segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O mundo imaginário da mente



Até hoje, você acreditou que Deus viria, que Ele apareceria em sua vida para salvá-lo. Eu estou dizendo que quando Deus chega na sua vida é para acabar com essa ilusão de que você precisa ser salvo, resgatado. Quando Deus chega na sua vida é para o fim dessa ilusão de que você está aí e Ele está lá, de que você estava aqui esperando e Ele acabou de chegar para encontrá-lo; é o fim dessa ilusão de que tem você e Ele.

Reparem nas pessoas em volta de vocês… Do que elas falam? Do que elas tratam? Do passado, de suas experiências pessoais, dos seus desejos, dos seus medos, de suas crenças, descrenças, esperanças, anseios, receios, temores, particularidades… uma busca constante de se autopreencher compartilhando algo com alguém, só para serem importantes, para serem notadas, para receberem a validação da pessoa que elas acreditam ser. Elas estão usando vocês, e vocês, como pessoas, estão usando outras, estão fazendo o mesmo jogo.

Essa conversa sobre coisa alguma não termina nunca! Pura estupidez! A mente conversando com ela mesma! Só mudam os mecanismos, as máquinas. Essas máquinas se veem, ilusoriamente, como entidades separadas em uma relação de reciprocidade, de companheirismo, de amizade, mas isso não é real, porque você não é real. Se você não é real, o outro também não é; e se o outro não é real, com quem você está falando? Quem é você? É só a mente no seu antigo, velho e incansável  “blablablá”. Quando você está comigo, você está em Satsang, e isso significa estar fora da constante e febril atividade desse “blablablá” interno, dessa tagarelice de dizer coisas para si mesmo e para os “outros”.

Estar em Satsang significa estar assentado em Silêncio, e esse é o propósito de vir a mim. Você vem a mim para silenciar, não para devanear. Sabem o que significa devanear? Esse constante passeio que se dá nesse mundo virtual criado pelo pensamento, como essa montanha-russa em 3D, que vimos agora há pouco. Você coloca um óculos e faz uma viagem: você sobe, desce, faz um looping… mas, na verdade, você não saiu do lugar. O ego funciona assim. Ele é tão real quanto essa viagem virtual em 3D com óculos especiais. Você não sai do lugar e, no entanto, você viaja... Uma viagem que não termina nunca, com a qual todos corroboram, a qual todos o ajudam a fazer.  Todos dizem que é assim mesmo, que esse é o padrão, a fórmula, o formato, que é assim que deve ser, e eu venho em Satsang questionar isso. Em Satsang, que significa se assentar em Silêncio, adentrar, mergulhar, nesse Silêncio, eu venho questionar essa ilusão — a ilusão de alguém em uma viagem. Na minha fala, no meu silêncio, no meu olhar, eu estou dizendo:  “Você está aí, não precisa fazer essa viagem; não precisa entrar nesse devaneio; não precisa se mover para esse mundo ilusório do pensamento, da crença, do relacionamento, onde você precisa de pessoas e coisas, onde você precisa estar com o outro para desabafar, para soltar... Soltar o quê? Desabafar o quê? Com quem?

Se você fica com essa dor, você vai além dela; se você compartilha, ela se torna mais forte para manter sua continuidade nessa ilusão, que é a ilusão de alguém nela, de alguém dentro dessa dor. Não tem ninguém dentro dessa dor! Essa dor não vai matá-lo, porque você nunca nasceu, então, não pode morrer. Você não pode experimentar a imortalidade nem a mortalidade. Então, permaneça com essa dor e descubra que ela não tem nenhuma realidade, a não ser nesse seu mundo imaginário do pensamento, no qual você faz uma viagem em uma montanha-russa com um óculos 3D.

*Transcrito a partir de uma fala, durante o horário de almoço durante um encontro presencial
em um restaurante na cidade de Fortaleza em Agosto de 2016

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Viciados em adquirir informações




Satsang significa se deparar com aquilo que está presente! 

