quarta-feira, 29 de junho de 2016

A verdade está presente quando a mente não está



Sejam todos bem-vindos em mais esse momento, aqui pelo Paltalk. Momento de encontro com Aquilo que somos! 

Satsang é sempre um momento de investigação. Satsang é esse despertar de uma visão não dual da vida, não separatista, de uma visão natural. A visão natural é aquela onde não há dois, onde não existe essa ilusão do “eu” e do mundo. Isso soa bastante estranho, a princípio, para aqueles que chegam a esses encontros, mas é exatamente assim. Nesses encontros, nós constatamos a realidade de uma só Presença – essa Presença que somos, que contém todas as aparições.

Isso significa a libertação do mundo. Não é a “sua” libertação do mundo, mas a pura libertação. É o mundo livre de você, dessa ilusão de ser alguém. É a libertação da ilusão de ser alguém presente no mundo. Quando essa ilusão cai, o mundo está livre. Da mesma forma, acontece essa liberação aí também, essa liberação dessa ilusão de alguém presente nessa “experiência mundo”. Essa realização da Verdade sobre si mesmo é a libertação do mundo. A ilusão de estar no mundo como uma entidade presente cria essa separatividade entre você e o mundo, e, nessa separatividade, está todo conflito, todo sofrimento, toda miséria. Todo problema humano está basicamente nessa ideia de ser alguém. 

Existe somente a Vida! A Vida é a única Realidade! Essa única Realidade é a Vida e não há nada o que temer! Quando o sentido de separação termina, só resta a Vida.

A ilusão de uma entidade presente no mundo desaparece quando o mundo desaparece, quando essa identidade desaparece. Então, o mundo está livre! É quando você está livre, mas esse Você não carrega mais o sentido de um “eu” presente nessa experiência corpo-mente-mundo. Não se preocupe se isso soa estranho para você, a princípio. Aos poucos, vai ficando claro, até mais do que intelectualmente. Intelectualmente, isso não tem qualquer importância.

O que estou dizendo é que há uma Paz presente, uma Liberdade presente quando não existe mais essa ilusão da separação. Nós temos que voltar a esse simples e natural Estado de Ser!

Você nasceu para ser livre! Ser livre significa não carregar mais o peso dessa separatividade, as implicações dessa separatividade. Isso é só uma ilusão, algo que pode ser investigado e constatado. Isso se apresenta junto a esse sentido de um “eu” presente na experiência corpo-mente-mundo, como temos colocado sempre nesses encontros. 

É nesse momento que a Vida se revela... É nesse instante que a Vida se revela, exatamente como Ela é, sem qualquer ilusão. Toda ilusão está nesse movimento caótico, perturbado, complexo, difícil, desorientado, de pura imaginação que é a mente egoica. Essa mente que todos conhecem, dentro da qual todos fomos educados para viver. Assim, todo nosso modo de nos aproximarmos da Vida é dentro desse movimento. Mas a Verdade está presente quando a mente não está. 

Estamos juntos nisso?

Esse trabalho requer uma profunda honestidade, uma extraordinária entrega, mas nem todos estão dispostos a isso. Ser honesto consigo mesmo é uma coisa muito rara. Quando você não pode, ou não tem essa disposição de ser honesto consigo mesmo, você não consegue ir além dessa ilusão entre você e o mundo, além da ilusão de você presente nessa experiência com o outro. Isso é só uma ilusão, mas se ela se mantém, o conflito se mantém: você com o mundo, você com outro... Então, o outro sempre parece ser a causa de sua infelicidade, o mundo sempre parece ser a causa de sua infelicidade, de todos os seus problemas, enquanto que, na verdade, todos os seus problemas estão nessa ilusão. Isso não está do lado de fora! Isso é algo presente nessa ilusão, nessa interpretação que o pensamento dá àquilo que se apresenta, a todo esse extraordinário e misterioso movimento da Vida como ela se mostra, da Vida como Ela é! Então, o seu problema é você, não é o outro, não é o mundo, não é a vida; é essa ilusão de ser esse “você” que você acredita ser. 

Soa estranho demais isso?

Não há problema no mundo! O outro não é o seu problema! A vida não é o problema! Você é o problema! Você é o problema do mundo, o problema do outro e o problema da vida. A vida sem você não vai chorar, não vai ter nenhum problema. O mundo sem você não vai chorar, não vai sentir nenhuma falta. O outro sem você está sempre em paz. O outro sem você não é uma entidade separada. Quando ele o encontra, ele se vê como uma entidade separada, aí ele tem problema; mas se ele não o encontra, ele está em paz! É assim o mundo também!

