terça-feira, 29 de março de 2016

Sua Imutável Realidade




Seu único trabalho, aqui, é não valorizar, não dar importância ou credibilidade a qualquer aparição temporária. Como um exemplo muito próximo de nós de uma aparição temporária é esse movimento dos pensamentos que passam por aí: eles aparecem e desaparecem, vêm e voltam.

Falem-me de algo que não seja um pensamento? Coloquem-me alguma coisa que não seja uma expressão temporária do pensamento? Todo e qualquer pensamento é só um pensamento que, como uma aparição, vai desaparecer. Qualquer sensação, impressão ou emoção também são só aparições. Assim são também os desejos e os medos: aparições! Mas há um ponto em você além das aparições.

Quando as pessoas vêm a mim e trazem um problema, eu sempre digo para elas: “Vai passar!" Se vai passar, então não é esse ponto do qual estou falando.

Há um ponto aí, em você, que deve lhe interessar, e pelo qual eu quero que você se interesse. Esse ponto é algo imutável: quando você era criança, ele estava aí; você se tornou adolescente, e ele estava aí; quando se tornou jovem, ele ainda estava aí; você se tornou adulto e, agora, com mais idade, ele continua aí. Lá no berço ele estava aí e estará aí até o momento fora de todos os momentos. Antes de nascer ele estava aí e, após a morte também estará aí. Esse ponto é Você em sua Natureza Real. Qualquer outra coisa vai passar. Qualquer outra coisa não tem uma marca de atemporalidade, ou seja, tem a marca do tempo, e o tempo é só esse movimento passando, essa impressão desse algo que passa.

Há algo por detrás do sentir que é anterior ao sentir e continuará posterior ao sentir. Há algo anterior ao pensamento que se mantém imutável durante o pensamento e permanecerá depois do pensamento. Coloque seu interesse Nisso e despreze tudo o mais. Tudo o mais não é assunto seu, mas, sim, é o movimento de Deus no seu sonho de aparições. Deus aparece em forma e, nessa forma, Ele desaparece. Deus sonha e os seus sonhos são os pensamentos, as sensações, as emoções, as formas, enquanto Você permanece Imutável.

Se Você é esse ponto anterior ao corpo e anterior à mente, às sensações, aos pensamentos, às emoções, o que Você É? Não é o que você pensa, sente, percebe, imagina, acredita ou desacredita...

Como esse pequeno besouro que entrou na sala hoje: ele chegou, deu um passeio, mas terá que encontrar a saída. A sua história é algo assim, como esse besouro, sem importância, entrando nesse espaço que é intocável, imutável e atemporal; é só um passeio que ele fez por esse espaço e já foi embora. Se ele não entra mais nessa sala, ele está livre. Se ele volta a entrar nessa sala e começa a rodar de novo, as paredes são restrições para ele, assim como o teto e o piso. O espaço dentro é o mesmo espaço fora. No entanto, o espaço fora é a liberdade; e o espaço dentro também é, embora o besouro não saiba que o seu movimento é restrito pelo piso, paredes e teto. Assim é você quando se identifica com pensamentos, sensações, corpo, mente, com a sua história. Se você não se identifica com isso, o espaço dentro é o mesmo espaço fora; não existe nenhuma diferença, porque não existem mais paredes, nem piso, nem teto. Isso se chama Liberação, Realização.

Então, seu trabalho é não se confundir com a experiência da sala. Não seja um besouro! Permaneça com aquilo que você estiver sentindo aí. Do jeito que veio, vai, pois é só uma aparição, e você permanece com isso nesse lugar fora do corpo, além do corpo. Seu trabalho aqui é permanecer nesse Espaço, que não é o espaço dentro e nem o espaço fora, que é só o espaço atemporal, que eu chamo sempre de Consciência, Presença, Ser, Pura Realidade, Puro Amor, Pura Beleza, Pura Graça.

Não valorize nenhuma experiência, absolutamente, nenhuma experiência. Não valorize o medo, o desejo, a confiança ou a desconfiança, a crença ou a descrença, o sentir, o pensar, o corpo, a mente... Dê ao corpo o que ele pede e dê à mente só a liberdade de seu movimento, sem se identificar com o mesmo. Não se identifique com a mente! Dê a ela apenas isso: a liberdade de não se identificar com o que ela apresenta. Se vierem os pensamentos, não se identifique com isso. Quando você não se identifica com isso, você permanece como esse Espaço de pura Liberdade.

