segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Meditação é Ser



Eu não sou o que você não é! Portanto, eu não sou o Guru e você não é o discípulo, ou discípula. Eu sei que não é confortável... Há algo em vocês que não quer a Felicidade que procuram. Eu vou repetir isso: você está buscando Paz, mas tem algo em você que não quer a Paz; você está buscando a Liberdade, mas tem algo em você que não quer a Liberdade; você está buscando a Felicidade, mas tem algo em você que não quer a Felicidade; você está buscando o Amor Real, mas tem algo em você que não quer o Amor Real. Você quer coisas substitutas e passageiras, como essa alegria – ou esse preenchimento egoico – presente na satisfação de estar realizando algo ou vendo coisas acontecerem porque “você” está ali, sendo “alguém” nesse fazer. Isso é assim e não há saída para esse labirinto, porque ele é uma ilusão. Esse “alguém” dentro desse labirinto é, também, uma ilusão. 

Não tente encontrar uma solução para aquilo que não tem solução. Relaxe e permita-se assumir a Verdade de que você não é o corpo, não é a mente, não é o agente, não é alguém, porque, enquanto essa ilusão ainda estiver aí, em alguns momentos você estará preenchido por algo, mas, em outros momentos, não. Assim, você sempre viverá nessa dualidade entre o prazer e a dor, entre a alegria e a tristeza. O interesse pessoal sempre estará presente nesse "preencher-se" sendo alguém para alguns e "fazendo uma diferença" na vida deles ou delas... É sempre a ideia de alguém presente, e isso não é Amor, não é Liberdade, não é Felicidade, não é Verdade, não é Real Alegria. 

Realizar Aquilo que Você É, não é perder a vida; é assumir a Vida com tudo o que ela representa, com a totalidade da completude que o Amor e a Sabedoria representam. 

Estou convidando você para a Meditação, que é a ausência do “sentido do eu” numa dada experiência, seja ela qual for, a mais sublime ou a mais insignificante. Eu estou convidando você para a Meditação, que é a ausência da mente nesse movimento caótico e insatisfatório do tempo; nesse movimento do conhecimento e da experiência. Então, Meditação é Ser! Não é uma prática, onde você tem momentos de Ser, mas logo a mente volta, e, com ela, a cultura e o conhecimento; a “pessoa” com sua história volta e, então, o conflito aparece, porque ISSO não pode ser obtido, realizado ou conquistado por uma prática. Mas a mente quer conquistar a Iluminação, quer obter Isso, para ser uma aquisição dela. 

As pessoas vêm a mim e querem ISSO, mas querem no tempo delas, pois não querem se dar tempo para ir além do tempo; elas não querem se dar – pacientemente, conscientemente, amorosamente – tempo para ir além do tempo. ISSO não é uma coisa para se resolver num workshop, num plano de aula de 48 horas; ISSO é para a sua vida! É preciso colocar a sua vida Nisso! Você nasceu para realizar ISSO; você tem essa “sua” vida para realizar ISSO! Temos aqui algo paradoxal, porque ISSO não vai ser realizado nessa vida. É agora que, em sua Real Natureza, ISSO será realizado, aprendido ou compreendido, porque não está no tempo. É o corpo que está no tempo, que impõe limites, que tem um prazo determinado para expirar... O corpo está marcado, como uma ampulheta de areia, e chegará a hora em que “vai cair o último grão de areia” e ele vai parar. Isso está determinado! Seu corpo tem um tempo, mas sua Vida, não.

Não tem essa questão de Guru e discípulo; apenas nos assentamos juntos, como Um só, investigando uma Coisa que é comum a ambos. ISSO não é, de fato, estranho para você, porque é a sua Natureza Real. ISSO não faz de você “alguém” certo ou o único certo. Não tem alguém! Não há certeza de nada! Só há uma certeza e essa certeza não é o que eu sou, é o que Você É!

A única certeza que você tem é que Você É, quando nada mais é. Por exemplo: agora, onde está a sua casa? Eu falo “casa” e aí você lembra. Onde está o seu filho? Eu falo “filho”, aí você lembra. Onde está a sua história? Eu falo “história”, então você lembra. Quando eu digo, você lembra e a mente vai buscar a história; quando eu falo do filho, ou da casa, a mente vai buscar... São imagens, lembranças, pensamentos, imaginações. No entanto, a única certeza real é que Você É, quando não existe mais mundo – tudo está somente na sua cabeça, se passando por “realidade”. Escute claramente isso: seu Ser é a única Realidade; não tem história! A história está na superfície, não está na Profundidade, no Centro, na Realidade, no Cerne... No Cerne, Você É o que Eu Sou. As preocupações, as aflições, os desejos, os medos e os conflitos estão nessa periferia, na superfície. 

Nesse contato com vocês, sempre o que eu digo para um, eu digo para todos, porque eu não trato com pessoas, mas, sim, com a mente egoica. Curiosamente, paradoxalmente, eu não tenho nada a ver com a mente egoica... Eu trato é com Você. Então, o que falo é valido para todos aqui! Você tem essa vida para realizar ISSO e isso significa que a sua rendição, essa entrega, é sem negociação. Eu não vou negociar com você! Você está aqui para realizar o que Você É e para isso você tem mais 40, 50, 60 anos ou mais dois meses ou duas semanas ou duas horas ou mais vinte minutos para parar de brigar com você mesmo e assumir a Verdade de sua Natureza Real; para despejar todo esse “lixo”. Eu chamo de lixo toda essa estrutura de crenças, opiniões, conclusões, teorias...

