência com você mesmo e precisa confiar Naquele que "chegou" antes de você.  


*Trecho de uma fala em um retiro no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão no mês de Outubro de 2017

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Verdade é Felicidade


Mais uma vez estamos juntos, focando naquilo que é essencial. Mais uma vez nos colocamos nessa disposição, tendo uma aproximação legítima, que é essa aproximação do “coração”. Nosso propósito nesse encontro é investigar essa questão da Realidade. Esse trabalho é para aqueles que já perceberam, sentem claramente, que a vida sem essa Realização é uma vida sem significado; é para aqueles que sentem um impulso verdadeiro e estão dispostos a investigar verdadeiramente essa questão da Realização, que representa a Real Felicidade.

A vida sem esse significado real, que é a constatação do que verdadeiramente nós somos, é uma vida distante da Realidade, distante da Verdade, e Verdade é Felicidade. O tema básico em Satsang é sempre a questão da Felicidade; não a busca de um significado para a vida, mas sim a constatação da Felicidade, que é a Vida. A mente está sempre buscando significado para ela mesma, que é o significado que ela projeta como sendo real para ela própria. Aqui não estamos interessados na mente e no significado que ela busca. A mente, com suas projeções, pode estar em busca da paz, da liberdade, da felicidade, ou de qualquer coisa que ela projete, mas tudo o que ela projeta é parte do que ela deseja, ou parte daquilo que ela teme. Portanto, isso não pode ser real.

Felicidade é o Estado de Ser, não um estado que a mente possa alcançar, porque tudo o que a mente pode obter ainda é parte dela mesma. Desfrutar da Felicidade real do Ser, que nós somos, requer que a mente retorne à Fonte, saia da sua habitual agitação. A mente geralmente está muito agitada, com pensamentos, sentimentos, desejos, medos, imaginações, conclusões, objetivos, e tudo isso está voltado para fora, para aquilo que ela conhece. Essas atividades da mente são a causa de todo distúrbio, de toda confusão, então, ela necessita cessar essas atividades, e isso é quando você está desidentificado da mente.

Identificado com a mente, você está distante de sua Natureza Essencial. Toda confusão está nessa identificação com a mente. A verdadeira Felicidade é algo descrito como essa Paz, da qual as escrituras tratam, falam, que é uma Paz que ultrapassa toda a compreensão humana − é esse Estado Natural de Ser, no qual a mente, com toda a sua atividade, cessa; é essa compreensão de sua Real Natureza. Você passa a maior parte do seu dia se confundindo com pensamentos, sentimentos e tudo aquilo que a mente conhece; tem raros momentos de descanso em si mesmo, de descanso nessa Presença, nessa Consciência, nessa Verdade de si próprio, de si mesmo, que é Felicidade, Paz.

Compreendem isso? Observem que é exatamente assim que acontece!

Assim, toda essa atividade cria o distúrbio, afasta você dessa simplicidade e calma de apenas Ser. A Felicidade é algo que já existe aqui e agora, dentro de nós, e de fato é a nossa verdadeira Essência, nossa verdadeira Natureza. Mas a mente está sempre procurando sensações, buscando satisfações e realizações de prazer, e, somado a isso, ela está constantemente fugindo de alguma coisa, de alguma dor, o que é basicamente medo. Esse é o movimento dessa ego-identidade. Quando falamos que a Felicidade é essencialmente o nosso Ser, nós estamos dizendo que essa mesma Felicidade é a natureza da Consciência em nós. Então, quando há Consciência, há Felicidade.

Se você carrega alguma forma de sofrimento, isso é sinal de inconsciência, de identificação com a “mente egoica”. É impossível haver infelicidade na Consciência. Miséria e sofrimento é possível na inconsciência, mas isso é algo impossível na Consciência, porque Consciência é plena Felicidade, é plena Liberdade. Infelicidade é prisão. Não importa a condição do corpo e nem da própria estrutura psicossomática, ou seja, não importa a condição do corpo ou da mente (aqui, mente é esse mecanismo de percepção, de movimento de pensamentos, lembranças, intelecto, e assim por diante), quando há Consciência tudo isso funciona de uma forma bastante natural, sem nenhum conflito, sem nenhuma desordem, sem nenhum distúrbio e sofrimento. O único elemento estranho aqui é essa “mente egoica”, é a ilusão de uma identidade presa a essa identificação com as histórias, presa às imaginações do pensamento.