Você não precisa ter novamente a experiência de entrar na sala e continuar batendo com a cabeça no piso, no teto, nas paredes, até encontrar a saída de novo. Se você valorizar a experiência, você continuará ainda nesse círculo que os budistas chamam de Samsara – a roda do experimentador. O desejo de experimentar mantém você preso a isso. Então, não valorize o desejo... nem o desejo por comida, nem o desejo por bebida, ou por maconha ou cocaína; nem o desejo por sexo ou por banho de mar! Não valorize a experiência, não valorize o desejo. Se você continuar valorizando o desejo, aí estará “você”, dentro da sala, como um besouro tonto, tentando encontrar a saída. E esse “você” é uma ilusão, é algo que entrou na sala, apareceu na experiência, apareceu no cenário como experimentador, e agora quer se livrar dessa experiência. Enquanto isso está acontecendo, o sofrimento está acontecendo, o conflito está acontecendo.

Ficou claro isso?

Então, quem aí é mãe, é avó, é pai, é filho? Quem aí é homem, é mulher? Quem é que necessita do quê? É incrível! Vocês tem tanto a dizer, tem tantas histórias de uns para os outros, mas quando chegam aqui, não têm perguntas ou colocações para investigar algo que trazem aí.

Você está como este besouro tonto, e eu estou apontando a saída para você. Mas você continua insistindo em bater na parede, na vidraça da janela, só porque parece que tem uma luz lá fora. Você se depara com o vidro de novo, de novo, de novo… Tudo que vocês fizeram até hoje foi ver a vidraça da janela, ver como a luz se mostra do lado de fora. Mas era só vidraça mesmo, não tinha luz nenhuma. A luz está na Liberdade, no Espaço, e esse Espaço não está fora, está aí dentro. É só uma questão de se desidentificar desse experimentador que busca a experiência.


*Transcrito a partir de uma fala ocorrida no dia 11 de outubro de 2015 na 
ocasião da abertura do Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão - SP
 

segunda-feira, 28 de março de 2016

A compreensão direta


A partir da compreensão direta, real desta Verdade - ou seja, se você entrar diretamente nessa substância real, nesse substrato, nessa base de todo conhecimento, de toda e qualquer experiência, sem exceção - você vai encontrar uma única coisa aí presente, que é essa Consciência. Essa Consciência é o que nós somos, essa é a única substância. Não existe nada fora Isso, não existe nada mais. Essa substância é essa Consciência que é Felicidade. 

Não é possível a Felicidade separada desta realidade que é essa Consciência. Portanto, não é possível a Felicidade em algo do lado de fora: em bens materiais, em propriedades, em realizações profissionais e, muito menos, em relacionamentos. 

Eu lhe convido a Ser, a assumir o que Você É: Pura Consciência. 

Esses encontros em Satsang são encontros para essa averiguação, investigação, imersão e constatação dessa que Consciência é Felicidade. Essa Felicidade é Amor, e esse Amor não vem de fora - ele é a natureza do Ser, de Deus, da Verdade.

Isso não pode ser uma coisa abstrata como mais uma teoria, mais um conceito, mais uma crença. Essa Consciência é aquilo que interpenetra de fora para dentro, de dentro para fora; é a substância, é a Verdade dessa manifestação. 

Não é o mundo e essa Consciência, não é o mecanismo mente-corpo e essa Consciência, não é o "pensamento, sensação, emoção, ação, prazer e dor, alegria e tristeza, bem e mal" e essa Consciência. Estou dizendo que essa Consciência é a realidade única de todas essas aparições. Acima de tudo, dentro de tudo, em tudo, sob tudo, aí está Ela. Aquilo que há de mais íntimo - não importa se é a dor, se é o mais terrível sofrimento - aí está esse Amor que é essa Consciência. É só na superfície, na periferia, na aparência e na forma que isso nos parece como dor e sofrimento. 

Se nós deixamos a resistência, se abandonamos essa reatividade, se não nos confundimos com essa aparição, então, permanecemos nesta Consciência, além de nomes e formas; permanecemos em nosso Ser, em nossa natureza Divina que é Amor. E assim, não é possível ser afetado. Viver nessa afetação é estar se identificando com nomes, formas e aparências no modo como aquilo que está mudando se apresenta.
*Fala transcrita a partir de um encontro via Paltak na noite do dia 23 de Março de 2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

O seu Estado Real e a vigília, sonho e sono profundo.



A boa notícia sobre isso é que o corpo também é uma aparição, assim como os pensamentos são aparições. Uma aparição com a qual você se identifica, se prende, se agarra para poder existir em um mundo específico, seja no mundo de vigília, seja no mundo do sonho.