O que a sociedade lhe deu é lixo. Olhe a “pessoa maravilhosa” que você se tornou com tudo o que a sociedade lhe deu, não é? Não é verdade? Não há conflito, não há sofrimento, não há... Então, você está relaxado, descansando? Não tem que viver tentando fazer, realizar e obter? A sociedade lhe deu isso. Olhe aí para você, para tudo o que ela lhe deu... Olhe aí como é precioso! A sociedade ensinou você  a “amar”, a “ser feliz”, não foi? Ensinou tudo, não foi? Olhem para vocês... Todos tão cultos, “estudados”... Vocês são felizes, não são?

Quando você é pequeno, eles perguntam o que você quer ser quando crescer. Aí, alguém dá uma tapinha nas suas costas e diz: “Estude para você ser gente!” Olhe para você... Agora você é “gente”! Todos disseram que você ia ser feliz depois da faculdade e, agora, olhe para você... com pós-graduação... Como você está feliz! Olhe como tudo o que a cultura lhe deu fez você “relaxar” em sua “felicidade interna”. Olhe para isso! Não é, não? Então, o que a sociedade lhe deu? Portanto, meu convite é para você soltar isso, voltar para dentro e constatar a sua Divina Natureza. Isto é o fim da ilusão; o colapso da ilusão!

*Trecho de uma fala transcrita a partir de um encontro na cidade de Fortaleza em Outubro de 2016

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Tudo o que você precisa é Despertar


Esta é uma bela oportunidade, um belo momento de investigação, que nos dá a oportunidade de irmos além da limitação que nossas crenças estão, constantemente, nos colocando. Portanto, a palavra para nós, nessa noite, é a palavra que nos dá a oportunidade do Despertar. Aqui Despertar é ir além dessa limitação, que são nossas crenças, nossos conceitos e julgamentos, nossas opiniões, ideias e conclusões, basicamente o que está acontecendo aí dentro da sua cabeça.

Agora, enquanto você nos escuta, a mente tem esse condicionamento, aquele velho condicionamento de ouvir para concordar ou discordar, para aceitar ou rejeitar, para internamente a mente dizer: “eu concordo com isso”, ou “discordo, não penso assim”. Esse é um exemplo, dentre outros, desse fundo, dessa base, através do qual nós ouvimos alguém, ou lemos alguma coisa. Ou seja, nós temos uma conclusão ou já temos uma ideia preconcebida a respeito de algo e nós ouvimos com esse fundo. Então, o movimento da mente é esse condicionamento.

Nesses encontros eu convido você a Despertar, que significa sair desse padrão, ir além da mente egoica, essa mesma mente que compara, aceita, rejeita, avalia, conclui. Talvez, quando você escuta pela primeira vez a palavra Despertar, você não consiga, ainda, perceber a implicação disso. É uma palavra que a gente não consegue perceber, a princípio,  a implicação e o significado, nem mesmo intelectualmente, dentro de um encontro como este. Tudo o que você precisa é Despertar, que significa o fim de todo esse condicionamento, de toda essa maneira como você se depara, se encontra, com a vida. Despertar significa algo diferente de tudo aquilo que a mente egoica conhece. 

Para todos nós a escolha, a vontade, o controle, é a base de nossa vida. Falo dessa vida egoica, que é a vida carregada com esse sentido de dualidade, onde há o bem e o mal, o certo e errado, o gostar e o não gostar, o “eu quero” e o “eu não quero”. Então, toda vontade, escolha e todo controle que a mente conhece, que o ego conhece, é esse estado que nós chamamos de condicionamento, de estado de sono, de inconsciência... É como a experiência que você tem do mundo. O que é basicamente este mundo? A experiência que você conhece do mundo, no mundo, é a experiência do estado de sono. Sua experiência do mundo, como você conhece na mente, é a experiência do sono. O que é a experiência de alguém que sonha: é se ver acordado, mas está dormindo. Você sabe que é bem assim à noite. Quando dorme, você está “acordado” e caminha pela rua, entra em contato com pessoas, viaja, vende, compra, casa-se, etc. Assim é o sonho, à noite, em que tudo acontece, quando você tem a sensação de que aquilo não é um sonho, de que você está acordado. 

A sua experiência do mundo, no sono, no estado de sonho, é semelhante à experiência que você está tendo aqui, agora, nesta sala, ouvindo esta fala. Você tem a perfeita certeza de que aquilo que está acontecendo ali, no sonho, é com você plenamente acordado. Somente quando você acorda pela manhã é que percebe que aquilo era um sonho, que tudo aconteceu enquanto você estava dormindo. Repare no que está acontecendo com você neste momento: você é capaz de jurar para mim que está acordado. Entretanto, somente quando você sai do sonho é que você percebe que estava dormindo. Na Índia, eles chamam de maya esta mágica, este truque divino, esta brincadeira divina. Enquanto você está sonhando, você está falando, comendo, dormindo, caminhando, fazendo qualquer coisa, menos dormindo. No sonho você não dorme, está plenamente acordado, pois a única coisa impossível no sonho é dormir, e você nunca sonhou que estivesse dormindo. Você sempre sonha que está acordado, não é assim? Nesse sonho, à noite, você está fazendo tudo, menos dormindo, e tem a plena certeza de que está acordado. Mas, quando o despertador toca, e você de fato acorda, percebe que tudo aquilo aconteceu apenas dentro da sua cabeça, apenas na mente. 

Você está tendo a mesma experiência aqui, ouvindo essa fala, só que, neste momento, eu posso dizer para você que “você está dormindo”. Você vai duvidar de mim da mesma forma, como você faria no seu sonho. Durante o “sonho”, em “seu sonho”, você se casa, tem filhos, os seus filhos crescem, você fica velho; em “seu sonho” você se depara com um acidente, com um perigo de morrer, mas já está velho, e naquele exato momento você acorda. Aí você diz para si: era um sonho. Nesse sonho você casou, teve filhos, envelheceu, estava perto de morrer e acaba de acordar; ou descobre que ainda é jovem e solteiro, que tudo aquilo era um sonho. Você consegue se lembrar desse sonho, mas onde está a realidade deste mundo no qual você casou, teve filhos, ficou velho e quase morreu naquele acidente? Para onde foi este mundo? Para onde foram os seus filhos, a sua esposa, a sua família? 