O pensamento aí não faz isso. O pensamento é algo presente, às vezes sim, às vezes não, mas ele não se depara com o que está presente. O pensamento é só uma aparição, como qualquer outra aparição (como o som da chuva, agora). Toda experiência, todo conhecimento e todos os conceitos e crenças são apenas pensamentos. Nada disso é a Verdade, porque não se depara com o que está presente... Nada disso. Isso também é algo que aparece aí, que vem e vai, vem e vai... 

Assim, todo conhecimento, toda experiência, toda forma de ideologia, de crença, de conceitos, não é a Verdade. Aparece na Verdade, mas não é a Verdade. A Verdade é aquilo que está presente e que não muda, não existindo nada dentro do conhecido que seja assim. O corpo não é assim, nem a mente, e nem as sensações, as emoções, os pensamentos, ou qualquer forma de conhecimento e de experiência.

Então, o que é Satsang? Satsang é deparar-se com Aquilo que está presente, no qual isso tudo aparece e desaparece, e onde o presente também aparece. O presente não é a Verdade. A Verdade é Aquilo no qual o presente aparece.  O presente momento não é a Verdade, pois ele se torna o momento “que foi” para o pensamento, que, também, não é o mesmo.

Então, o que é Satsang? Satsang significa deparar-se com a Verdade. É o encontro com a Verdade, que está fora do tempo; está fora do passado, do futuro e do presente. A Verdade está fora da história, dessa história da “pessoa” aí, porque essa “pessoa”, também, não é o que está presente e sim aquilo que aparece Naquilo que está presente. Toda consciência que você tem do mundo não é a Verdade, porque essa consciência, também, ainda não é a Verdade. A Verdade está quando “você” e o “seu” mundo não estão.

Você não pode encontrar a Verdade. Em outras palavras: você não pode encontrar Deus. Você não pode encontrar a Liberação, a Salvação, a Realização, porque “você” é o obstáculo. Você só aparece com o seu mundo. Sem o seu mundo você não aparece, não é absolutamente nada. Você sem a sua história não é absolutamente nada, então, sem a sua história, não tem “você”. Quando não tem você, esse “absolutamente nada” é o que nos interessa investigar aqui, porque esse “absolutamente nada” é absolutamente O Todo, que não é você, “eu”, “ela”, “ele”, “nós”.

Às vezes você tem um vislumbre Disso, mas isso vem e vai embora. Você tem um breve vislumbre de que não tem “alguém” aí, até que o próximo pensamento surja. Quando o pensamento surge, você se embola com ele e começa a fazer afirmações pessoais, e, mais uma vez, você está dentro da história. Dentro da história você tem o “seu” mundo, dentro dele você é “alguém”, além de ter “alguns”, vários, à sua volta. E aí está você de novo perdido, em maya (ilusão), na ilusão do “eu”, do sentido de “alguém”, é claro, com problemas. “Alguém” sempre tem problemas, porque “alguém” sempre tem escolhas, desejos e, portanto, tem medo.

Percebem como é simples isso?

Basta o primeiro pronome, “eu”, para tudo mais surgir. Você não quer se deparar com O Que é, porque Isso significa o fim do “seu” mundo, do corpo, da mente, do mundo, da história, da “pessoa”.

O que é isso que agora está caindo do céu? O que é isso? Agora, por exemplo, o que está acontecendo? Como é que a gente chama isso que cai do céu? Chuva! Mas o que é basicamente isso? Quando sai de uma rocha, como é que vocês chamam? Nascente! Quando faz um caminho entre uma trilha, você chama de riacho. Quando aprofunda e abre espaço, esse riacho atinge certo volume de água e você chama de rio; quando ele chega ao final desse grande volume e alcança um volume muito maior de água, você chama de mar. Repare que os nomes vão mudando. Quando cai do céu é chuva, quando sai de uma rocha é nascente, quando segue uma pequena trilha é riacho, quando alarga um pouco mais e aprofunda é rio e quando esse rio se perde num volume muito maior de água você chama de oceano, mar. Mas qual é o nome disso que está caindo do céu? Água...