Na Índia, eles têm uma expressão: Samadhi ou Samadhí. É você em seu Estado Natural, onde o corpo é uma aparição, assim como a mente é uma aparição, assim como o mundo é uma aparição – tanto o mundo vigil como o mundo onírico. Mas isso não muda nada, não muda o que você É. Eles chamam de Samadhi! Samadhi como seu Estado Natural. No yoga, há várias classificações de Samadhi, mas aqui, eu estou falando desse Samadhi como esse Estado Natural: jamais se confundir, jamais se perder, jamais se identificar com a pessoa.

Ok, o corpo está presente. Ok, pensamentos podem aparecer. Ok, você é prático em lidar com assuntos do dia-a-dia: levantar cedo, ir ao banheiro, se preparar e sair; se aprontar, se arrumar, ir para o escritório, para o trabalho; ou cuidar de alguma outra tarefa ou atividade, mas não mais se confundir com a experiência, sendo "alguém" dentro dela. É quando você se confunde com a experiência, é quando você torna a experiência algo para si mesma, para si mesmo, que então, você diz: "minha vida".

Para o sábio, você não está nem acordado nem dormindo e nem sonhando. Para o sábio, você está em seu Estado Natural, você não está triste nem alegre, não está feliz ou infeliz, não está vivo nem está morto, não é rico nem pobre, nem sábio, nem tolo. Para o sábio, você apenas se confunde com estados mentais, crenças...

Você, em seu Ser, é esse Silêncio, é essa Verdade, é essa Presença. Em sua mente, você está feliz ou infeliz, você está no tempo e no corpo, você tem problemas. Mas, na verdade, isso não é real. A verdade é que não há nenhuma verdade no pensamento.

Quando você escreve para mim e diz que passou por uma cirurgia, eu digo o corpo está operado, mas Você não!

Em seu sonho, tudo é tão assustador quanto em seu estado de vigília. Mas o seu sonho e seu estado de vigília aparecem para você como aparecem para "alguém", esse "alguém" que você acredita ser.

No mundo do sonho e no mundo vigil há problemas. No entanto, há um elemento presente presenciando essas aparições. Se você permanece aí, nessa testemunha, além do que pode ser testemunhado e além da própria testemunha – que é esse elemento – todo o sofrimento termina. Termina com o final dessa ilusão de estar aí, nessa ilusão de ver a vida acontecendo para “alguém”. Não é para "alguém"!

Você acha que esses pássaros cantam para alguém ouvir? Eles não tomam nenhum conhecimento sobre você. Eles cantam! Mas isso não está acontecendo para você! Isso só está acontecendo! Assim, a Vida não está acontecendo para você! A Vida é esse Silêncio, é essa Presença, é essa Consciência! E esse corpo, com o qual você se confunde, não tem nenhuma relevância. Para a Vida, é só um acontecimento Nela. Para esse sentido de ser alguém, aí dentro da cabeça – que é só uma crença – isso sim, é muito importante. Mas essa é a ilusão de ser alguém.

Quando você se depara com Satsang, quando você se depara com esse encontro com o que É, com esse encontro com a Verdade, você está começando a ver a ilusão disso tudo, a perceber a ilusão disso tudo. A ilusão de que tem alguém aí vivendo, acordado, agora, que sonhou nessa última noite, e que também teve momento de sono profundo nessa última noite.

A realidade de um mundo presente do lado de fora dessas janelas, de um carro que trouxe você até esse espaço, de um "você" aí dentro do corpo, de um "você" aí que está saudável ou doente, triste ou alegre, feliz ou infeliz, que é casado, que é solteiro, que é avó, avô, pai, mãe, filha...

Isso são histórias do pensamento... Só histórias... A "sua vida": só histórias...

*transcrito a partir de um encontro ocorrido em Janeiro de 2016 no Ramanashram Gualberto na cidade de Campos do Jordão
 

sexta-feira, 18 de março de 2016

A experiência mente-corpo e o Estado Natural



A Vida é essa realidade agora, aqui, nesse instante. Ela tem esse dinamismo de estar acontecendo independente de você. Ela não acontece para você. Ela simplesmente acontece como acontece, e não considera você como uma presença dentro Dela.

Deixe-me fazer algumas colocações aqui para você.

À noite, durante o sono, quando acontece o sonho, você jamais questiona que a existência da sua vida seja real, que essa sua vida do sonho seja real. No entanto, quando você acorda pela manhã, percebe que era apenas à noite, e durante a noite, o sono, e durante o sono, o sonho. E, nesse sonho, havia uma experiência semelhante à essa experiência que estamos tendo agora, aqui – essa experiência de vida que você tem nesse estado de vigília, onde você é alguém e considera a vida acontecendo para você. Da mesma forma que, durante o sonho, você nunca questiona se aquilo é real ou não, você também não questiona se aqui, no estado de vigília, isso é real ou não.