Essa é a realidade da mente egoica: ela vive em seu sonho e tem a plena certeza, em seu sonho, de que não está dormindo, como agora, aqui. Vamos supor que você sonhe, que agora todos vocês tenham um sonho. Nesse sonho você está subindo uma montanha e eu estou do seu lado. De repente você escorrega e vem caindo, mas eu estou do seu lado e digo: “relaxe. Isso é só um sonho”. É claro que, se eu lhe disser isso durante essa queda, não vai evitar o medo; seu medo estará lá. Você vai olhar para mim e irá dizer: “mas eu estou caindo”. Você não irá acreditar em mim. Eu vou repetir e dizer para você: “mas é só um sonho”. Você está “dormindo”, apenas “sonhando”, mas de repente você vem caindo, caindo, caindo, e, quando está para atingir o chão, você “acorda”. Você começa a rir, porque agora tem a certeza de que aquilo era só um sonho, mas você precisa estar acordado para saber que aquilo era só um sonho, porque antes você não sabia. Antes havia medo, a sensação de queda, e mesmo que, lá no sonho, eu pudesse dizer para você que era “só um sonho”, você não iria acreditar em mim. 

A mesma coisa está acontecendo agora, aqui. Eu estou dizendo para você que a “sua vida” é só um “sonho”; que todo o seu desespero, sofrimento, e todos os seus problemas são, somente, parte desse sonho. Tudo isso é só um sonho, mas olhe para você agora, neste momento. Eu estou lhe dizendo isso, mas você está aí agarrado a essa doença, à ideia de falta de dinheiro, de ser pobre. Você está agarrado a conceitos, como o bem e o mal, a felicidade e a infelicidade, mas são todos conceitos, crenças, ideias, que estão apenas dentro da sua cabeça, porque tudo isso é parte do seu “sonho”. Você está agarrado a essa “pessoa”. Vou repetir: você está agarrado a essa “pessoa”. Essa “pessoa” é só o seu sonho. Você não é esse sonho, não é essa pessoa, não é essa doença ou essa saúde, essa riqueza ou essa pobreza; não é uma pessoa ruim, não é uma pessoa boa. Ou seja, você definitivamente não é uma “pessoa”, pois essa “pessoa” está somente no seu “sonho”. Essa “pessoa” também é casada, já tem certa idade, ou ela é solteira, ou ela é noiva... 

Está claro isso? 

Você agora está aqui, na sala do Paltalk, ouvindo um Guru. Você é o discípulo ou pretendente a discípulo, mas isso também é somente um sonho, uma ideia, uma crença, um conceito. Você não está duvidando da pessoa que acredita ser, ou seja, você não está duvidando desse “sonho”. Eu estou, também, do seu lado, como estava lá naquele sonho da queda, dizendo para você: “Relaxe, que isso é só um “sonho”. Você não está caindo. Você não vai morrer”. Lembra-se do sonho, quando você estava prestes a bater no chão, acorda e começa a rir? É como aqui, agora. Eu estou dizendo para você: “Você é Sat-Chit-Ananda, Ser-Consciência-Bem Aventurança. Você é o que Deus disse que Você É e Ele disse que Você é Ele. Você não é o que a sua mente diz que você é, pois o que ela diz é o que o ‘sonho’ parece ser para essa ‘pessoa’, que você acredita ser”. 

Então, não fique apegado à sua “pessoa” e nem às outras pessoas, porque estas, também, são parte do “sonho” desta “pessoa”, que você acredita ser. Elas vão desaparecer desse sonho, junto com essa “pessoa”, que você acredita ser e que, também, vai desaparecer desse sonho. Quando o “sonho” termina, as pessoas do sonho terminam, também. Não se apegue a lugares, porque esses lugares estão, também, nesse sonho. Não se apegue às coisas. Não se esqueça de que isso é somente um “sonho”. Você tem esquecido isso, aliás, ninguém lembrou a você nada acerca disso, porque todos à sua volta estão no mesmo “sonho”, dando “realidade” ao que não tem realidade, acreditando no mesmo mundo do sonho em que você está. Se você acredita que esse mundo é real, elas também acreditam que esse mundo é real. Se você acredita estar sofrendo, elas também acreditam estar sofrendo. Se você não sai deste “sonho”, ele continua.

Nesses dias, alguém me perguntou o que acontece depois da morte. O que acontece durante a vida é a ilusão da vida. O que acontece durante a morte é a ilusão de uma vida pós-morte. Se você está nesta ilusão de que está vivo, porque está em um “sonho de vida”, esta ilusão é sempre uma ilusão. Assim, a ilusão de ter um corpo ou a ilusão de não ter um corpo, a ilusão de estar vivo ou a ilusão de estar morto é a mesma ilusão - a ilusão de um “sonho”. Todas as noites você morre para este mundo e desperta, acorda, para o outro mundo, que é o mundo dos sonhos. Esse mundo dos sonhos é considerado real, enquanto o sonho está acontecendo, e este mundo aqui é esquecido. Repare que você nunca se lembra, enquanto está sonhando, deste mundo aqui, não é isso? Você nunca se lembra da sua família do lado de cá, quando tem uma família no seu sonho, à noite. Então, qual é a sua família verdadeira? Essa daqui ou a que você tem enquanto sonha, à noite? Enquanto sonha, à noite, você não tem nenhuma ideia dessa vida e dessa família do lado de cá. Então, qual é a sua vida real, a vida do lado de cá ou a vida do lado de lá?