Geralmente, o sentido de “pessoa” está presente nessa inconsciência, sobrecarregado de crenças, histórias, desejos, preocupações. Portanto, Felicidade significa Consciência, e Consciência significa o verdadeiro conhecimento, sem qualquer ilusão. Na Índia, esse verdadeiro conhecimento é chamado de Jnana, que significa a compreensão do que é falso, e essa compreensão é o fim do falso, da ilusão; isso é o Real Conhecimento.

Está claro isso?

Quando o falso é visto como falso, a ilusão perde todo o seu poder e desaparece. Então, o que está presente é a Liberdade, a Consciência, a Felicidade. Assim, a mente retorna à Fonte e desaparece ali. Isso é Silêncio, Inteligência e Verdade. Você não pode saber o que você realmente é identificado com a mente, seus desejos e medos. A menos que você tenha essa clara visão, o verdadeiro conhecimento de quem você verdadeiramente é, estará sempre vivendo no medo e no desejo, e vivendo dessa forma não há como ter o significado Real da palavra Felicidade. Aquilo que é o seu Estado Natural pode ser visto somente dentro dessa constatação – quando a mente termina – e, então, toda busca termina; a busca material, espiritual, termina.

Tudo isso precisa ser encontrado, ou constatado, dentro de você, e não do lado de fora. A palavra Satsang significa encontro com a Realidade do Ser – a Realidade que você é, aqui e agora, dentro. Isso é Ser, Consciência e Felicidade – Sat-Chit-Ananda (essa é a expressão da Vedanta).


Ok. Vamos ficar por aqui. Valeu pelo encontro. Namastê


*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite do dia 11 de Setembro de 2017 Encontros online todas as segundas, quartas e sextas as 22h. Baixe o App Paltalk e participe!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Desejo é medo e medo é desejo


A mente tem a necessidade de conhecer, porque ela tem a carência de não saber. O “não saber” na mente é a ignorância que busca conhecer. A ignorância do Sábio não busca conhecer, porque não há necessidade nenhuma de saber. A ignorância do Sábio é Ser, que é completo e, portanto, não é limitado, finito, nem é conhecido; não tem o que sabe e o que não sabe, nem o que sabe e o que ainda falta saber. É uma ignorância que carrega a compreensão do que É e o que É já está completo, não se estende, não se acrescenta, não aumenta nem diminui. Isso é Sabedoria, que é Ignorância, que é o “não saber”.

Qual o problema com a mente egoica? A mente não fica com o “não sei”, aliás, ela só tem continuidade no “vir a ser”, no “se tornar”, no “chegar”, no “alcançar”. Ela se movimenta nessa ilusão de estar num processo de crescimento, de evolução e de ampliação − é a natureza da mente egoica! Quando não há mente, não há esse movimento e isso é o que eu chamei agora de “ignorância”; não é uma ignorância que pode deixar você ignorante, mas a Ignorância que é pura Inteligência.

De onde nasce essa fala? Nasce da Inteligência! Não nasce do inteligente, porque não há o inteligente. Há somente a Inteligência, que é sinônimo de Ignorância, que não tem necessidade de saber qualquer coisa. Isso é Sabedoria! Então, Sabedoria é igual a Ignorância, que é igual a Inteligência, a Consciência, a constatação do que É, a Totalidade, ao Absoluto... Sua Natureza Real é assim.

A cultura, a educação, o estudo e os livros não podem lhe dar Isso, mas a Meditação pode fazê-lo constatar... não vai lhe dar Isso, mas vai fazê-lo constatar, porque já está aí. Então, você constata, ou descobre, o Sábio que você é e a ilusão termina. Com o fim da ilusão, há o fim da ignorância e a constatação da Compreensão, da Verdade, da Inteligência, e, com isso, o fim do sofrimento.

Quando o sofrimento termina? Quando o desejo e o medo terminam! Você quer ser algo por temer, por medo, ou por desejar escapar da dor, que também é medo. Então, desejo é medo e medo é desejo. Na Meditação, isso termina! Meditação que é a constatação de sua Natureza Real, que é Deus, que é Consciência, Presença, Verdade. O nome não importa, porque o nome é como eu coloquei agora há pouco... Mais uma vez, a gente volta para o conhecimento. Abandonemos isso, porque já sabemos que isso é ignorância aprendida... Então, a gente abandona o nome e toca na “Coisa”, ou melhor, se dissolve na “Coisa”. A mente se dissolve, se dilui na Fonte, que é a Consciência, a Verdade, Deus.