Isso é como o seu nome: o seu nome é diferente do nome dela, que é diferente do nome dele, assim como a mesma água é chamada de chuva, rio, riacho, nascente e oceano. Você tem um nome, ela tem um nome, ele tem um nome, cada um tem um nome diferente, e, assim, os nomes são diferentes, as formas são diferentes. Na chuva, a água cai do céu; na nascente, a água sai da rocha; no riacho, ele segue uma pequena trilha e vai crescendo; quando chega ao rio ele aprofundou e tem um volume maior; quando chega num espaço muito maior é o mar. Os nomes e as formas vão mudando para a mesma “coisa”.  A mesma “coisa” vai mudando de forma. O nome vai mudando, mas é a mesma coisa sempre. A água é sempre água.

O Ser é sempre O Ser. Tem a forma de menino, de menina, de flores, de árvores, de macaco, de pássaro, de aves, de peixes, mas é o mesmo Ser, a mesma Realidade, a mesma Verdade com nomes diferentes. É como o ouro que, em algum momento, é um brinco, no outro é um colar, no outro é uma pulseira, no outro é uma estátua, mas é ouro. Então, só mudam as formas e os nomes, mas não tem nome, porque ele é a gente que dá. A gente chama de água essa coisa líquida, transparente, incolor, sem odor, no seu estado natural. Depois a gente chama de vapor, gelo, etc., ou seja, começa a dar nomes para as formas que ela assume. Os nomes, somos nós que damos, e isso é coisa que o pensamento inventa, mas o pensamento não é a Verdade.

Quando você realiza, quando constata a sua Natureza Real, você vê que são somente nomes e formas para a mesma Verdade, que é Você, porque só tem Você. Agora você não se confunde mais com um nome, com a forma, porque sabe que você é Deus... Porque só tem Ele.

Essa multiplicidade, essa separação entre formas, é criada pelo pensamento, numa necessidade da mente egoica de dar explicações, criar conceitos. Vocês estão viciados em adquirir informações, para se sentirem seguros, no ego, de que sabem alguma coisa. Contudo, a única coisa, que você realmente pode saber, “você” não pode saber. “Ser” não é possível saber. “Ser” é possível Ser, mas não é possível saber. Então, se você sabe alguma coisa, é um tolo e está preso, ainda, a um conjunto de ideias, de crenças, de pensamentos, de nomes (nomes para as formas). Quando faz isso, você está perdido na ilusão da separatividade, está na ilusão do sentido de um “eu”, que é somente um nome, também. Então, você diz: eu sou Isabel, eu sou Cristina, eu sou Margarida, eu sou Selma, eu sou Célia, eu sou João, eu sou Marcos, eu sou Paulo, eu sou... E aí você se identifica com uma história, que é a história de uma menina, de um menino, de uma “pessoa”, de um “ser humano”. Não há ser humano, como não há ser animal, ser vegetal, ser mineral... Não existe isso... É como dizer: água-chuva, água-rio, água-fonte, água-mar... Não existe água assim; água é água.

O reconhecimento Disso, da sua Natureza Real, é o fim da dualidade, o fim do sentido de separação. Isso é Felicidade, é Amor, é o fim do sofrimento. Por não existir mais nada importante, por você não ser importante, nada pode fazê-lo sofrer, porque não há “alguém” aí para sofrer por alguma coisa; não há alguma coisa pela qual “alguém” aí ainda possa sofrer, porque não tem “alguém” aí. Só tem a Vida. Isso é Iluminação, esse é o Estado de Buda, é o Estado de Cristo, esse é o Estado Natural. Esse é um Estado que não é um “estado” (que muda para outro “estado”). Isso não é um “estado”, é Você. Isso é Sabedoria, é Amor, é Verdade, é Liberdade, é Sanidade, é Santidade, é ser Deus, é Ser somente O que Você nasceu para ser.

Observem que Nisso não há graduação, que, também, é criada pelo pensamento. Não é possível estar mais perto ou mais longe de Deus. Esse “mais longe de Deus” ou “mais perto de Deus” é como a água em estado de vapor, que, se pudesse dizer, diria assim: “eu sou quase água, eu não sou líquido, mas eu sou quase água”; ou como se o gelo pudesse dizer: “eu sou quase água, mas estou muito petrificado, ainda”. Não existe isso, que é somente coisa de filosofia, de religião, que vocês aprenderam. Isso de que você está mais perto ou mais longe de Deus, que o pecado o afastou de Deus, não existe. O pecado é só a ilusão de que “você não é” O que Você É, de que “você é alguma outra coisa”. A confiança no sentido de separatividade, que você é um e Deus é outro, este é o pecado. O único pecado possível é essa heresia de achar que você não é Deus... Este é o pecado. A ilusão da separatividade, esse “conhecer” o bem e o mal é o pecado. A idéia de ser “alguém” cercado de muitos, olhar e se ver como “alguém” olhando para “alguém”, esse é o pecado (a ilusão da separação).