O que eu quero dizer é que não existe nada como a “vida aqui” ou “vida ali”, “vida do lado de cá” ou “vida do lado de lá”. Tudo que existe é um “sonho" e é nesse “sonho” que você nasce e morre. Então, você pergunta o que acontece? Primeiro você tem que me responder quem é você e se está vivo. Se você conseguir me responder essa questão, eu posso lhe responder acerca do “depois desta vida”. Mas, primeiro, me responda se você está vivo ou se você está morto. Pois eu digo que você está sonhando e nesse “sonho” você vai “morrer”. Primeiramente, você precisa saber o que é a “sua vida” agora, aqui; precisa saber se está vivo, agora, aqui. Então, não se preocupe, porque é só um “sonho”, como alguém caindo num precipício. Eu estou ao seu lado e lhe digo: “Relaxe. É só um sonho e você não vai morrer”. Então, compreenda a si mesmo, realize o seu próprio Ser, reconheça o que você é agora, o que é a vida agora. Se você sabe o que é isso agora, todo problema termina, inclusive esta questão da vida e da morte. Primeiro descubra se você está vivo ou se está “dormindo”, pensando que está vivo.

A questão é que a “pessoa” quer saber se pode morrer; só que a pessoa é um “sonho”; ou seja, é um sonho preocupado com o final desse sonho.  A “pessoa”, que é o sonho, está preocupada com o final desse sonho. Se você de fato está preocupado com o final desse sonho, acorde! Acorde agora! Você só tem esse momento, que é agora, para acordar. Se você acorda agora, descobre que nunca nasceu, que isso é só um “sonho” e, portanto, que você não vai morrer, porque isso, também, é só um “sonho”. Nascer e morrer, assim como estar vivo ou morto, são apenas conceitos. Aqui não estamos interessados em sonhos. Em algumas religiões, estão preocupados com “sonhos”, como o “sonho do lado de cá” ou o “do lado de lá”, mas, se são “sonhos”, não nos interessam. O ego está preocupado em sobreviver, em um “sonho novo”, depois deste “sonho antigo”. Só que este “sonho” novo é só uma repetição do antigo. Então, se tudo continuar na mesma, se o “sonho” continua, não importa se nesta vida ou na outra vida, essas vidas são somente um “sonho”. 

Então, que importância isso tem, se você não sabe quem de fato você é? Se você não sabe quem de fato você é, não importa se “do lado de cá” ou “do lado de lá”, nesta assim chamada vida, ou nesta assim chamada pós-morte. Se algo continua, é somente uma repetição do que está aqui, a continuidade do “sonho”. As religiões estão interessadas nisso. Algumas falam em viver no céu, no paraíso, em colônias espirituais, em mundos superiores, e assim por diante. Mas é o mesmo sonho, a mesma ilusão, onde há o sentido de um “eu” presente com suas experiências, dentro do sentido de separatividade, de separação, vivendo em um mundo particular cheio de pessoas, de coisas e lugares, cheio de experiências e do desejo de desfrutar dessas experiências. Aí está esse vazio, esse pesar, essa dor, esse sofrimento, mas tudo isso está no “sonho”, na ilusão. Nesse eu presente, com suas escolhas, vontades e controle, está o ego, o “sentido de alguém”, a ilusão de separatividade. 

Portanto, eu diria para você que a coisa primordial, principal, é Despertar, é ir além desse “sonho”, pois além dele está essa Liberdade, que é Felicidade, Amor, Paz, Sabedoria... Que é Consciência de Deus. Isso é o fim do “sonho”, neste mundo ou em qualquer outro mundo, nestas, assim chamadas, vida ou pós-morte.  Tudo isso acaba, termina, aqui e agora, em sua Realidade, em seu Ser, em sua Natureza Verdadeira, Essencial!

*fala transcrita a partir de um encontro online via Paltalk na noite de 19 de Outubro de 2016 - Encontros virtuais todas as segundas, quartas e sextas-feiras às 22h

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Um filme de destino para um personagem que não existe





Lidar com isso que acontece se desidentificando é o seu trabalho para despertar, mas enquanto você se vê como uma entidade separada, você está preso a um processo que alguns chamariam de destino. Então, o que tem para acontecer na sua vida vai acontecer. Isso tudo tem a ver com aquilo que está destinado a essa máquina (corpo-mente). Algo que a própria mente montou para ela. Na Índia, eles chamam isso de karma; cada mecanismo tem o seu karma. 


Enquanto você estiver se identificando com a ideia de ser alguém dentro do corpo, isso fica muito pesado, porque você vê as coisas boas e ruins como algo acontecendo para você. É muito pesado viver nesta ideia de ser uma pessoa, lidar com aquilo que o corpo está destinado a passar sendo uma "pessoa". Você está aqui comigo em Satsang para se desidentificar desse personagem nessa história. Você vai começar a olhar e parar de valorizar isso, parar de dar importância a isso, parar de dar vida a isso; é só algo destinado para esse corpo passar, mas se você colocar essa crença, o ego, o “mim”, dentro da experiência, você vai sofrer! 


Alguma coisa boa acontece, você fica feliz; vem uma coisa ruim e você entra em depressão, entra em angústia, xinga Deus, xinga o céu, xinga a vida, xinga tudo, e é só um filme, um filme de destino para um personagem que não existe. Esse personagem é esse “você” que você acredita ser. É uma coisa que está destinada só ao corpo e à mente, mas você tem que colocar uma identidade nisso e… pronto! A coisa cria um volume extraordinário e, assim, tudo que você faz é para criar mais problema, ao invés de se submeter à vontade divina. A vontade divina é essa? É isso que a Graça tem ? Ok! Em vez de acolher e confiar que isso não é você, você se confunde com isso, entra em desespero e quer fazer as coisas. E quanto mais você faz, mais embananado você fica, mais enrolado você fica, mais infeliz, mais problemático.