Participante: E essa experiência é transferível? Você pode transferir? Como garantir que o que você está falando não é mais um conhecimento?

Mestre Gualberto: Isso é mais um conhecimento! Se você quiser que seja, será mais um conhecimento. Se você desistir dele, ele desaparece.

Participante: Mas, qual é a diferença?

Mestre Gualberto: A diferença é existencial e não intelectual. A minha terminologia é intelectual, mas minha vivência é existencial. Eu não comunico o “intelectual”, porque eu estou além dele. Porém, você pode transformar Isso em algo intelectual; fazer como muitos hoje em dia e até se propor a fazer Satsang por aí. Depois de algumas lições, você pode transformar isso num conhecimento também, como qualquer conhecimento que se adquire.

Participante: Assim como acontece com as religiões, Mestre?

Mestre Gualberto: Sim, como fizeram com Buda, com Jesus, com Mahavira, com Krishna... Transformaram o existencial em Krishna em intelectual nos livros; o existencial em Cristo, no intelectual nos evangelhos. Então, não há nenhuma garantia de que isso aqui seja realidade... no intelecto não! Existencialmente, sim! Existencialmente é Real! Agora, se você ouvir e quiser adquirir isso, você adquire como uma nova informação, um novo conhecimento. Mas, você vai continuar aí, tendo mais uma coisa a acrescentar em cima das outras que você já tem; ou seja, será mais um lixo, mais um conhecimento Advaita ou Neo Advaita.

Participante: Mas, qual o “brinde” aí, onde você chega? Qual é o diferencial? Eu senti a sua Presença quando cheguei, mais no silêncio do que na sua fala...

Mestre Gualberto: Eu sou o Silêncio! Vocês é que me fazem falar. Eu não tenho nenhum problema em lidar com o que Sou, que é o Silêncio, mas vocês terão sérios problemas em ficarem somente com o Silêncio que Sou. Primeiro, não poderão capturar isso em sua totalidade − esse primeiro já é o último, porque vocês não poderão lidar com isso, dentro de todo esse peso de condicionamento que ainda carregam. Então, precisam de uma comunicação verbal para ir além dela e descobrirem a beleza de estar comigo nesse Espaço. A primeira coisa em que eu toco em vocês, quando vêm, é nessa dimensão.

Sabe qual é a primeira sensação que você tem, quando está comigo? Eu vou colocar em palavras, mas não tem nem como colocar em palavras... É algo que dentro de você bate assim: “Que coisa! O que é isso?”. Não é a minha fala... Antes de eu abrir a boca, olho para você e tem uma “coisa” que bate aí dentro. Então, quando eu começo a falar e gesticular, é a Natureza do Ser se expressando. Não é Marcos Gualberto, não é uma pessoa, não é uma figura, não é alguém. A mesma Consciência aqui é a mesma aí, é uma ressonância! Há um contato nessa dimensão.

Agora eu vou responder a sua pergunta. Como pode não haver mente aqui, e ter essa precisão, não só da linguagem, como o poder de acompanhar e não perder o fio da meada? A sua pergunta é: “Qual a diferença, onde está o diferencial?” O diferencial está na ressonância, que é existencial e não intelectual. Você não vai permanecer comigo porque “eu tenho um intelecto brilhante”, porque “intelecto brilhante” têm esses palestrantes por aí... Eu tenho um intelecto mediano. Não é o intelecto; é a Presença da Consciência, que é Inteligência. Só que isso não é o que impressiona você. O que impressiona você, aqui, é o poder desse Silêncio, é o que o Ser reverbera, aqui.

Como um participante disse, tem momentos em que esse Silêncio varre completamente sua mente e toda a sua história. É como se algo dissesse aí dentro: “Uau!”, e você fica paralisado, literalmente. Você olha para mim, como qualquer um que chegar aqui, e vai dizer: “Olhe o jeito como o pessoal olha para ele”! Mas, se duvidar, dentro de instantes, também, vai ser capturado pela mesma “coisa”, pelo mesmo toque de Presença, de Silêncio, de Consciência. Isso é o poder da Shaktipat, do toque da energia, do toque da Presença, da Consciência. É isso que mantém você nessa proximidade.

É claro que, com o passar do tempo, como Deus é muito completo, você vai perceber que está diante de uma Inteligência que não é ordinária; não está diante de um professor que você admirou na faculdade. Você vai sempre perceber que é algo um pouco maior, comparado àquele professor que você admirava na faculdade, porque é algo diferente. É essa ressonância que pode dar a você essa certeza, e esse é o diferencial.