O pecado é o ouro acreditar que é a forma do brinco, ou do cordão, e ficar dizendo para todos: “eu sou o cordão”, “eu sou o brinco”. É o ouro, mas ele está dizendo que é o brinco, que é o cordão. É pior quando ele diz “eu sou o cordão” e, olhando para outro, diz: “você é um cordão também”... Ele vê um montão de cordões e de brincos em volta dele. O “ouro” esqueceu que é ouro, que só tem ouro, que ele só está vendo ouro, porque ele vê somente o que foi condicionado para ver, pela religião, pela filosofia, pela cultura, pela sociedade, pelos pais, pelo mundo em volta dele. Ele vê como todo mundo vê, porém todo mundo vê como o cego vê, ou seja, não vê nada; imagina tudo e não vê nada, mas imagina que está vendo. É tudo condicionamento, tudo crença, tudo ilusão. 

Quando vem ao Satsang, você vem estar comigo, que é estar com Você mesmo, porque só há EU aqui, que é Você. Se você souber ficar da forma que eu preciso que você fique aqui, você vai se encontrar... Vai parar de ficar dizendo que é cordão, que é “brinco, pulseira, estátua ou alguma peça feita de ouro”. Você vai parar de dizer que é “gelo, vapor”; que é... 

Estar em Satsang significa estar nessa intimidade, que é a intimidade de sua Real Natureza... Ter uma oportunidade de ir além da ilusão do “eu”.

*Transcrito a partir de uma fala ocorrida no Ramanashram Gualberto em Outubro de 2016 na cidade de Campos do Jordão.

domingo, 20 de novembro de 2016

Uma grande e inexplicável beleza





Olá, pessoal. Boa noite. Sejam bem-vindos a mais um encontro aqui pelo Paltalk. Maravilha estarmos juntos, mais uma vez, nesta noite.

Esse é um trabalho completamente diferente de tudo o que você conhece, porque estamos tratando de algo ímpar, bastante singular. Estamos indo além das crenças. Aqui, o ponto é que você “esqueceu” que nós estamos juntos, nesse encontro, que você entrou nesse espaço, nessa sala; o ponto é que você se esqueceu, e está aqui para se lembrar. Lembrar-se é ir além dessas crenças. Você esqueceu que isto aqui é um sonho e você acredita que é real. Então, nós temos uma coisa aqui, que na realidade eu coloquei de duas formas: a primeira, eu chamei de esquecimento; a segunda, eu chamei de crença. Esquecimento de que isto é um sonho e a crença de que isto é real.

Então, vamos lá. Vamos ver se conseguimos romper tanto com esse esquecimento, quanto com essa crença. Por isso esse trabalho é único.

Nosso trabalho aqui é ir além da crença de que isso é real, e nos lembrarmos – porque nesse momento vocês estão esquecidos – de que isso é só um sonho. Como é que você faz isso? Você começa pela observação, observando o que está à sua volta. Em volta de cada um de nós, as coisas estão acontecendo, ou parecem acontecer. Aqui a primeira coisa é: não se prenda a isso. Compreenda a si mesmo, mas não é possível compreender a si mesmo dando significado àquilo que acontece à sua volta, como se isso estivesse acontecendo para você.

