quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sobre o sofrimento



Assim, o sofrimento é possível quando você está na procura do prazer. Quando você se põe a buscar o prazer, você se torna uma entidade presente nessa busca, artificializa aquilo que é natural. O prazer é algo natural chegando aí para esse organismo, para esse mecanismo, para esse corpo-mente, mas não é algo natural sendo encontrado por esse mecanismo, por esse corpo-mente. Quando ele é encontrado por você, existe o sentido de alguém aí presente na busca de um preenchimento de ordem pessoal. É assim que o sofrimento surge.

Tenho algo para lhe dizer: ou você busca o prazer e sofre ou resiste ao sofrimento que a dor traz – de forma natural também –  e sofre. Ou você para de resistir ou sofre. Ou você para de buscar prazer ou sofre. A sua busca por prazer ou a sua resistência à dor é, inevitavelmente, sofrimento para essa pessoa que você acredita ser. Só essa pessoa aí sofre, e essa pessoa é a mente egoica, é a mente estúpida, é o sentido de separação, é esse sentido de separatividade nessa inconsciência, nessa ilusão.

Uma outra coisa que ainda não está claro aí para você: tudo o que está acontecendo, está acontecendo nessa vontade de Deus! É sempre a vontade de Deus acontecendo, é sempre a vontade divina. Ela não pode ser mudada nem pela sua busca do prazer nem por sua resistência à dor. É aqui que você existe como uma entidade separada, como uma ilusão.

Sofrer é impossível nessa Consciência, que é pura inteligência. Deixar de sofrer é impossível nessa inconsciência que é estupidez, nessa ilusão de ser alguém, nessa ilusão de tirar conclusões sobre aquilo que acontece, nessa ilusão de tentar mudar o curso natural desses acontecimentos na vida, ligados a esse mecanismo aí, a esse corpo-mente que tem uma história e uma memória particular, pessoal.  Confundir-se e procurar mudar isso é assumir essa inconsciência e será impossível deixar de sofrer.

Eu quero convidá-lo a não sofrer mais. Isso é natural, e, por ser natural, é algo simples. Não natural e complexo é o que você tem feito na sua vida, procurando mais do que a existência lhe oferta, buscando mudar o que não pode ser mudado, tentando alterar o curso das coisas. Eu quero convidá-lo a deixar de sofrer, deixando de agir dessa forma inconsciente, identificado com esses pensamentos, com essas conclusões, com deduções,  imaginações e ideias.

Assumir que só há uma vontade e essa vontade é aquela que permanece. Não é o que você deseja, ou o que você busca, ou o que você quer, ou ainda aquilo do qual você quer se livrar, se proteger, ou se defender... Tudo é essa única vontade fazendo! E esse é o ponto, esse é o segredo de ser natural.

Sua Consciência Real, sua Natureza Real não conhece sofrimento, apenas a mente egoica conhece.

É isso!

*Transcrito a partir do trecho de um Satsang ocorrido no Ramanashram Gualberto na cidade de Campos do Jordão

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Trabalhe este instante de forma natural

Então, o ponto aqui, sempre, é: trabalhe esse instante de forma natural, reconhecendo o que está presente. Se é a chuva, é somente a chuva. Amanhã é uma agressão ou tentativa de assalto, ou qualquer outra coisa acontecendo. Naturalmente vai haver uma resposta para aquilo, mas ela é natural, sem culpa, sem medo, sem remorso, sem raciocínio, sem crenças. Sem isso de “devo” ou “não devo”. 

Agora, perceba que é sempre assim: somos muito teóricos, muito intelectuais, nada naturais. A questão toda é no agora. O que você tem agora, aqui? Você consegue estar agora, aqui, com o que É? Por exemplo, olhar para a roupa dele, ou dela, aqui presente, sem dizer algo, ou sem confiar naquilo que sua mente diga a respeito dessa roupa, e apenas observar isso? Você pode agora, neste instante, observar um pensamento passar e saber que é só um pensamento, sem prender-se, agarrar-se, a ele, sem se fundir com ele, isto que fazemos o tempo todo? 