Reparem que isso é diferente das nossas crenças. Nas nossas crenças, está tudo errado no mundo, não há nada errado dentro de nós mesmos, só o que o mundo tem provocado. Então, o mundo é o culpado, a vida é a culpada, o outro é o culpado. Tudo isso é parte dessa inconsciência, é o modo como esse mecanismo está configurado, como essa máquina está configurada – essa máquina humana, esse assim chamado ser humano, esse outro que é “alguém” quando o encontra, esse “você” que é “alguém” quando encontra o outro (o outro, a vida ou o mundo), nessa ilusão de que há dois. 

A Meditação é essa libertação! A Meditação, aqui, é o fim da dualidade, o fim dessa separatividade. É estar além do sentido do “eu”, do outro e do mundo. Meditação não é uma prática, uma técnica. Meditação é o Estado Natural do Ser, desse Ser que Você é, de sua Natureza Real. Isso está além da mente egoica, da mente separatista; está além dessa configuração. Por isso, é preciso ir além de todo esse condicionamento. É preciso um novo modo de sentir, de pensar, de se relacionar, de ser, de viver. É preciso viver, ser, se relacionar como Consciência, plenamente desperta, fora da dualidade, fora do sentido de separatividade, fora dessa necessidade do mundo, do corpo, da mente, do outro e da vida. Se Isso está presente, só fica a Vida, e não você nela. Esse é o ponto!

Participante: Mestre, uma coisa é ficar tentando mudar a programação dessa máquina, outra coisa é saltar para fora da programação da máquina, ir além de todo esse condicionamento. Isso é impossível apenas ouvindo falas ou fazendo leituras. Obrigado por mostrar isso tão claramente!

Mestre: Não há como realizar isso apenas ouvindo essas falas, assistindo vídeos ou lendo livros sobre isso. É necessário um poder muito maior do que o intelecto, do que a habilidade de entender palavras. Isso não é como aprender história! Aprender história significa decorar, ou até saber colocar nas próprias palavras aquilo que aprendeu (e aqui, aprender no sentindo de ter conhecimento). A Verdade não é um conhecimento! Você não pode aprender isso, você não pode decorar isso! 

Aqui, o ponto é ir além do que UCEM diz, do que a Bíblia diz, do que qualquer livro sagrado diz. Citar UCEM ou citar a Bíblia dá no mesmo, ou seja, isso não significa nada, de fato. É apenas conhecimento apreendido. É necessário ir além disso!

Participante: Mestre, como abandonar essa percepção egoica e essa racionalidade exacerbada, que são frutos de nossa sociedade moderna?

Mestre: Indo além dessa sociedade, indo além dessa racionalidade, indo além desse modo como o intelecto faz a leitura daquilo que percebe. Isso é possível em Satsang, que significa o encontro com O que É, o encontro com essa Realidade. Não existe uma técnica. Existe um modo desse processo se realizar, mas não há uma técnica! Essa sua pergunta é respondida diretamente em Satsang presencial, e não com palavras. É respondida nesse contato direto, dentro desse Silêncio. Um trabalho simples, mas não fácil. Eu lhe recomendo Satsang presencial (a você e a todos nessa sala).

Vamos ficar por aqui! Valeu pelo encontro!

Namastê!

*Transcrito de uma fala a partir de um encontro online ocorrido na noite de 08 de Junho de 2016 - encontros todas as segundas, quartas e sextas às 22h baixe o Paltalk e participe!

terça-feira, 28 de junho de 2016

Como reconhecer o Guru real?




Quanto a essa questão, de “como reconhecer o Guru Real nesse mercado de gurus que cada dia aumenta mais”, não se preocupe com isso, não! Você vai se enganar, se quiser saber “quem é quem”. Você não vai se enganar, somente, se deixar Deus fazer isso por você. Se você for real, Deus jamais vai ser irreal para você. Se você for real, Deus é Real e Deus é Real quando você é real. Quando você é real, tudo está no lugar, tudo está aparecendo para você como tem que aparecer. É o que você precisa no momento. 

Quando Ramana apareceu, eu tinha tudo para rejeitá-lo... Toda minha formação intelectual e teológica era para rejeitar a presença de um Mestre que não fosse Jesus Cristo, e o pior, sem corpo, já morto. Um homem sem corpo, morto! Mas havia algo aqui que era autêntico. O desejo por Deus e pela liberação era autêntico, então, não podia ser uma ilusão ou algo vindo do mal, do demônio, do diabo. Se eu estava orando a Cristo e, naqueles dias, em jejum de 24 horas, como eu fazia naquela época, todo sábado, para encontrar Deus, não podia ser o diabo que estava aparecendo para mim, naquele momento.