Percebam, em minhas falas, a exatidão do que estamos colocando. Você não pode compreender a si mesmo, se aquilo que acontece à sua volta recebe o significado particular de "alguém", e esse alguém é você.  Então, já começamos esse trabalho. Por isso que é um trabalho único, e ninguém está disposto a isso. Onde quer que esteja, qualquer trabalho em que se envolva, você estará sendo valorizado. Nesse espaço chamado Satsang não tem a valorização do “eu”, desse "alguém" aí. Isso a princípio o perturba, mas se você entrar fundo, cada vez mais fundo, nesse trabalho, naquilo que eu estou lhe indicando, mostrando, nas dicas que eu estou dando, você vai ver a beleza disso, o quanto isso é simples e maravilhoso - a liberdade de se lembrar e de ir além das crenças; a liberdade de se lembrar de que tudo isso é um sonho e de ir além dessa crença básica, que sustenta todas as outras crenças, de que isso é real.

Quando você assiste a um filme, você vê as coisas acontecendo. Quando você acredita na tragédia acontecendo para "você", você sofre. Quando você acredita que as coisas boas estão acontecendo para "você", você se alegra. A mente, em seu comportamento de sonho, de ilusão, acredita no sofrimento, assim como acredita também no prazer; apega-se ao sofrimento e tenta rechaçar a dor. Então, a mente tenta rechaçar a dor e apega-se ao prazer. Pode parecer estranho o que eu disse agora, que eu disse “se apega ao sofrimento”, mas, na verdade, isto está acontecendo. Todo apego ao prazer é um apego à dor. Não há como escapar disso, porque, quando se apega ao prazer, você está sustentando a dor. Não há como você separar prazer de dor. Então, a ideia de ficar ileso à dor, se apegando ao prazer, na verdade é um apego ao sofrimento. Por isso é muito complicado; a mente torna isso muito complexo. A vida se torna muito complexa, na mente. Tudo o que, na verdade, a pessoa procura é o prazer e rechaçar a dor, mas o prazer que ela procura é o apego ao sofrimento. Quando ela tenta segurar o prazer, ela sofre. Não é possível segurar alguma coisa, nem sustentar uma experiência, porque não existe "alguém" real nesse sonho; é um sonho que acontece sem "você". A ideia de "você" nesse sonho é essa busca do prazer; essa tentativa de rechaçar, de livrar-se da dor. Isto, em última instância, é a busca do sofrimento, o desejo de sofrer. Então, acompanhem isso: eu estou dizendo que você não sabe o que é felicidade. O seu movimento, na mente egoica, é um movimento na busca do sofrimento e não da felicidade. Tudo o que você faz não é para encontrar a felicidade, é para permanecer sendo "alguém", em alguma sensação de prazer, em alguma forma de preenchimento; o apego a isso é dor, é sofrimento.

Está claro isso? Talvez você pergunte: “mas por que é assim?” A minha resposta é: “é assim, porque é assim”. Você não pode ver isso, porque não observa. Por isso eu disse que a primeira coisa, aqui, é observar. Comece a observar como a mente funciona aí dentro da sua cabeça, e nesse assim chamado coração, que, também, ainda está na mente. O coração que você conhece ainda é mental. Essa coisa da emoção, do sentimento, da sensação, que você chama de coração, ainda é do ego e faz parte da mente. Quando eu falo do Coração, estou falando desse Espaço de Silêncio, que é Consciência, não desse coração atrelado, ligado às imagens, pensamentos, sensações, sentimentos, e a essa busca frenética pelo prazer. Esse "coração pessoal" é o coração da pessoa, o coração do “eu”, “do mim”, “dessa ilusão”. Isso está sustentando essa crença, a crença desse sonho, do sonho da separação, da separatividade, de uma existência separada.

É preciso confiar nesse Despertar, que significa sair desse sonho, indo além dessa crença. Então, a Felicidade vem (aparece), na sua própria forma, da sua própria maneira... A Paz vem, na sua própria forma, da sua própria maneira... O Amor vem, a Liberdade vem... Todas essas coisas são sinônimas e tudo isso vem sem o pensamento sobre Isso. Tudo o que você precisa é apenas se livrar dessa ilusão, dessa noção equivocada de que “eu estou aqui, nessa experiência, naquilo que acontece, sendo 'alguém', tendo um corpo e uma mente, estando nessa ação"; ainda, "eu sou o autor disso", "eu estou fazendo", "eu estou sentindo", "eu estou pensando", "eu estou resolvendo isso”... Quando você está livre dessa noção, tudo acontece naturalmente; a Felicidade, a Liberdade, o Amor, a Consciência, a Verdade, o fim do sofrimento, tudo isso acontece naturalmente. Não é você como uma entidade presente fazendo isso aparecer. Isso acontece na sua própria forma, da sua própria maneira. Quando essa ilusão desaparece e essa crença termina, a lembrança volta. Você esqueceu, mas estamos aqui trabalhando isso.