Não se confundir com a experiência significa não colocar um experimentador ali, alguém ali. Quando você faz isso, de imediato fica livre; você já não entra mais naquilo; você sabe que está fora do seu controle; você sabe que não é assunto seu; você sabe que, na verdade, é Deus que determina tudo!



Nada está acontecendo para você ser infeliz ou feliz. No entanto, quando você se vê como uma pessoa, as coisas estão acontecendo para você ser feliz ou para você ser infeliz. Quando você é feliz, você diz: “Que bom! Deus gostou de mim! Consegui! Deus gostou de mim, mas ‘eu’ que consegui!” Quando está infeliz, você diz: “Deus me desprezou, a Graça não quer nada comigo”. E não é assim! A vida está acontecendo só por acontecer, não tem “você” nisso.


Ontem eu falei sobre isso... Você se afasta de si mesmo quando se volta para esse “você” que você acredita ser, para essa história desse alguém aí. Eu não sei para vocês, mas isso soa como música para mim! Ouvir isso é música, ouvir a Verdade é música, é algo libertador! Nós falamos o tempo todo de fé em Deus, de confiar em Deus, mas não sabemos o que é isso. Fé em Deus é saber que não tem você. 

Fé em Deus é ficar preso no trânsito, perder o voo e dizer: “Uau! O avião foi embora!” E só! Você não pode esperar ter fé em Deus nas benesses, nos momentos festivos, nos momentos de alegria. A sua fé em Deus está no momento de adversidade, nos momentos em que você vê que não foi como a mente disse que seria ou que deveria ser. Você diz: “Caramba, que coisa engraçada! Como a mente é sacana! Eu tinha tanta certeza... mas não é! Nunca mais vou confiar em pensamentos! Pensamentos são mentirosos dentro da  cabeça, pessoas não são reais”.



Quando você sabe que pessoas não são reais, você não espera nada delas, nem espera o bem ou o mal delas. Quando você não espera nada delas, você não se frustra com elas.

Ninguém mais é seu amigo, ninguém mais é seu inimigo. As pessoas são o que elas são. Assim como aquele pássaro é o que é, aquele cachorrinho é o que é, aquela árvore é o que é... Tudo é o que é, e você está fora disso, fora dessa bobagem de ter que confiar em alguém, de ter que confiar em mudanças para você ser feliz, para você estar em paz. Nesse trabalho, não existe esse propósito de mudar sua vida. Sua vida não tem que ser mudada, sua vida tem que ser reconhecida. Você precisa reconhecer a vida. Deus não é uma conquista, Deus é uma constatação.



Por aí afora, vocês aprenderam tudo de forma muito equivocada. O que vocês receberam aí fora não funcionou para vocês, jamais funcionará, porque não há verdade aí fora. O "Eu Sou" é a Verdade! E "Eu Sou" não é um ensino, uma crença. Eu sou Consciência! Encontrar-se é encontrar esse “Eu Sou” que Sou, que Você É. É em Você que está a Verdade, e não fora! É em Você que está a Sabedoria, e não fora! E a Sabedoria está na Vida como Ela se mostra, e não fora Dela, em um ideal de vida, em um ideal de viver. Eu só trato da Vida, eu só trato desse “Eu Sou”. Isso é a Verdade, Isso sou Eu! E você pode dizer essas mesmas palavras: “Isso sou Eu”, porque você está falando desse “Eu Sou”.



Isso só é possível quando há uma profunda paixão. Sabem o que significa paixão? Paixão é estar ardendo, é estar em chamas, é estar em fogo! Deus só se revela, nessa constatação, quando há fogo. Quando você está queimando por isso, ele se mostra. Não do lado de fora! Primeiro, Deus se mostra dentro, depois ele se apresenta como o Guru do lado de fora. Paradoxalmente, primeiro ele se apresenta como o Guru do lado de fora, que é o mesmo Deus do lado de dentro.


Aqui o meu convite é para você ir além da mente. Ou você queima, arde, está em chamas pela Verdade, ou você volta a confiar nas evidências da mente.



Nós vamos falar muito sobre isso ainda.

*Transcrito a partir de um encontro em Agosto de 2016 na cidade de Fortaleza

domingo, 11 de dezembro de 2016

Como é o Estado Natural?




A Consciência não está no tempo, a mente está no tempo. Tempo é sinônimo de mente, e tempo, que é sinônimo de mente, são pensamentos. A Consciência é o seu Estado Natural; na Índia, eles chamam isso de Liberação, Moksha, que é o Estado de Consciência autorrefulgente, resplandecente. É como quando você olha para o céu, vê nuvens e vê a lua entre as nuvens... É ainda um amanhecer e o sol está começando a despontar, a brilhar no horizonte, mas a lua está lá e as nuvens também, e o sol começa a brilhar e se espalhar pela Terra. O sol vai subindo, e a lua, que estava tão brilhante, começa a ficar pálida... vai empalidecendo, empalidecendo… Então, você olha e diz: Cadê? O brilho do sol é tão grande que a lua desaparece, mas ela está lá e já não faz mais nenhuma diferença. 

O Estado Natural é algo semelhante a isso: a mente está presente; todas as funções da mente, as funções naturais, como sentir, pensar, se emocionar, raciocinar, deduzir, concluir, falar. No Estado Natural a mente está presente, todas estas funções mentais estão presentes, mas, como o "Sol" está brilhando, ela já não tem importância. O Sol é a Consciência e a mente "é a lua". Uma vez estabelecido nessa Consciência, uma vez que o "Sol" já esteja em pleno meio dia, a lua faz o trabalho dela, sem tirar o brilho do Sol. Então, a mente opera em suas funções naturais, mas não toma o lugar da Consciência. O Estado Natural é assim. 