Então, é importante que você veja isso. É importante que você questione agora, aqui – coisa que você não faz durante o sonho – a verdade dessa experiência, onde você caminha, fala, se relaciona, compra, vende, onde essa sua vida "real" está acontecendo.

Eu só nego uma coisa: estou negando você como sendo real, estou questionando você como sendo real, estou duvidando de você como sendo real nessa experiência pessoal, agora, aqui, nesse estado acordado, nesse estado de vigília.

Pela manhã, quando você acorda, percebe que não havia alguém real em seu sonho e que nesse sonho, apesar de parecer real enquanto acontecia, você não estava lá.

Nós estamos dando realidade a um "eu" dentro desse estado acordado, de vigília, aqui, agora. E estamos também, enquanto sonhamos, dando realidade a um "eu" durante o estado de sonho.

Quando você acorda pela manhã, percebe que a mente produziu o seu mundo sonhado. Mas, agora, aqui, nesse momento, você não questiona esse mundo, a verdade desse mundo, para um "eu" que experimenta esse mundo. Por não fazer isso, você está em conflito com este mundo, assim como, no sonho, você também está em conflito com o mundo do sonho.

A Verdade diz! E Ela diz sendo percebida como Ela É. Não como um teoria, não como uma crença, não como uma ideologia... Ela diz que esse estado acordado, aqui, agora, no qual você é uma pessoa numa relação direta com o mundo, não tem nenhuma realidade.

A Consciência do que Você É – e não disso que você acredita ser – é a Verdade clara, é a Verdade incontestável. Essa tem sido a experiência única de todos os sábios: constatar que o seu sonho, assim como o seu estado de vigília, não é seu, para uma entidade aí presente. Isto é a Liberação!

Diante disso, Você em seu Ser, em sua Natureza Verdadeira, se depara com a única Realidade que é esse Silêncio, essa Presença, essa Consciência. Isso está além do estado de sono profundo, do estado de sonho e do estado de vigília. Isso é algo Real!

Nessa constatação real, toda experiência acontecendo, seja em sonho, seja no estado de vigília, continua acontecendo sem alguém dentro disso, o que significa o fim do seu mundo, nesse fim do seu "eu".

A ideia de ser alguém cria o mundo para esse “alguém”.

O que eu estou dizendo é que toda a sua experiência de vida pessoal é imaginária: seus inimigos são imaginários, seus amigos são imaginários, seus amores são imaginários, seus detratores são imaginários, seus adversários são imaginários! Assim é a sua culpa, assim é o seu senso de responsabilidade: está tudo em cima desse sentido de ser alguém, agora, aqui, nessa experiência de vigília.

Então, o ego presente no sonho ou no estado de vigília, curiosamente, não aparece no sono profundo, curiosamente, também não aparece no desmaio, curiosamente, também não aparece em alguns breves momentos, quando o relaxamento é profundo – diante do impacto de um panorama, ou de um momento como um pôr do sol, ou um momento de nascer do sol, ou assentado em um banco de praça vendo algumas crianças brincando, ou assentado sobre uma rocha olhando, na linha do horizonte, o sol surgindo ou se escondendo no mar...

No sono profundo, no desmaio ou em momentos como esses – nesse relaxar, quando a mente é varrida, jogada para fora de sua posição comum – há um completo esvaziamento de todo o sentido de alguém naquela dada experiência. E nesse completo esvaziamento, aquilo que aparece no estado de sonho, que aparece no estado de vigília, com esse sentido de alguém, ali não está!

Então, a experiência de ser pessoal é algo que vem e vai. É algo que flutua. Enquanto que essa ausência, esse vazio, esse silêncio, essa quietude desse poder de Consciência – uma Consciência livre de um "eu" pessoal nessa experiência – é algo que está presente sempre. Presente como esse Silêncio está presente quando você não mais se perde com identificações da mente, quando você não mais se perde como uma pessoa se identificando com pensamentos.

A sua Natureza Real não é pessoal. A pessoa não tem verdade nesse silêncio, que é essa Consciência que Você É. Esse estado de vigília, no qual uma pessoa está presente, não é real. Esse estado de sonho, no qual uma pessoa está presente, não é real. Esse estado de sono profundo, no qual a pessoa está ausente, não é real.

A única realidade é essa Presença, que é esse Silêncio no qual esses estados aparecem e desaparecem!