Compreender a si mesmo significa ir além dessa ilusão de ser "alguém". Então, aqui se trata de entrar fundo, cada vez mais fundo, nesse real Coração, que é o Silêncio, que é essa Presença, presente além da mente e do corpo... Estar quieto, cada vez mais fundo, mais fundo dentro de si mesmo, transcendendo a mente, o corpo e tudo aquilo que acontece à sua volta. Em outras palavras, transcendendo a ilusão de "alguém" nessa coisa. A mente está viciada em se manter experimentando, fazendo, entendendo, aceitando ou rejeitando, concordando ou discordando, e é necessário soltar isso. Não precisa de "você" nisso, nesse concordar, discordar, aceitar, rejeitar, experimentar. Não é necessário "você" aí, aqui, agora, pois isso é só um hábito, um vício intelectual, sentimental, emocional, que o afasta desta Consciência, desta Presença, desta Liberação, desta Felicidade, deste Amor, desta Paz. Então, sem "você" sua vida transcorre, suas horas e seus dias começam a transcorrer como Meditação, de uma forma natural, sem o peso de um pensador. Assim, tudo acontece naturalmente, ou automaticamente.

Nós estamos em Satsang trabalhando isso, trabalhando a Meditação, que é Consciência, Presença, é estar desidentificado do experimentador nessa experiência, nesse instante, nesse momento presente. Não importa o que esteja acontecendo, não é para "você". Quando os pensamentos vêm a você, para quem são esses pensamentos? Em quem ocorrem esses pensamentos? Quem Sou Eu?

Quando, nessa sensação, nesse sentimento, no falar, no andar, comer, mastigar, você não valoriza mais a ilusão de uma "entidade", o "sentido do eu" perde a importância. Constatar isso é simplesmente espantoso, algo de uma grande e inexplicável beleza. Então, você descobrirá que nunca existiu, nunca houve um “eu”, nem nunca haverá um “eu”, e seus inimigos todos desaparecem, bem como os amigos e todos os vínculos. Você constatará essa Consciência imperecível, indizível, isto que é eterno... Esta Presença, que é Onisciência.... Que não existem outros e o mundo. Essa realidade é Deus. Não existe aquele "Deus" que o pensamento formula.

Você diz: “Mestre entender tudo isso é fácil, o difícil é silenciar, me deixa ansiosa”. É. Entender isso não é possível, ou entender isso ficando ansiosa, como você mesmo coloca, é fácil.

Essa fala não é para ser entendida. Isso é como você estar com fome e eu lhe dar uma maçã, na sua mão, e dizer que apenas olhe para essa maçã, sinta o seu formato, sua cor, o peso dela; que faça apenas isso, e, no entanto, você está com fome. Essa fala, eu não a apresento para vocês entenderem, mas para constatarem, em si mesmos, Isso que não pode ser constatado fora de Satsang. Você pode estar nessa sala, ouvindo essa fala, porém estar em Satsang é "morder essa maçã"; não é sentir o peso dela na mão, a sua textura e cor, nem admirá-la, pois isto é muito intelectual e ainda está na dimensão da mente egoica. A Verdade está no experimentar diretamente, como morder a maçã, porque só assim a fome pode desaparecer. Portanto, venha a Satsang, presencialmente. Quando estiver nessa sala, fique em Satsang. Se você está em Satsang, não há qualquer esforço para silenciar e nenhuma necessidade de entendimento. Esse é o fim do medo, da ansiedade, do futuro. Ansiedade é expectativa de obter, de realizar, de chegar, e isso é futuro. Tudo o que estamos colocando aqui, nesse instante, não está no futuro ou no passado, mas sim além desse presente momento; está em sua Natureza Real, que é atemporal; está fora do tempo.