Ou eu ficava com essa confiança na oração ou ficava com os pensamentos da teologia, que eu havia estudado durante tanto tempo, lendo a Bíblia e tinha escutado no seminário... Eu ficava com o que aquecia meu coração e me preenchia de um amor indizível e de um silêncio indescritível, ou ficava com os pensamentos em tumulto, em dúvida, em confusão, em medo, como: “É Cristo ou é o diabo?” ou “o que é isso que está acontecendo?”. Vinham, também, pensamentos como: ”Você está ficando louco”, “O que é isso? Isso é doideira”, ”Você está perdendo o juízo!”, “Você está... Você está...!” Ou eu ficava com estes pensamentos ou ficava aqui, nesse Espaço de indizível e indescritível silêncio e alegria, invadido por um amor que eu nunca havia sentido antes, por nada, por ninguém, por coisa alguma nesse mundo. 

Não se preocupe, não! Não se preocupe! Deus vai saber cuidar disso. Ele sempre soube cuidar de tudo.

O desafio... O grande desafio é que, com essa Presença, a “pessoa” morre e ela não quer morrer, não quer sair do controle. Um Mestre vivo é a última estação do metrô, é a última parada - desembarque obrigatório! Lá vem uma voz dizendo assim: “Senhores passageiros, chega de viajar! Estação Terminal!” E o medo de enfrentar o que está depois da porta, do lado de fora? "Será um mundo real? Será uma vida real? Será que ainda estarei vivo, ou morto, se eu sair por esta porta, que acabou de abrir, ouvindo essa voz que diz: 'Desembarque obrigatório!'?" Esse é o desafio! 

Diante da Verdade (que é o Guru Real) não vai haver escolha, você não quer escolha, se o que queimou aí, durante todo esse tempo, foi o fogo pela Verdade e se você não está brincando com essa coisa, se não está mentindo, não quer mais a mentira. Então, não se preocupe! Preocupe-se, não! Como falamos, agora há pouco, o sono aconteceu e sair do sono também só acontece. Ele cuida disso! Deixe tudo com Bhagavan. Ele dizia: "Bhagavan cuida!". Essa foi uma de suas promessas. Essa é a promessa de Bhagavan, é a promessa do Satguru.

Esse é um caminho que nem os loucos erram. Na Bíblia há um versículo assim: "Nem os loucos errarão o caminho!" Sem ego, aí, você não pode ver ego aqui. Lembra o exemplo do espelho? Quando olha para o espelho, você não vê o espelho, vê a si mesma (si mesmo). Então, o problema não está lá, o problema está aqui. 

A pergunta que eu faço para você é: Você pode confiar nisso? Você pode confiar em uma mente que está, há milênios, só contando historinhas e fazendo um mundo de histórias, dizendo que você é feio, que não merece, não vale nada, ou que você é um pecador, merecedor do inferno? Ou que está dizendo o oposto, que você é muito importante, é uma alma preciosa, é mais bonito do que todo mundo e mais merecedor, do que todos à sua volta, do melhor de todas as coisas? A pergunta é: Você pode confiar nesses sentimentos? Você pode confiar? Uma hora você está alegre, outra hora está triste; uma hora você está bem, outra hora está mal; uma hora você está amando, outra está odiando; uma hora você está tão seguro da verdade e outra hora está tão decepcionado, sentindo-se frustrado por acreditar que foi enganado. Dá para você confiar nas emoções? Dá para confiar nas sensações? Está calor ou está frio? Dá para confiar nessas conclusões acerca do que é e do que não é? Dá para confiar nesse movimento da mente? Hein? Dá para confiar nisso? Dá para confiar que está ou que não está? Que iluminou ou que não iluminou? Dá para confiar? Dá para confiar no que você diz, no que escreve ou no que outros lhe dizem, ou no que você lê do que outros escreveram? Dá para confiar? Dá para confiar em si mesma, em si mesmo? Dá para confiar? Ok! Então, despreocupe-se! Despreocupe-se! Relaxe! Isso não é assunto seu!

Quando eu falo de entrega, o ego fica assombrado (para não dizer assustado, fica assombrado), porque tudo o que ele quer é se manter no controle. Quando eu falo de entrega, falo exatamente isso que estou colocando para você: abandonar-se, lançar-se, soltar-se aos pés da Graça, de Deus... "Mas, aí, quando você usa a palavra Deus, do que você está falando, Mestre?"... "Oh, Guru, do que você está falando? Eu fico tão confortável quando você usa a palavra Deus, e, quando usa a palavra Consciência, fico um pouco, ainda. Quando usa a palavra Guru, me desconserta todo!"... "Oh, Guru, onde estão seus pés, para que eu me lance aos seus pés? Se me lançar aos seus pés, estarei me lançando aos pés de quem?".