Primeiro, você vai perceber que eu sou o único “cara”, a única “pessoa” (como é assim que você vê todo mundo, então vai me ver, também, como uma pessoa) que, por exemplo, não tem medo de dizer para você o que eu tenho que dizer, e, ao mesmo tempo, tenho uma Graça e uma Beleza que irão encantá-lo. Você vai dizer: “Caramba! Como pode? Ele está me dando ‘pancada’ e eu continuo gostando dele! Ele está me escrachando, ridicularizando a minha autoimportância e, ao mesmo tempo, eu me sinto muito bem”! No fundo, você vai perceber que não tem nada de pessoal, que não é como ser escrachado, ridicularizado por uma pessoa que não gosta de você. Na verdade, quando olhar para mim, você vai dizer: “Caramba! Tem algo nele que não me deixa ter raiva dele”; a ponto de não dizer “ele está sendo pessoal comigo”, porque não é verdade!


Participante: Mestre, eu senti essa ressonância. O Senhor traduziu exatamente isso. Eu ficava tentando entender com a mente o que é isso que eu sinto e não dá... É somente entregar “os pontos” e ficar aqui. Não dá para traduzir, melhor nem falar porque piora as coisas...

*Trecho de um encontro presencial em Fortaleza em Setembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

Onde há busca há sofrimento


A própria busca perpetua uma forma ou outra de sofrimento, porque, basicamente, “Aquilo que é” pode ser procurado, mas não pode ser encontrado. Vocês falam: “Estou à procura de mim mesmo…”. É isso? Você tem que procurar a si mesmo? É a si mesmo que você está procurando? Você não está aqui e agora? Que inquietação é essa? Que intranquilidade é essa? Que desassossego é esse? Então, que procura é essa? O que vieram fazer aqui? O que vocês vão fazer? Para onde vocês vão? Esse é o vício da procura, esse vício de procurar coisas novas. Você arruma um namorado, depois arruma outro, depois outro… Arruma um carro, depois arruma outro, depois outro… Qualquer coisa tem que ser nova, para ficar velha na sua mão e você poder ir atrás de uma outra coisa. Por que isso? Onde é que está o "x" da questão? Qual é o problema real?

Participante: A busca da felicidade…

Mestre Gualberto: Não é possível encontrar a felicidade! Descarte isso! Olhe para isso que está aqui, que é essa inquietude, essa intranquilidade, todo esse desespero humano, esse conflito, esse medo, esse desconforto, toda essa dor e infelicidade. E agora? Você já sabe que procurar não vai dar, pois você vai encontrar uma outra coisa para tentar tapar esse buraco, mas essa outra coisa vai ser menor que esse buraco e não vai conseguir tapá-lo… O buraco é muito maior! Então, o problema é esse buraco, esse vazio, essa infelicidade. E de onde nasce essa procura? Será do vazio ou será uma imaginação sobre o que se pode fazer com esse vazio? A imaginação do que se pode fazer com esse vazio dá início à procura e, aí, tudo o que se encontra é menor que esse vazio: você coloca algo nesse vazio e ele o engole. Tudo que se encontra é muito pequeno diante desse enorme vazio da infelicidade, da incompletude, da insuficiência, da dor.

Freud, Jung, Adler, Maslow… Quem resolveu isso, doutores? Ninguém resolve isso! Quem resolve isso?[Participante aponta para o Mestre Gualberto] .

Não é assim… Eu não resolvo isso. Você resolve isso! O que eu posso fazer é o que o meu Guru fez por mim: mostrar como você pode resolver isso aí. Eu estava sozinho, nessa mesma situação de vocês. Quando eu encontro vocês, vocês não me surpreendem, porque eu sei bem o que é isso, mas isso não está mais aqui. Você resolve isso por uma ação da Graça… Você resolve não continuar perpetuando isso e, aí, isso se resolve por uma ação da Graça, uma ação Divina, uma ação de Deus, uma ação dessa Coisa Desconhecida… uma ação do Guru.