Ok? Venha a Satsang! Vamos ficar por aqui. Valeu pelo encontro. Namastê.

*Transcrito a partir de um encontro online na noite do dia 26 de Outubro de 2016 via Paltalk
Encontros todas as segundas, quartas e sextas às 22h - Participe!

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Preso a ilusão de ser alguém




Aqui, não é como ouvir um professor, ouvir um ensinamento... É ouvir a Verdade, tratando da Verdade. Então, minha fala atinge você de uma forma direta, mas não são as palavras. Enquanto você me ouvia ontem, uma mudança começou a acontecer dentro de você. Não eram as minhas palavras, era o poder dessa Verdade, o poder dessa Presença. 

Então, repare que nesses nossos encontros abertos, são vários “disparos”, vários “tiros”, mas os outros não sabem aonde isso vai dar, o que isso vai afetar. Se tiver alguém pronto para ser tocado por Isso, vai ser tocado. Quando isto acontece, o sinal é este: a mente silencia, algo dentro de você se abre e você começa a ver algo além das minhas palavras, além dessas falas - é essa Verdade, a Verdade tratando da Verdade. Você é a Verdade, Eu Sou a Verdade, só há a Verdade! 

A ilusão é uma miragem no deserto... A miragem é uma ilusão de algo, como uma paisagem aparecendo no deserto. Mas a Verdade é a Verdade, e é o impacto da Verdade que reverbera em sua Natureza Real. A Realização é a Verdade, e nessa Realização não tem “alguém”. Só tem a Verdade. Essa é a Verdade de um Mestre. Essa é a Verdade do Guru, que é a Verdade do discípulo, da Consciência, do Ser. A sensação é clara; é a clara sensação de que Isso já está sendo aguardado há muito tempo. 

Quando você me encontra, você se encontra! Quando a Verdade se encontra, Ela se reconhece. Ninguém precisa dizer o que você está vendo, ouvindo, percebendo, sentindo... Você sabe! Esse encontro com Deus é um encontro amoroso, é uma constatação da Verdade presente, desse Amor, dessa Liberdade, dessa Felicidade, desse Silêncio! Não dá para descrever Isso. Você pode descrever? Hein? Dá para descrever o que você sente quando olha para mim? Alguém explica? Não é lindo isso?! Não sou Eu, é Você. Só tem Você aqui. Esse Eu Sou é Você. Este é o sinal de que a gente está diante do Mestre: o Mestre é aquele que nos revela o que somos! 

O Mestre é aquele que nos revela que só há um Mestre, que somos nós mesmos. O sinal de que estamos diante do Mestre é que Ele é Real. Nós fomos alvejados e atingidos, e a gente não sabe de onde vem o disparo. Nós fomos alvejados... alvejados por esta Graça, por este Silêncio. Esse encontro com o Mestre, aquilo que somos, silencia a mente, pacifica o coração, e penetra, interpenetra, invade, preenche todo o nosso Ser de Amor. Deus é o Beloved, Deus é o Amado. Este é o Guru. Essa é a Realidade do nosso Ser, a Verdade de nossa Natureza Divina. Você nasceu para realizar Isso. 

Na mente há muitos pensamentos, muitas crenças e ideologias, há muitos conceitos, há muitas teorias... Há... Há... Há tantas coisas... Mas há algo em você além da mente, e esse “algo” não é uma teoria, não é um conceito, não é uma crença. O intelecto não pode cultivar Isso, não pode provar a existência Disso, não pode provar a não existência Disso. Essas falas não estão dizendo algo para o intelecto. Esse espaço de pausas entre as palavras, esse Silêncio entre cada uma das palavras assim colocadas, essa “Coisa” singular, esse profundo, absoluto e extraordinário Silêncio, está comunicando “algo” para essa “Coisa”. E essa “Coisa” se reconhece nesse Silêncio - esta é a linguagem deste “algo”, Disso presente. 