Toda essa briga com palavras, que você tem aí, tem que cair, porque isso está, também, nesta autoconfiança, nessa ilusão de acreditar que sabe. Sabe nada! Se soubesse já tinha resolvido tudo. Se você soubesse alguma coisa sobre a verdade, já estaria livre, porque a Verdade não vem em partes; não é como as prestações das Casas Bahia, que você vai pagando até liquidar um dia. A verdade é como um bloco assim: oh... boom... Ele cai sobre você e o esmaga. Você não sabe o que é a Verdade, mas tem essa arrogância de acreditar que sabe: onde está e não está a verdade; onde está Deus e onde Ele não está; o que é verdadeiro, o que é falso, o que é real e o que não é real para si mesma. No entanto, você está como uma barata tonta.

Quando eu falo de entrega, estou falando dessa coisa de desistir... Desistir de confiar em si mesmo. Repare que isso é o oposto de tudo o que vocês aprenderam durante a vida inteira - a autoafirmação. Desistam de tudo o que vocês ouviram, já leram "sobre", aprenderam, no curso de autoajuda, em livro de autoajuda, em terapias, ajudas para se curarem (Do que? De quem? Que cura é essa? Quem pode ser curado? Quem pode ser salvo? Quem sabe?). Quem aí conhece a Verdade? Quando eu falo de entrega, estou falando de desistir disso tudo, de deixar que essa Consciência, essa Presença, esse Guru (dê qualquer nome para isso), cuide... Cuide do assunto... Cuide desse assunto. Ramana dizia: "Deixe com Bhagavan, que Bhagavan cuida!"

Treze de abril do ano de mil novecentos e cinquenta (13/04/1950), era uma manhã... O sol estava preenchendo toda aquela montanha, as nuvens de uma beleza extraordinária no céu azul, os pássaros cantando... Todos em volta de Ramana, naquela manhã, tremendamente preocupados com aquele quadro. Nas últimas noites, aquele que dormia com Bhagavan tinha comentado que seu corpo gemia sob aquela dor, debaixo daquela dor do câncer, daquela doença fatal. Todos estavam preocupados naquela manhã! Ele abre a boca, olhando para todos, com olhar indescritível, num profundo silêncio, numa completa desidentificação com o corpo, e diz para todos ali: "Por que vocês estão tão preocupados? Tudo estará bem amanhã! Amanhã tudo ficará bem!". 

O dia seguinte chega... Quatorze de abril, um dia de Presença indizível no Ashram, um Silêncio, uma Graça, um poder imperioso, banhando toda aquela montanha de Arunachala. O sol se põe naquele dia e, às 20h47min (naquele dia, 14 de abril de 1950, um minuto antes), o pavão faz aquele barulho comum, que todos os pavões fazem... Um deles faz aquele barulho, aquele som, uma mistura de cântico com um grito ensurdecedor. Ramana, que estava deitado, faz um esforço para se assentar (e alguns o ajudam naquele momento)... Ele ainda consegue se assentar, naquele 1 minuto antes (20h47min), e, depois daquele som do pavão, suas últimas palavras são: "Já deram comida para ele?". Ele repete, perguntando pela segunda vez: "Vocês já deram comida para ele?". Aquele Silêncio volta novamente e eles percebem, sentem, que é o momento de deixar o Mestre assentado. Naquele instante, tudo fica bem! Acontece sua última inspiração. 

Não se preocupem! O Guru sempre é real, se a devoção é real! Ele sempre é a Verdade, se você é a Verdade. Tudo termina ficando bem, muito bem, sempre bem!

*Trecho da fala de um encontro presencial no Ramanashram Gualberto na cidade de Campos do Jordão em Junho se 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A verdade além das palavras, definições e conceitos.




Aqui estamos em mais um momento, onde o que menos importa, como sempre temos colocado, são as palavras. Embora essas palavras estejam brotando desse Silêncio, nesse sentido elas têm alguma importância, mas apenas como resultado desse Silêncio. A mente se alimenta de palavras. O ego, cuja base está no conhecido, adora palavras, e o conhecimento é esta plataforma, aquilo que sustenta todo este movimento. A Verdade não é conhecimento, é somente a Verdade. Quando houver definição da Verdade, não estamos mais com a verdade, mas, sim, com conceitos, ideias e crenças sobre isso. 

Nesses encontros, como qualquer outro encontro, seja pelo Paltalk ou presencialmente, fazemos uso da fala, mas há algo maior que a fala, Aquilo que torna possível um trabalho real. Intelectualmente, palavras podem entreter, criar admiração e trazer, até, certa satisfação de prazer. Toda experiência sensorial é assim: ver cores é prazer para os olhos; o toque em objetos é prazer, ou dor, para o sentido do tato; ouvir sons pode ser prazeroso ou doloroso, pode ser prazer e dor. Algumas palavras podem trazer certo nível de prazer, de realização e preenchimento interno, mas são apenas palavras. A Verdade não tem nada a ver com palavras. 