Nesse sentido você está certo: se você não atrapalhar, eu resolvo. Você resolve me deixando resolver, mas não pode fugir. Eu ensino você a ficar quieto, a ficar aí, a não se mexer, a não se mover. Eu trago a quebra do encanto pelas coisas externas, dessa tentativa de você encontrar alguma coisa lá fora para preencher aí dentro. Eu ocupo isso! Por mais de vinte anos, meu Mestre ocupou o lugar de todas as coisas na minha vida, foi o tempo que eu precisei. Cada um precisa de um determinado número de anos, de meses, de dias, ou de horas, porque somos muito teimosos… Não é? Eu ensino você a desaprender, a deixar de olhar para fora… Eu ensino você a olhar para dentro. Todo o meu trabalho é para que você pare de buscar em toda parte, em todo lugar, alguma coisa para colocar nesse vazio.

A Verdade é que você nasceu para Ser, somente Ser… não para ser mãe, pai, empresário, filho, avó, avô, esposa, professora, médico... Você nasceu para Ser, só Ser, e você se esqueceu disso. Você está sendo "alguma coisa", e isso é um buraco, um vazio, que jamais se preenche. Aí, para piorar, a mente (isso é um velho truque dela) se compara com outros e diz: “Aquilo sim é que é ser feliz”. Não satisfeito com querer ser “alguém”, você quer ser um “alguém” como aquele “alguém”, então vai estudar, lutar, se preparar, trabalhar naquela direção. E ser “alguém” significa ter as coisas que “alguém” deve ter, pois “alguém” especial, como você se vê, se sente, deve ter casa, carro, um marido, uma esposa, depois meia dúzia de filhos, depois uma casa de praia…

Todos os familiares ficam muito felizes, quando você dá um filho para o seu marido. Você mesma se sente realizada! Você se sente um homem realizado quando dá netos para a sua mãe, sobrinhos para a sua irmã, para o seu irmão… Você deixa todo mundo feliz! Mas você olha para si e diz: "É só isso?”. Então, a mente diz: “Não! Tem mais alguma coisa que você ainda não conquistou”. Aí, parece que, quanto mais coisas você coloca, mais este vazio se torna evidente.  

Para preencher esse vazio, você também vai para as religiões, vai buscar gurus… Esse vazio é criado somente pela sensação de ser “alguém”. Não é por Ser, mas pelo desejo de “vir a ser”, pela intenção de ser. Você, que nasceu para Ser, esqueceu como Ser, confundindo-se com as operações da mente cultural, social, educada e treinada para obter. Assim, não tem como a felicidade ser a sua Real Natureza, e, no lugar disso, há a infelicidade.

Você vê como não se trata de buscar? Buscar o torna mais infeliz! Ser é uma questão de desaprender essa coisa de “vir a ser”, de ser “alguém”, aí só fica Isso: Ser! Então, a mente para com essa tagarelice interna, esse monólogo, essa coisa de falar com você mesmo o tempo todo. Você é alguém que, constantemente, está sendo ofendido, magoado… Você encontra uma coisa e diz: “Agora vou ser feliz!”, mas aquilo frustra você. É uma frustração muito grande ser “alguém”: ser mãe, pai, marido, esposa…

É incrível como isso é simples! Então, do que é que estamos mesmo tratando em Satsang? Estamos falando do fim da ilusão de ser “alguém”; estamos apontando para um Estado livre do ego, do medo e do sentido de uma “pessoa” presente, com as suas buscas e insatisfações intermináveis. Estamos falando do fim da mente egoica, que transporta nela tantas crenças e ideias, tantos conceitos e conhecimentos, tantas experiências e tantas soluções, as quais nunca resolvem nada e, ainda, criam mais situações, que, por sua vez, criam mais situações. Então, é melhor ir além da “pessoa” e deixar o mundo por conta Daquele que está brincando dessa forma. A princípio, parece uma coisa muito cruel para você, mas é apenas leela (como os indianos chamam essa brincadeira) o modo como Deus lida com tudo.


Você cria filhos para eles terem filhos e perpetuarem toda a miséria humana, porque essas crianças também vão ter filhos que, por sua vez, vão ter filhos, e essa dor humana, essa miséria, essa leela continua. Você não vai mudar isso! Você vai acordar desse sonho; é só o que você pode fazer. O sonho é assim: carrega o bem e o mal, a crueldade e a bondade, a estupidez e a sabedoria humana, o construir e o destruir. Então, acorde do sonho! Assim, você está além do ego, da mente, desse jogo, desse vazio, dessa inquietude, desse absurdo estúpido que é a vida humana sem o Divino; a vida do “eu”, com todos os “meus” (minha casa, minha esposa, meus filhos, meu marido, meu corpo, minha mente, minha saúde, minha doença…). E agora?

*Trecho de uma fala em encontro presencial na cidade de Fortaleza no mês de abril de 2017

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