Vivemos identificados com os pensamentos e somos vítimas da ilusão de que existimos nesse pensar - “é o meu pensamento”. Eu digo a você: não é o seu pensamento; é somente um pensamento. Assim é com a chuva, que não é sua, que pode e deve ser observada de uma forma inteligente, nessa constatação do que é. Todo pensamento aí pode ser observado nessa constatação do que É, porque são só pensamentos. Pensamentos são crenças, julgamentos, comparações, conceitos, ideias, opiniões! 

O pensamento acontece, como a chuva acontece. No Ser tudo acontece... Tudo acontece no Ser. Por isso mesmo estamos dizendo que tudo tem o direito de vir e ir embora, mas Aquilo que É permanece intocado por aquilo que acontece. Por isso que o pensamento tem o seu lugar, mas é só o lugar dele. É exatamente quando nos identificamos com o pensamento que perdemos o sentido de Ser, porque aí nos identificamos com uma história, com uma opinião, um julgamento, uma crença, uma especulação. Na verdade, isso é todo o impedimento que temos. 

Não fazemos o uso do intelecto, da razão, e o maior sinal disso é você olhar para o mundo e ver o que anda acontecendo: insanidade completa, total. Tudo isso é resultado dessa identificação que temos com histórias mentais. A guerra, o conflito, começa na relação com esse, assim chamado, “Outro”; porque há “alguém” aqui, há “alguém” ali. Tudo isso está baseado no pensamento; nessa identificação que temos com a história que o pensamento cria. Então, se diz: “gosto dela, não gosto dele”, “esse é meu amigo, aquele é meu inimigo”, “esse, eu acolho" ou "esse, eu rejeito”. 

Se vem alguém aqui e diz “não faça assim, mas faça assado”, isso é uma imposição, não é algo natural, não é algo real. Se eu respondo a uma pergunta dizendo “diante de tal situação, não reaja”, isso é impor outra ideia à ideia que você já tem. Aqui, no Estado Natural, é sempre Isso: o olhar a partir do Silêncio e essa resposta natural neste instante, neste momento presente. 

Toda opinião, todo julgamento, toda comparação, tudo isso de gostar, ou não, é exatamente a base de toda essa visão egocêntrica, preconceituosa, que separa, divide, e gera toda forma de desordem, conflito, além do sofrimento que começa aqui, nesse mecanismo, e se espalha... Começa aqui e se espalha como uma onda. 

Assim, quando está em seu Estado Natural, tudo o que você comunica, também, é esse Silêncio, é essa Presença, é essa Paz, é essa Quietude, essa Harmonia, esse Amor, que É Você. 

*Extraído de uma fala ocorrida em 2011 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O fim do sofrimento



A ignorância representa um papel importante em sua vida, ela assumiu um papel muito importante em sua vida. Ignorância, não no sentido da ausência do conhecimento. Ignorância, para mim, é ausência do natural, ausência do real, é ilusão. E a ignorância representa, hoje, um papel importante na sua vida. Isso é algo que precisa ficar claro para você. Quando isso fica claro para você, isso desaparece, porque é uma ilusão.

Que papel importante é esse? O papel do sofrimento. O sofrimento só é possível para a mente estúpida, a mente que representa essa inconsciência, essa alienação do Real, essa alienação da Verdade. Então, a ignorância representa esse papel importante que é o sofrimento – sofrimento presente em razão dessa ignorância, possível somente nessa mente inconsciente, nessa mente estúpida, nessa não visão clara de pura inteligência.

O fim dessa ilusão, o fim dessa ignorância, o fim dessa mente que é inconsciência, o fim dessa estupidez, é o fim do sofrimento. E eu vou colocar, para você, agora, um pouquinho sobre isso. Vou mostrar a vocês, dentro dessa fala, a impossibilidade de ser natural e sofrer.

Olhem em volta de vocês, e vocês irão perceber que o prazer e a dor são algo presente, que toda a natureza conhece o prazer e a dor, e isso tem uma finalidade natural. Há, por detrás da dor e do prazer, uma finalidade natural. Sem isso, a existência no planeta, a existência de seres sencientes, seres vivos, seria impossível. A natureza do corpo animal, assim como do corpo vegetal, do corpo humano, toda a vida na terra está acontecendo com dor e prazer.