Você pode passar realmente anos estudando, como você colocou agora que, durante anos, fez Gnose e perguntou se foi tudo inútil, contudo não podemos transformar teoria em prática, nesse campo da Realização. Teoria continua sendo apenas teoria. Em Satsang nós tratamos de uma outra coisa, que é a possibilidade do desaprender, o abandono de todas as crenças, teorias, ideias, práticas e de todos os conceitos. Em Satsang estamos tratando deste “Eu Sou” – o “Eu Sou” não conceitual, Aquilo que, também, não é uma ideia. Estamos falando desta Realidade fora das palavras e dos conceitos. 

Por alguns breves instantes, você pode ter um vislumbre Disso, quer você esteja numa prática de meditação ou fora dela. Porém, uma prática de meditação, ou qualquer outro método, não pode lhe trazer Isso de uma forma definitiva. O assentar desse Estado não vem por práticas, por técnicas, e o estudo intelectual sobre Isso é o que está mais longe, mais distante, ainda. Realização é o “fruto maduro” nessa “árvore”, quando a Consciência, que é essa Presença Real, assume o lugar dela. Então, essa Realização é o seu Estado Natural, mas Nela não tem você, é só a Realização. 

Todavia, o Estado Natural não é este “você”, que você acredita ser; é este Você, do qual você não sabe nada e jamais saberá alguma coisa, porque, quando esta Realização está, este você, que você acredita ser, não está. Isso é o resultado de um trabalho, não de uma prática, de uma técnica, de um método, de um sistema de estudo. Isso é a entrega desse sentido de separatividade, uma ação totalmente da Graça, desta mesma Presença, dessa mesma Consciência, dessa mesma Realidade - o trabalho é, totalmente, Dela. Nesse sentido, o Guru é fundamental, porque Ele não é uma entidade separada dessa Graça, dessa Presença, dessa Realidade. O Guru é esse fruto maduro, é a Presença da Graça, é a Graça na forma. Isso soa muito estranho para a mente dualista, em especial para a mente do ocidental, daquele nascido no Ocidente. 

A figura do padre, do pastor, do rabino, do sacerdote, do líder religioso é sempre uma figura de autoridade, de “alguém” separado, como um tutor, um professor, mas um Guru não é um professor, não é um tutor, não é uma entidade separada. Eu falo do Guru, do único Guru. O Guru é essa Presença, essa Consciência, que pode assumir uma forma humana, mas não é uma entidade separada. A ilusão da separatividade é uma ilusão mental. É a mente que cria a “figura separada” da autoridade, na figura do tutor, do professor, do Guru. 

Estamos falando de uma Presença interna, que é, simultaneamente, externa, que interpenetra tudo e todas as coisas. Não há separação entre você, em sua Real Natureza, e o Mestre, o Guru, a Presença, a Consciência, a Graça, a Verdade. O que eu falo para você, hoje, falo a partir dessa vivência aqui, do contato com Bhagavan, Sri Ramana Maharshi. Há algo presente nessa Presença... Há algo real, funcional e que faz acontecer todo esse trabalho. 

Só há Você! Você é o Guru! Você é o Mestre! Você é a Consciência! Não estou falando desses pensamentos, sentimentos, e dessas sensações que passam aí, pois isso só passa, mas não é você, em sua Natureza Real. Você é o mesmo Guru que se apresenta do lado de fora, pois quando o discípulo está pronto (que é o Guru interno pronto) o Mestre (que é o Guru externo) aparece, sem nenhuma separação. É pela Graça do Guru que este trabalho acontece. Hoje estou aqui compartilhando com vocês aquilo que esta Graça, a Graça do meu Guru, trouxe a este mecanismo chamado Marcos Gualberto: essa Liberação, a Consciência de que “Eu Sou”. Esse “Eu Sou” é “O que Ele é”, e “O que Ele é” é o que Você é, que é Aquilo que eu sou. 

Todo sentido de separação, de separatividade se dissolveu, entrou em colapso. Não há mais conflito e não há mais medo; não há mais a ilusão de alguém na experiência do mundo, e de um mundo separado de alguém. Você nasceu para realizar Isso, essa não separação entre você, Deus e o mundo. Essa não separação é a consciência dessa Consciência, é a Consciência dessa Realidade, é a ciência dessa Presença. 

Sua Natureza Real é Amor, é Paz, é Verdade, é Silêncio, é Consciência, é Deus. Isso não é conceitual, não é verbal e não é uma crença. O momento para você é o de abandonar todas as crenças, todos os conceitos e teorias sobre isso. O convite a Satsang presencial é o convite a um trabalho real nessa direção, para se abandonar todos os conceitos, teorias, falas que geralmente se escuta, além de todos os livros e palavras. Chega um momento na sua vida que você percebe que não pode continuar com as crenças, teorias, e com os conceitos. Existem milhares e milhares de técnicas e trabalhos, todos prometendo uma certa harmonização, pacificação da mente, e um certo silêncio e equilíbrio. Não é disso que tratamos em Satsang. Estamos falando do fim do sentido de separação, do despertar da sabedoria, dessa Realização, dessa completude de sua real natureza. 