No estado não natural, que é o estado do homem comum, "a lua está tomando o lugar do Sol", está tentando "fazer o trabalho do Sol". Então, quando a lua tenta fazer isso, ela mistura suas funções naturais, que é raciocinar, concluir, deduzir, explicar, conhecer, experimentar, pega isso e cria a ilusão de um experimentador controlando essas funções. Assim, a mente passa a assumir um controle que não é dela, tenta assumir o lugar da Consciência... A lua tenta roubar o brilho do Sol, pois ela não se contenta somente em refletir o brilho do Sol; quer roubar o brilho total do Sol; quer ser um Sol à parte - Isso é o sentido da separatividade. 


É isso que as escrituras chamam de queda de Satã, de Satanás. Na Bíblia, no livro de Isaías tem umas palavras assim: "Subirei a mais alta nuvem e me tornarei semelhante ao Altíssimo". Tem toda uma linguagem figurada, desse sentido de uma identidade no controle, real, uma identidade verdadeira, senhora de tudo, e isso produz a ilusão do espaço e do tempo para essa suposta entidade presente. Então, essa mente que tem suas funções naturais, pensar, sentir, deduzir, concluir, em razão dessa ilusão da separatividade, cria o sentido de um "eu" na experiência corpo/mente/mundo, surgindo aí a ilusão do ego. 


A mente, em si, não é má, pois pensar, sentir, concluir, deduzir, aprender, lembrar, esquecer, tudo isso, é bem natural, mas a serviço de uma suposta "entidade" presente nisso, a serviço de um "eu" separado, complica tudo. Aí é que surge o Satã (Satã em hebraico; diabo ou diabolus no grego). A noção de tempo e espaço surge para essa identidade, não pra mente, mas nós chamamos esta suposta "entidade" de mente egoica. Colocando de uma forma didática, nós chamaríamos isso de mente egoica, mas a mente, em si, é só a lua num céu, onde o rei é o Sol... A lua apenas reflete o brilho do Sol, sem problema. 


Por isso é que, nas falas, você me vê usando a expressão "mente", às vezes falando dessa "mente egoica", e às vezes estou falando só da "mente", não da "mente egoica". Você pode observar, nas falas, que eu faço um intercâmbio entre a mente e a mente egoica. Às vezes estou falando "mente", tratando da mente egoica; outras vezes, estou falando "mente" e estou tratando só das funções naturais da mente. O corpo não tem funções naturais?! A mente, também, tem funções naturais. O que chamamos de mente, nesta máquina [corpo], é isso que opera numa unidade inseparável do próprio corpo; então, na verdade, a gente fala "mente", mas corpo é mente e mente é corpo. Nos referimos somente às funções não físicas, mais sutis, da máquina, como o sentir, o perceber, o movimento do pensamento, a razão e assim por diante. 


Agora é espaço para o atemporal, que é o Sol em sua refulgência, em sua glória. Uma vez estabelecido como Consciência, uma vez essa Consciência estabelecida nesse mecanismo, organismo, a mente assume as funções naturais dela. O resultado disso é: o Agora, que não é o agora do tempo, momento presente, é somente o Agora atemporal, que é Consciência, que  assume o lugar dela. Então, fica irrelevante o passado ou o futuro. Já que esta suposta "entidade" ilusória não está mais presente, é possível se lembrar do passado, como se lembra de um filme, sem aquelas antigas sensações do momento em que você assistiu ao filme. Repare que, no momento em que está assistindo a um filme, você passa por várias sensações, sentimentos, e as imagens e os sons causam impressões. Mas, depois, quando se lembra do filme, você ri, porque é "um filme" que não causa mais nenhum impacto para você, porque não é um filme, é só uma lembrança sem importância. 


Então, o passado é essa lembrança sem importância, que, na verdade, está acontecendo agora só como parte, também, de uma imaginação, porque não tem nada, de fato, acontecendo... Agora, não.  Quando Isso está resolvido, é visto assim. Quando Isso não está resolvido e o filme volta, que é o passado, ele ainda volta com uma carga, toda aquela carga de impressões imaginárias que são sentidas agora, aqui. Então, os traumas são assim, mas não somente os traumas; toda e qualquer lembrança egoica opera desta mesma forma. É só uma imaginação aparecendo neste momento e tomando uma impressão de realidade, porque encontra uma reverberação nessa ilusão de uma "entidade" presente, ainda, carregando esse passado, que é só memória, imaginação. 


O ego é isso: a ilusão de uma "entidade" presente, agora, que sentindo um trauma, uma culpa, um remorso, um arrependimento, é essa ilusão. A depressão é isso. A ansiedade é isso, só que ela joga com uma memória imaginativa de um futuro, a imaginação de um futuro imaginário. Então, é o mesmo processo: sempre a ilusão de uma identidade agora, aqui, sentindo. Não tem nada aqui para sentir isso, nada, absolutamente nada, somente a ilusão de que "você é real dentro do corpo", e que essa imaginação é sua, desse "alguém" que você acredita ser. 


O Estado Natural é a consciência desse instante, mas é uma Consciência Real, não é a visão do momento presente, não é o momento presente, é a Consciência desse instante. Nela pode aparecer a memória do passado, a imaginação de um futuro, mas isso é só um acontecimento neste instante, como um pensamento sem nenhuma validação, sem nenhuma verdade. Então, não altera em nada O que é. Isso raramente acontece, mas se acontece uma lembrança, uma imaginação, não tem importância. Isso é como o feno no fogo forte: ele vem e, enquanto você o está vendo cair, ele já foi. A mente do Sábio funciona assim: quando o pensamento aparece, ele já é consumido nessa Consciência; então, não se estabelece o tempo, o passado ou o futuro. A Consciência é essa Presença agora.