A natureza, por exemplo, está dotada do prazer sexual. A finalidade da natureza é a continuidade das espécies. Mesmo as flores se reproduzem nessa brincadeira prazerosa desse encontro. E tudo se move contribuindo para o prazer.

Quando pequenos insetos, como a borboleta, levam o pólen de uma flor para a outra... Quando os pássaros disseminam as sementes viajando de um lugar para outro... Eles se alimentam, há um prazer em comer, há um prazer nessa saciedade em comer ou beber, e depois os animaizinhos levam essa semente... defecam... cai sobre a terra... Ou seja, há todo um ciclo natural de expressão de vida no planeta acontecendo porque o prazer é possível.

E essa coisa natural, que é a dor, é a busca natural do corpo em tentar se proteger de ser destruído, para continuar por mais tempo, para poder se multiplicar, se duplicar em outros novos corpos através do sexo. Então, é natural na Vida, é natural na Existência, é natural nessa manifestação, a expressão de prazer e dor.

A gente poderia falar muito tempo sobre isso, e eu não sou especialista nessa área. Todos os mecanismos de defesa do corpo estão ligados a essa procura de afastar a dor. Porque a dor representa perigo para essa máquina.

A natureza toda sofre dor e desfruta do prazer. Dormir é um prazer, comer é um prazer, fazer sexo é um prazer, beber é um prazer. Afagos, carícias, massagens... tudo isso representa prazer para o corpo. Para todos os corpos! Os animais adoram isso! As plantas também! Independente das espécies, todos adoram afago, carinho, massagem, comida, bebida, dormida e sexo. Isso é prazer, é algo natural. E todas as espécies também estão se protegendo biologicamente, fisiologicamente e neurologicamente da dor. Isso é natural: evitar a dor e buscar o prazer.

Mas o que acontece com você é um outro movimento. Não é esse movimento natural que, por natureza, é inteligente e verdadeiro. Essa mente inconsciente, egoica – que eu chamei, agora há pouco, de estúpida – está em busca de transformar isso para os seus próprios fins. Então, aquilo que é natural passa a ser artificial, complexo demais para poder ser Real.

Eu quero que você perceba isso comigo: perceba a sua disposição de sofrer, a sua indisposição de aceitar o que é natural e deixar lá como algo natural; perceba o seu desejo de transformar o que é natural em algo para uma finalidade pessoal, individual, particular, para um centro ilusório, para uma entidade ilusória. Essa entidade ilusória, esse centro ilusório é esse sentido de alguém que você acreditar ser.

Tudo o que acontece naturalmente, de forma natural, acontece dentro dessa vontade divina, com uma finalidade na qual a pessoa não tem nenhuma realidade. Ela não é considerada como um ser presente em todo esse fenômeno chamado natureza.

O que eu estou dizendo é que todo o seu sofrimento é uma produção independente de uma suposta entidade imaginária que está criando um mundo à parte. Ninguém nem nada o obriga a sofrer. Todo o seu sofrimento está na ilusão de que você é alguém. Alguém que pode sustentar o prazer e fazer do prazer algo para um preenchimento pessoal.

Sua resistência à dor e sua busca por prazer são o seu sofrimento, e esse sofrimento é uma ilusão só sua. Essa ilusão é só sua, esse sofrimento é só seu. Você está sofrendo porque você criou esse sofrimento. E é somente nesse sentido que Deus tem algo a ver com esse seu sofrimento: no sentido de que o aparecimento desse sofrimento – sustentado por essa autoilusão de ser alguém – é uma graça divina para o sacudir dessa ilusão.