Essa fala nesse encontro, nesse espaço, não serve para isso, pois é somente mais um conjunto de palavras sendo colocadas, como um alerta da não necessidade de palavras. Isso é como um toque de uma trombeta, em que você escuta a trombeta e toma uma determinada ação, não ficando agarrado ao seu toque. O propósito do toque da trombeta é movê-lo para uma determinada ação. Então, o "toque da trombeta", que é essa fala aqui sendo colocada, é para você ir além dela. Isso só é possível em Satsang presencial diante de um Mestre vivo, daquele que não vive mais nesse sentido de separatividade. 

Um Mestre apareceu em minha vida no ano de 1986. De 1986 ao ano de 2007 um trabalho aconteceu aqui, período em que houve entradas e saídas nesse Estado de Silêncio, porém isso não foi um assentar, a finalização deste trabalho, nesse organismo, no mecanismo, na "máquina", isto só aconteceu no ano de 2007, naquela noite de junho de 2007. Durante estes anos um trabalho acontecia aqui, aconteceu aqui neste mecanismo, nesta máquina, tudo por sua Graça, em um contato muito direto. Eu não encontro palavras para explicar isso, não há palavras para explicar isso. 

Não há como realizar Isto sem esta Graça, sem o poder desta Presença, a Graça de Sri Ramana Maharshi, o sábio de Arunachala, jay, jay, jay Gurudeva, por sua divina e inexplicável compaixão. Somente no olhar de Deus é possível ver Deus. Só pelo olhar de Deus é possível ter o olhar de Deus, aquilo que na Índia eles chamam de Darshan, o olhar do Guru. O olhar de Deus é esse olhar do Guru, da Presença, da Graça, e a Graça em seu olhar. É a compaixão do Guru, esse amor de sua Presença divina que faz florescer o coração do devoto, para o próprio reconhecimento de que não há separação entre ele e o Guru. 

Esta noite, neste encontro, temos este momento de Graça, de Silêncio, de Presença, mas as palavras não podem comunicar isso. A realidade é que essa Presença continua viva. Na noite de 14 de abril de 1950, meu Guru deixou a forma. Nisargaddata morreu de câncer; Ramana Maharshi, também, morreu de câncer, e Jesus, na cruz. Contudo essa Presença não é a forma, não está no tempo da morte, mas além do nome e da forma; não é indiana, judia ou brasileira. Essa Presença é essa Consciência. Esse é o real Guru, aquele que está além do corpo, além de uma doença terminal, que só termina com o corpo.
 
É isso...

*transcrito a partir um encontro online transmitido na noite de 30 de Maio de 2016
Encontros online todas às segundas, quartas e sextas às 22h 
Para participar é só baixar o aplicativo Paltalk no seu computador ou dispositivo móvel. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Toda ideia que você faz do mundo é só uma ideia



É maravilhoso estarmos juntos de novo, com o nosso coração voltado para isso, para aquilo que realmente importa, para a única coisa certa, a única realidade, que é essa percepção. Os objetos aparecem nessa percepção; a mente é um objeto aparecendo nessa percepção, assim como o corpo e o mundo. Tudo é conhecido, presenciado nessa percepção. De fato, o único conhecimento que temos acerca do mundo, da mente e do corpo está nessa percepção. A nossa experiência de vigília, de sono profundo e de sonho está nesta percepção – que é a percepção da realidade. Esta percepção da realidade é a Consciência – algo que não está no tempo. O tempo é a noção do movimento que acontece na mente, no corpo, e como uma experiência do mundo, todo e qualquer movimento do mundo traz a noção do tempo. 

Em Satsang, o nosso interesse real é nessa Consciência, é nessa Presença, é nesta percepção. Essa percepção é não dual, não conhece separação entre sujeito e objeto, entre pensador e pensamento, entre aquilo que vê e aquilo que é visto; esta percepção não conhece conflito, não conhece uma entidade presente na mente, no corpo e no mundo. Nós estamos, em Satsang, ouvindo acerca disso, mas é necessário ir além desse ouvir. É necessário se tornar ciente desta percepção não dual. 