*Transcrito de um encontro ocorrido no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão no mês de Janeiro de 2016

terça-feira, 15 de março de 2016

Por que pessoas são tão carentes, tão dependentes?





Nós temos que ver isso: o que significa toda essa dependência que nós temos? Por que ela está presente? Somos tremendamente dependentes! Nós dependemos dos “outros”. Há somente um nível onde a relação é importante: é o nível comum, natural, do relacionamento físico, com coisas e pessoas. Para mim, aqui, “pessoas” coloco como sinônimo de seres humanos, corpo-mente, algo livre dessa “estrutura psicológica”. Isto porque essa “estrutura psicológica” é a verdadeira causa de toda confusão em nossa vida e da desordem criada por essa mesma dependência que temos. Então, carregamos muita dependência, de coisas e de pessoas. 

Essa dependência, toda ela, está na base desta estrutura psicológica, algo puramente mental, e é exatamente neste nível que nós não precisamos viver dessa forma. Há um novo modo, uma nova maneira, de viver, algo que só é possível quando estamos livres de toda forma de dependência, seja de coisas, situações, lugares, pessoas; tudo isso no nível psicológico, não físico. No nível físico, isso tem certo lugar, certa importância, algo muito razoável, mas eu falo da dependência psicológica, mental. 

Essa tem sido a nossa vida. Há algo que nós sempre temos falado aqui: é sobre a importância de ficar “só”. E aqui, quando falamos em ficar só, reiteradamente, temos dito “ficar só” psicologicamente, não fisicamente. As relações são importantes, mas qualquer relação no nível da mente, dessa estrutura, sempre é carregada de conflito; é algo muito oneroso, pesado, difícil. É assim que temos levado nossas vidas, todos nós. Então, o que temos que nos perguntar é isso: que lugar essas nossas relações têm? Que valor elas têm, senão o valor do conflito, da confusão, do medo, da inveja, dos ciúmes, da posse, ou seja, algo que produz muita miséria, muito sofrimento.

Então, nós temos que explorar tudo isso, olhar muito, muitas vezes, para isso. Quando você atenta para isto, você descobre que isso pode ser dispensado; é algo dispensável, não necessário. Essa é a vida da “mente”, do “eu”, da “personalidade”, a vida não real; essa não é a sua Vida. Melhor dizendo, você acredita nessa, assim chamada, “minha vida”. Então, eu digo que essa é a “sua vida”, mas não é a sua Vida Real. É desta Vida Real que tratamos em Satsang.

A Vida Real é livre desse sentido de separação, dessa estrutura mental, livre de toda forma de dependência, no nível de contato nas relações em nosso dia-a-dia, porque é apenas nesse nível que a dependência acontece. Contato com coisas, pessoas, situações - e essas “pessoas” aqui, repito, são os outros seres humanos - sempre vai acontecer, isso sempre estará aí. Assim sendo, não adianta acreditarmos que temos que fugir desses contatos. Nós, também, temos feito isso: fugimos para o mosteiro, quando o retiro tem o propósito de afastamento de outros; fugimos para as drogas ilícitas ou drogas lícitas, como, por exemplo, os medicamentos psicotrópicos. Estas são maneiras utilizadas para se escapar dessa vida de conflitos nesse nível, que é o das dependências psicológicas desses “outros”. Aqui, eu quero dizer algo para vocês: não há outros, se o “você” não está presente.

Se não está presente essa “estrutura”, não há “outros”. Se “você” não está presente, então, tudo termina: as fugas, as dependências diversas, os conflitos, os medos, os desejos, os ciúmes, as invejas, o despeito, além de toda essa ideia de amigos e inimigos, de “alguém” que amo - na realidade, “alguém” de quem dependo. No Amor não há “alguém”, pois, quando “você” não está, o outro não “está”, e somente assim o Amor está presente. Portanto, quando há Amor, tudo termina, absolutamente tudo termina, e só Ele “triunfa”; só Ele, em si próprio, se manifesta, e esta é a maneira simples, autêntica, real, verdadeira, singular de viver. O Amor é a única Vida Real! No Amor não há o “outro”, porque “você” não está, esse “você” que você acredita ser, há apenas esse Você que de fato Você É. Você é Amor, só há Você, e o “outro” não é visto.

Seres humanos são vistos, as chamadas “pessoas” são vistas, mas tudo é visto em Você. Aqui não há essa coisa de “amor ao próximo”, há somente o Amor, que está presente, quando nenhuma forma de dependência está presente. Isto é Liberdade, é Beatitude, é Paz, é Realização! Isto é Verdade! Isto é Deus! Isto é Você! 


*Transcrito a partir de uma fala ocorrida em Março de 2012

 

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