Se você puder aceitar a Vida como ela É –  com dor e prazer, sem qualquer resistência à dor e sem qualquer busca por prazer – então, nesse momento, você deixa de se autoafirmar como uma entidade separada e o sofrimento termina. A vida vai continuar se revelando como prazer e dor, ela vai continuar te ofertando prazer e dor, porque esse é o movimento natural da Existência, esse é o movimento natural da Vida, está na natureza dos corpos desfrutar prazer e vivenciar a dor. No entanto, quando há o fim dessa ilusão de estar presente, configurando para si mesmo um mundo ideal, onde só o prazer é possível – e um prazer que representa um autopreenchimento, que deve ser constante, não falhar nunca – quando há o fim desse mundo, existe o fim dessa estupidez da mente egoica. Quando existe o fim dessa estupidez da mente egoica, existe o fim desse mundo, desse mundo ilusório no qual você acredita ser alguém dentro dele.

Então, sofrer é algo muito estúpido porque é algo muito pessoal!

É isso!


*fala transcrita a partir de um trecho de um Satsang Presencial no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão em dezembro de 2015
 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O bolso furado da mente






Temos essa tentativa de preencher "nossa vida" com alguém, com coisas, porém essa vida não tem como ser preenchida. A necessidade de  que essa, assim chamada, “vida” tem de ser preenchida não é real. Essa “vida” não é real. É somente a vida mental que necessita disso, que acredita nisso. Nós nos identificamos com essa vida mental, e aí sentimos falta de coisas. Por isso é que somos muito ambiciosos.
Reparem o que eu estou dizendo. Essa necessidade de ter mais, mais e mais, é como um bolso furado. Nunca se está feliz. O bolso furado ainda tem conserto, talvez; ou talvez tenha que ser trocado. Mas é exatamente assim: a mente é um bolso furado. A única diferença é que um bolso pode ser consertado ou trocado, e a mente não. O lado estranho dessa fala é exatamente esse ponto que vamos tocar: estamos falando de algo que parece existir, e de fato não existe. Embora não existindo, assume uma "existência" com grande gravidade, de enorme importância, a ponto de nós identificarmos isso, essa coisa chamada “mente”, como a "nossa própria vida".
A mente nunca se preenche. Ela é como esse bolso, que nunca está cheio; é um bolso sem fundo. Assim é essa nossa conhecida "vida", essa estrutura mental, essa "mente" em sua ambição, que nunca está plena, completa, preenchida. Há sempre novas necessidades, novas buscas, novas procuras, a tentativa de novos encontros, ou aquela coisa, pessoa e condição perfeitas. A natureza da mente é insatisfação. Ela jamais estará plena, feliz, completa, satisfeita... jamais.
Quando você vem aqui, sua mente começa a criar um jogo dentro de você. Nesse jogo, a mente envolve você, "dizendo" que nós temos alguma coisa aqui, que, também, ela pode colocar dentro desse bolso, dessa sacola furada. É isso que faz com que você se sinta frustrado com algumas de nossas falas, porque tudo o que nós temos aqui para propor a você não está sendo colocado para a mente. Não é isso que ela busca. Na verdade, isso dá sustos nela.
Está claro isso? Claro que não! Claro que não está claro. Quando isso fica claro, a mente não está presente. Isso nunca fica claro para a mente, porque não é parte da estrutura que ela tem. Isso cria decepções, quebra suas ilusões, e essa é,  exatamente, a proposta: encontrarmo-nos Naquilo que somos, essa Verdade Natural, que é o Estado Natural. Nesse Estado Natural, a mente não está presente, porque ela não existe. Não é como a história do bolso, que pode ser consertado ou que pode ser trocado, ou da sacola que pode ser substituída. A mente não existe!
Assim, esse Estado Natural não procura mais nada, não busca mais nada, não quer mais, mais e mais, porque não há mais, mais e mais. Não existe tal coisa! Quando a mente não está presente, não há mais, não há menos, não há isso, não há aquilo. Quando a mente não está presente, o que resta é Aquilo que sempre esteve aí: esse Estado Natural, que é completude, em que nada falta, nada procura, nada busca, nada teme, nada receia. Essa sua plenitude é riqueza absoluta... É a Paz, a Verdade e a Felicidade absolutas... É o Ânimo absoluto.

*Transcrito a partir de uma fala de aproximadamente agosto de 2011









 

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