Os objetos são todos aparentes, mas não estamos lidando com o corpo ou com a mente como com um objeto, ou com a experiência do mundo como a experiência com um objeto. Aí está todo o problema: estamos lidando com o corpo e com a mente como se fosse aquilo que somos, como se a experiência do mundo fosse a experiência da Vida Real. Nosso real conhecimento é essa percepção, e nessa percepção não há ilusão –  esta ilusão “eu sou o corpo”, “eu sou a mente” e “eu estou no mundo”. 

Esta percepção é aquilo que é íntimo, que é próximo, que é real. Apenas essa percepção é Liberdade, é Verdade, é Felicidade, é Amor, é Paz; é quando você não se confunde mais com os objetos, sejam eles o corpo, a mente ou o mundo. Nosso trabalho, juntos, aqui em Satsang, é nos tornarmos cientes disso, cientes dessa percepção que é a Única Realidade. 

Todos acompanham isso?

Toda ideia que você faz do mundo é só uma ideia. Toda ideia que você faz do corpo como sendo você é só uma ideia. Toda ideia que você tem sobre o movimento mental, é também só uma ideia, é só uma crença, são só objetos. Se você continuar se confundindo com objetos, você irá continuar mantendo essa vida pessoal, ilusória, separada do Todo – essa é a miséria humana. 

Os objetos sofrem mudanças, são afetados por mudanças. Tudo que tem nome e forma é afetado por mudanças, e aquilo que é afetado por mudanças não pode ser real, não é imutável. Esta percepção da qual estamos falando – que é essa Consciência, esta Presença –não é afetada por mudanças! Isto não muda nunca, nunca mudou. Essa percepção já estava aí quando você era criança, estava aí quando se tornou adolescente, jovem, adulto; você já é até avô e ela continua aí... é a mesma percepção!

A mente, como um objeto, sofreu mudanças: memórias desapareceram, outras memórias estão aparecendo, antigas e novas lembranças... são mudanças na mente. O corpo também sofreu mudanças, e o mundo mudou nesses últimos 20, 30, 40, 50, 60 anos! Tudo sofre mudanças, tudo aquilo que tem nome e forma é afetado por mudanças! Mas há uma percepção aí presente, uma Consciência aí presente que não mudou. 

Você está aqui para assumir essa Verdade – a Verdade sobre si mesmo. A Verdade é esse despertar, é sair dessa inconsciência, desse estado de sono, de sonho, de grande confusão, para o seu Estado Natural de pura percepção da realidade; significa se mover neste mundo, neste corpo e nessa mente livre da ilusão de estar no corpo, na mente  e no mundo. O corpo, a mente e o mundo são experiências de objetos nessa percepção que é Você! Você é imutável, e se isto é assumido, é reconhecido, é constatado, não há mais morte, não há mais a ilusão de ter nascido para morrer.

Repare que o mundo aparece quando o corpo aparece. O corpo aparece pela manhã, deitada na cama, e então, aparecem as paredes do quarto, o teto e o piso; primeiramente, o corpo aparece e, depois, o mundo, nessa sequência. Isso que aparece são objetos, enquanto que essa percepção permanece; mesmo quando nenhum objeto aparece, mesmo em sono profundo, quando não há nenhum objeto, nem o corpo, nem a mente e nem o mundo, há algo que permanece, que se mantém. Este algo que se mantém é o que torna possível o mundo aparecer novamente. De um dia para o outro o mundo aparece. Vem o dia, vem a noite e vem um novo dia... Os dias estão mudando e essa percepção está vendo essa mudança, tornando essa mudança possível. 

É isso mesmo? 

Você pode ir além dessa ilusão da experiência pessoal, que é a crença de uma pessoa se firmando dentro de uma história, se declarando viva – viva, é claro, para morrer; viva, é claro, mas cheia de problemas pessoais. Isso é uma ilusão! Não há problemas, não há pessoa, não há alguém nisso tudo. É só a mente mudando de estados: sentimentos, emoções, pensamentos, tudo está mudando, variando. É só o corpo mudando de estados: bem- estar, mal-estar, saudável, doente, prazer, dor... É só o corpo mudando de estados, é só o mundo mudando com os acontecimentos. Nem alguém no corpo, nem alguém na mente, nem alguém no mundo. Essa Consciência que é essa percepção – ou essa percepção que é essa Consciência – não muda, observa esses estados mudando. 

Iluminação basicamente é isso: não mais se perturbar com mudanças; não mais se afligir com mudanças, não mais se confundir com essa ilusão de alguém presente, com raiva, com ódio, com inimigos, com amigos, com gostar ou não gostar; não mais se confundir com essa ilusão da autoimagem, da imagem que se tem de si mesmo, que se sente magoada, ferida, ofendida, preocupada, querendo matar, com ódio, enfim... todos esses sentimentos. Algo acalentado com muito apreço, com muito cuidado no ego, dando vida a essa ilusão da pessoa na experiência de suas relações com outros, consigo mesmo, com o mundo. 