A Verdade tem a sonoridade de uma bela música, que a gente não precisa entender, não há porque entender e não há como entender, mas é possível viver, sentir e perceber Isso, além das palavras... Sentir essa melodia, essa musicalidade... Sentir essa singular Verdade presente Nisso. Reparem que tem uma música na minha fala... Ela é uma música... Toda música é a minha fala; a música sem letra, que reverbera nesse desconhecido Espaço, nesse desconhecido lugar. É essa coisa singular que você traz aí, dentro de você, e que você É, em sua Natureza Real... Que você É, que é Você. 

O meu convite para você é: viva sem a mente, viva sem o ego, viva sem o sentido de “alguém” presente neste instante, neste momento, em cada momento, momento a momento, no momento seguinte, no outro e no outro, também. 

Seu Ser, a sua Natureza Real, não carrega nenhuma necessidade, nenhuma carência, nenhum conflito, nenhum problema. Permaneça em seu Ser. Permaneça no coração. Permaneça fora do tempo e do espaço, fora da ilusão, dessa ilusão de “ser alguém”. Assim, todas as suas necessidades e carências desaparecem, todos os seus desejos e medos desaparecem, todas as suas escolhas e preocupações também. Esses desejos presentes aí são prova de imaturidade. 

Uma fruta que não amadureceu ainda não é doce, não está pronta para se desligar da árvore; ela precisa da árvore por mais um tempo. Na existência é assim que funciona. Carregado dessa ilusão, a ilusão de “ser alguém”, não há Nirvana, não há Reino dos Céus, não há Samadhi, não há Liberação, não há Felicidade, não há Liberdade, não há Verdade.

Quando não há mente, não há desejo. Quando não há desejo, não há imaturidade. Quando não há imaturidade, você está pronto. Então, esse amadurecer é essencial. Satsang lhe dá isso, lhe dá essa condição de viver como, de fato, você nasceu para viver: livre da ilusão do “eu”, do “mim”, do ego, da “pessoa”. 

Com essa imaturidade, com esses conflitos, desejos e medos, com essa ligação à existência, é como a fruta que começa a crescer numa árvore, se mantêm presa nessa árvore, mas leva algum tempo até o dia em que ela amadureça e possa se soltar, se desligar da árvore. No ego você vive assim, preso à ilusão de “ser alguém”.  Você vive assim, mas não é você, é a ilusão deste “ser você”, que você vem há muito tempo acreditando ser. Isso é o que eu acabei de chamar de imaturidade. 

Não existe essa árvore, não existe essa fruta crescendo e amadurecendo, só existe essa ilusão... A ilusão “eu sou o corpo”, “eu estou aqui, nesse mundo, vivendo a minha vida, fazendo as minhas escolhas, tomando as minhas decisões, escolhendo o tempo todo, desejando o tempo todo, querendo ser feliz o tempo todo”... “Indo para fora, encontrando pessoas, com elas me relacionando, encontrando lugares”... E a gente acha que esse lugar, ou aquele lugar, vai nos dar essa felicidade, essa casa. Esse lugar, essa ligação com objetos, também, diversos objetos (carro novo, apartamento, jogo de sofá, quadro para pendurar na parede, uma TV de plasma, colares, brincos...), essas coisas, não dão felicidade. Como há a ilusão de que isso vai lhe dar felicidade, você adquire essas coisas, ou vai morar naquele lugar que você sonha, ou casa com aquele cara (ou aquela menina), tem aqueles filhos que deseja ter e, aí, continua descobrindo que nada se resolveu. É o que eu acabo de chamar de imaturidade. 

Não há Felicidade lá fora, porque a Coisa toda está aí dentro, nesse Espaço, nessa Consciência, nessa desidentificação com mundo externo, dos objetos; com o mundo dos pensamentos, das sensações, dos sentimentos, das emoções; com o mundo das realizações externas. 

Então, você está de volta ao Mestre, ao Guru, à Consciência, à Presença, ao Ser, à sua Natureza Real, à sua Natureza Essencial - é quando Você me encontra, é quando Eu encontro Você, é quando Você se encontra. Não pense sobre isso, não tire conclusões sobre isso, não aprenda as minhas palavras, não repita isso, não intelectualize isso, não acredite nisso, não torne isso uma crença. Entre fundo e descubra Isso, o fato que Isso É... Isso como um fato.

*Transcrito a partir de um encontro na cidade de Fortaleza em Setembro de 2016

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