*Transcrito a partir de uma uma fala ocorrida no Ramanashram Gualberto em Setembro de 2016 na cidade de Campos do Jordão

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Permaneça aqui



Esse momento é sempre aquele momento de estarmos fazendo a coisa certa. O que será essa coisa certa? 

Se você entrou na sala e está aqui para ouvir uma palestra, você não está diante da coisa certa a ser feita. A coisa certa a ser feita nessa sala não é ficar atento a uma fala. Estamos em mais esse encontro para fazermos a coisa certa! Ouvir um orador, ouvir um palestrante, ouvir um conferencista, ouvir alguém que sabe algo que você não sabe, que vai lhe explicar algo que você precisa compreender, não é a coisa certa a ser feita; não nessa sala! Isso não é uma proposta real. Então, eu volto a dizer: esse momento, é um momento em que você pode fazer a coisa certa. E essa coisa certa é estar assentado neste Silêncio, diante deste Silêncio. A coisa certa a se fazer nesse encontro, em todos os encontros nesse formato, é se assentar neste Silêncio, é ficar diante deste Silêncio. 

Não há nada a ser ensinado, explicado, e não há nada para se aprender. No entanto, neste Silêncio, algo completo se revela. Aquilo que se revela neste Silêncio é essa Verdade, a Verdade do que realmente pode ser comunicado dentro desse espaço chamado Satsang. O que pode ser comunicado dentro desse espaço é o Nada. É isso mesmo o que você ouviu: apenas o Nada pode ser comunicado dentro desse espaço. Nada para ouvir, nada para aprender, nada para descobrir… Este Silêncio representa apenas isso: esse Nada. Toda a Verdade está neste Silêncio, e este Silêncio, que é a Verdade, é algo tão simples assim. Esse Nada revela tudo; esse Nada se mostra como a única coisa que importa; esse Nada se mostra como a única coisa necessária; esse Nada é a Natureza de Deus, é a natureza Essencial do Vazio, Aquilo que Buda descobriu debaixo da Árvore Bodhi, Aquilo que Cristo constatou no deserto. Buda, após trinta dias debaixo daquela árvore; Cristo, após quarenta dias no deserto.  

A única revelação que importa para a sua vida é a revelação desse Vazio, é a revelação desse Nada. Esse Nada é a Totalidade, é a Completude, é o fim do sofrimento, é a entrada do Reino dos Céus. Essa é a linguagem de Jesus. Jesus costumava dizer que aquele que não nascer de novo, aquele que não vivenciar diretamente esse novo nascimento, não poderá entrar nesse Reino. 

Na linguagem de Buda, não há como ir além do Samsara, além de Maya, além da ilusão de ser alguém, de ser uma entidade, de ser uma pessoa, sem esse Vazio, sem adentrar nesse Vazio, sem adentrar no Nirvana. Isso é o fim! É o fim do conhecido, da ilusão, desse medo que é sempre constante, que é uma constante nessa vida quando a ilusão da separação está presente, quando o desejo está presente. Na linguagem de Buda, o sofrimento está presente quando o desejo está presente. O desejo é sofrimento, é um outro lado dessa moeda. O medo está presente quando o desejo está presente. Então, nós temos dois lados de uma moeda: em um lado, nós temos o desejo; no outro lado, nós temos o medo. E a vida humana caminha dentro dessa dualidade. Na verdade, essa dualidade da mente está presente em diversos aspectos dessa vida egoica, dessa vida mental. Desejo e medo são só um dos aspectos dessa dualidade. 

Não se trata de aprender sobre isso, de estudar sobre isso, de falar sobre isso. A única coisa dentro desse trabalho é tomar plena consciência desse movimento e se desfazer dele, deixá-lo cair, deixá-lo desaparecer. Esse é o movimento de crenças e pensamentos, que significa ter a vida sempre orientada por desejos, mantendo o medo como algo sempre presente. Não é possível a Liberação enquanto isso se mantém; não é possível o fim do sofrimento enquanto isso se mantém; não é possível essa entrada no Reino de Deus, no Reino da Verdade, no Nirvana, ou qualquer nome que nós queiramos dar para Isso. Na Índia, a expressão é Samadhi — o Estado além de todos os estados, Aquilo que está além do conhecido, além dessa limitação de uma vida pessoal, de uma vida dentro desses limites de tempo, desses limites do pensador, de uma história pessoal. 

Todos acompanham isso? Está claro isso? Está estranho? Está assustador? Está louco demais? Como soa isso para você? 

Portanto, aqui se trata de soltar o conhecido, de soltar essa limitação do tempo, que é desejo, medo, pensamento e história. Nós temos dado muito valor à história. A história se tornou muito importante. Ela é sempre importante para alguém. A importância dela surge com a memória, com essa necessidade egoica de autoexpressão. Quando precisamos nos configurar no tempo como uma entidade presente, precisamos dessa história e, assim, firmamos constantemente a memória, valorizamos constantemente o pensamento para sustentar isso. É necessário ver a importância de ir além do tempo, ir além do conhecido, da história, da memória… Isso significa o fim desse passado. Quando o passado termina, o futuro não tem importância, já não é mais valorizado. É sempre a ilusão de alguém presente aqui, aguardando algo… algo melhor, comparado a tudo aquilo que já aconteceu. Então, você cria o futuro, porque você se reporta ao passado. Você está sempre pensando em si mesmo como uma entidade presente, só porque você valoriza a ideia do passado. Você valoriza a memória e projeta o futuro com base nela. Não sei se está claro isso… 

Você está sempre se configurando no tempo como uma entidade presente. Você sempre está dizendo: “Ontem foi assim, mas poderia ter sido diferente”; “Eu não consegui ontem, mas eu vou conseguir amanhã”; “Amanhã será diferente do que foi ontem”. Quando você faz isso, você sempre se reafirma como alguém... sempre tendo esperança, sempre aguardando que as coisas mudem. Na verdade, o seu futuro não será diferente do que foi esse seu passado. Isso por quê? Porque o ego é só isso! Ego é esse movimento no tempo, é a ilusão de uma entidade presente que se repete no tempo. O tempo é uma ilusão, mas essa entidade assume ser real e se repete, e a sua repetição é só memória — ainda é passado, ainda é pensamento, ainda é a imaginação, é essa suposta pessoa que você acredita ser. 