Estou falando grego ou isso está claro? 

Facilmente nos ofendemos, nos magoamos, nos ferimos e nos deixamos ferir, nos sentimos importantes ou sem nenhuma importância; estamos sempre criando imagens a respeito de nós mesmos, a respeito do mundo ou do que nos parece acontecer, quando na verdade está acontecendo a este corpo, a esta mente, a este mundo. 

Participante: Quando eu tento encontrar minha real natureza, encontro apenas a minha identificação mental, grosseira ou sutil. Como ir além disso?

Mestre Gualberto: A pergunta é: quem está empenhado nisso, nessa tentativa de encontrar? Você não encontra o que você É. Se você procurar o que você É, tudo o que vai encontrar é aquilo que você acredita ser: a agitação mental, grosseira ou sutil, ansiedade, preocupação, medo, e assim por diante. Você não encontra o que você É, você se desidentifica do que você acredita ser, se desidentifica de todas as crenças que tem sobre si mesmo, de todas as ideias que você faz de si mesmo, de todo e qualquer sentimento, pensamento, emoção. Quando isso é descartado, sua Real Natureza se mostra. Ela sempre esteve aí, nunca esteve oculta, mas paradoxalmente, ela nunca se apresenta enquanto a ilusão está aí. A questão é se desidentificar dessa ilusão acerca de quem de fato você é. A própria ilusão de quem de fato você é tem que ser descartada, assim como essa ilusão acerca de quem você acredita que é, porque tudo isso são apenas crenças. Você não vai construir essa realização, você vai constatar a Presença dela. A expressão “despertar” é despertar da ilusão de que há alguém dormindo em estado de sonho, de que há alguém na experiência corpo, mente e mundo. 

Participante: Parece que tento me esvaziar do conteúdo, mas sempre há ainda um conteúdo. 

Mestre Gualberto: A questão continua sendo a mesma. Quem é este que tenta se esvaziar? A ilusão é que existe alguém real aí, e este alguém real aí pode se esvaziar deste alguém ilusório que está aí... Tudo isso são crenças. Essa Realidade – que é essa Presença, que é essa Consciência, que é essa percepção da qual estamos falando – floresce por si mesmo e é expressão da própria Graça, da própria Presença Divina. Isto não é um trabalho seu. O paradoxo é que tudo isso é você que se dispõe a constatar, a perceber, a aprender, a compreender, nenhum outro pode fazer isso no seu lugar. É um trabalho seu, mas não é um trabalho seu! É um trabalho dessa Presença, dessa Graça, e você pode atrasar muito isto. Se você tiver a felicidade de se deparar com um mestre vivo, Ele em sua Graça, Ele que é essa Consciência, que é essa percepção, que é essa realidade de sua Real Natureza, dessa sua verdadeira natureza, cuidará disso. 

O trabalho que é de Deus você não pode fazer, o trabalho que é do Guru você não pode fazer. Mas o trabalho que é seu o Mestre não irá fazer, Deus não irá fazer, o Guru não irá fazer. Vocês estão nessa sala, diante dessa fala, neste momento, diante deste Silêncio, desta Presença porque este é o seu momento de ir além dessa ilusão. Se vocês pudessem resolver isso sozinhos já teriam resolvido, não estariam nessa sala.

Deus é a única e real necessidade e Ele é essa Presença, essa Consciência, essa Graça. Não há nenhuma diferença ou separação entre o Guru interno e o Guru externo. Há somente essa única Consciência, que é essa Presença, essa Graça que trouxe você a esta sala, a este momento chamado Satsang. Agora, a questão é desistir, é se render! Sua oração o trouxe até aqui; seu anseio, seu anelo pela Verdade o trouxe até aqui. Mas quem, na realidade, o trouxe até aqui foi essa Graça, foi essa Presença. Ela que cuida desta percepção, ela que desfaz essa ilusão de “corpo-mente-mundo”, essa ilusão de “eu e não-eu”. Ela que desfaz essa ilusão dessa suposta entidade presente, com seus desejos, medos, sentimentos negativos ou positivos, e assim por diante. 

Você está aqui para realizar Deus, a Verdade sobre si mesmo. Todo o meu interesse é compartilhar isso nesses encontros; é criar para você uma facilitação, lhe mostrando essa tremenda resistência, essa tremenda arrogância, essa tremenda ilusão que a mente egoica carrega, mantendo você nessa prisão, nessa suposta entidade, nessa ilusão do eu. 

Basta por hoje. Vamos ficar por aqui. Namastê! Se programem para estar conosco em encontros presenciais. 

*Transcrito a partir de um encontro online ocorrido na noite de 10 de Junho de 2016 - 
Encontros todas às segundas, quartas e sextas às 22 - Baixe o Paltalk e participe!

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