Está claro isso? Não sei se estou colocando muito rápido… 

Você é um conjunto de memórias, um conjunto de crenças, um conjunto de imaginações... Apenas isso: uma fraude, uma ilusão. Esse é o ego, o sentido do “eu”. Apenas isso se repete, apenas isso tem continuidade no tempo. Essa continuidade é o próprio tempo, e esse tempo é só essa imaginação. Reparem que estamos usando várias palavras, mas estamos sempre dizendo a mesma coisa. Intercambiando com palavras, mas apenas falando uma coisa.  

Tudo isso são apenas pensamentos. Eu tenho frisado muito sobre a importância de não se dar importância aos pensamentos. A mente egoica precisa do pensamento. Você, como uma entidade separada, não é real sem pensamentos. Como uma entidade separada, você só é “real” em razão dos pensamentos. Então, se você está disposto a ir além da ilusão, dessa suposta realidade de ser alguém, você precisa deixar de confiar nos pensamentos, precisa estar assentado nesse Silêncio. 

Por isso eu comecei a fala dizendo que a coisa mais importante a ser feita neste encontro é estar aqui, neste Silêncio. Diante do Silêncio, em silêncio. Livre do passado, livre do futuro, da memória, da imaginação, do tempo. Isso significa Meditação! Meditação é uma outra palavra para Consciência, que é uma outra palavra para Samadhi, para Nirvana, para Reino dos Céus… O Reino dos Céus é Isto que está agora, neste instante, se mostrando fora do tempo, fora do conhecido, fora da particularidade do “eu”. O Reino dos Céus é o Reino de Deus, é algo fora da história. O Reino de Deus é o Reino livre da imaginação e, portanto, livre do pensamento, livre da pessoa.  

É necessário se reconhecer como Samadhi, como Silêncio, como Consciência, como Nirvana, como Reino dos Céus, como Deus! Isso significa que não há pessoa! Isso significa que o pensamento não é importante! Nós temos agora o uso da fala, e a fala é a verbalização de pensamentos, mas isso não está tratando dessa “Coisa” em si, é apenas uma sinalização, um apontar, porque essa Coisa em si é o Silêncio, é Samadhi, é Consciência, é Ser!   

Algo mais? Alguma pergunta sobre isso? 

Participante: Mestre, é simples quando estou aqui o escutando, sinto até uma “liberdade de ser ninguém”, mas chega no outro dia, tudo volta! 

Mestre: Então, permaneça aqui! Não vá para o outro dia! Por que vocês precisam dar esse passo para o outro dia? Quando você acredita que existe outro dia, você está de volta ao tempo. Quando você acredita que existe outro dia, você se move desse instante para um espaço imaginário chamado tempo, e é nesse tempo que está o futuro, e é nesse futuro que está o “eu”, essa ilusão de ser alguém. O “eu” sempre se situa no passado ou no futuro e vê esse presente como um portal. Do lado esquerdo está o passado, do lado direito está o futuro, e esse “eu” se situa nesse, assim chamado, presente, o portal que está sempre trazendo a existência do tempo. 

Então, eu lhe recomendo a abandonar o tempo. Isso significa: não vá para o dia seguinte, permaneça Agora! O presente, como esse portal, vai ser uma grande tentação para você ir para a esquerda ou para a direita, para o passado ou para o futuro. Estou lhe dizendo: permaneça Agora! Assentado no Silêncio, nesse Silêncio que é Consciência, que é Presença, que é Samadhi, que é SER. No Silêncio não há pessoa, não há futuro, não há passado, não há história. 

Não se preocupe com a questão do tempo para realizar Isso; Isso não está no tempo. Isso significa que toda essa “sua vida”, que pode, nesse tempo cronológico, levar mais trinta, quarenta ou cinquenta anos, é completamente irrelevante. Esse, assim chamado, tempo cronológico ainda não é o tempo. Isso não está no tempo. Coloque esse, assim chamado, tempo cronológico, ou tempo do relógio, à disposição desse não-tempo, dessa Realização atemporal. O que estou dizendo, em outras palavras, é: você tem a vida inteira para constatar Isso. Você tem todo o tempo do mundo para descobrir que não há nenhum tempo.  

Portanto, coloque o seu coração inteiramente Nisso; coloque sua vida inteiramente Nisso. Essa sua vida é essa única Vida atemporal. Então, não se preocupe com o tempo. Quando não há mais essa preocupação, não existe mais a ideia da Iluminação. Quando não há mais essa preocupação, não existe mais a ideia de chegar a algum lugar, de chegar a esse ou àquele estado. Você está agora, aqui, com seu coração inteiro dedicado ao fim dessa ilusão, que é a ilusão do amanhã, que é a ilusão do tempo, que é a ilusão do ontem, que é a ilusão do passado, que é a ilusão do futuro. Então, você está fazendo a coisa certa, que é estar nesse Silêncio, aqui e agora!

*Transcrito a partir de uma fala via Paltalk na noite de 12 de Agosto de 2016  
Encontros todas às segundas, quartas e sextas-feiras às 22h
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