quinta-feira, 30 de julho de 2015

Quem é você?




Seria interessante vocês olharem para isso que vamos colocar agora. 

Fica aqui para você uma pergunta: existe qualquer sensação ou pensamento presente, agora, aqui, que estejam separados DISSO que é imutável?

Pensamentos, sensações e sentimentos mudam o tempo todo, mas eles estão separados DAQUILO que não muda, que é imutável? 

Se toda experiência que você tem possui a vitalidade do pensamento, da sensação ou do sentimento – e é isso que o posiciona em um ou em outro estado – se tudo que você tem é isso, onde isso acontece? 

Repare que a todo momento você muda de estado em razão de sensações, sentimentos, pensamentos, emoções... Se sua experiência é essa, então ela é a crença em uma entidade que muda. Mas, onde isso acontece? Dá para a gente separar isso DAQUILO que é imutável?

Eu estou dizendo que onde isso acontece é o Imutável, e o Imutável é essa Presença. Essa sensação, essa emoção em mim, esse sentimento agora, aqui, acontecendo neste instante, está separado DISSO que não muda? A gente pode separar isso DAQUILO onde acontece? É possível isso?

Se você olhar bem o que estamos colocando, vai descobrir que o que muda não tem relevância alguma. Assim são os pensamentos, as sensações, os sentimentos, as emoções. Toda relevância disso é porque isso acontece NAQUILO que não muda, de outra forma não tem relevância nenhuma, não tem qualquer importância. 

O que estamos dizendo é: permaneça aí, nesta imutável Presença que vê toda essa evolução, todas essas mudanças. Não há nada acontecendo fora disso que é Você, imutável em essência. Nada pode ser diferente, embora pareça assim, daquilo que é Você. Por que isso é interessante de ser visto? Você não luta contra um pensamento, uma emoção, uma sensação, um sentimento... Isso seria a própria mente se dividindo, ou seja, aquilo mesmo que muda se dividindo, buscando o controle. 

Eu estou dizendo que não há nada fora do lugar. A sua tentativa é sempre de manipular a experiência, alterá-la, porque ela traz desconforto, ou porque você aprendeu que ela está fora do lugar, que não deveria estar ali. As razões são inúmeras pelas quais você quer se livrar daquilo que aparece aí. E, aqui, eu quero convidá-lo, mais uma vez, a perceber que o que está presente está no lugar quando Você assume sua Natureza Real, quando não se separa da experiência presente.

Você permanece NAQUILO que não muda, que presencia aquilo que muda o tempo todo. Então, você permanece como Presença, como Consciência, como Ser, como essa Imutável Realização, como essa Inconfundível Natureza Divina. Quando você deixa isso, você se confunde com o que muda e se perde nas sensações, nos sentimentos, nas emoções, na crença de ser essa mudança, de ser isso que está mudando. 

E agora? Ainda há algo que o incomoda?

O que quer que você me apresente está aí nessa esfera, na esfera daquilo que muda, e o desconforto está na identidade que isso recebe. Em boa parte do seu tempo, você se perde nisso, se confunde com o "pessoal", mas quando você solta e deixa de defender o "pessoal", você para de assumir isso como sendo real. Então, a identidade se dissolve. Nunca esteve aí, nem no pensamento, nem na sensação, nem na emoção... nunca esteve aí.

Isso requer, naturalmente, essa atenção sem escolha, e esse é o ponto: a ideia de uma identidade na escolha é todo o seu atropelo. Não se importe com o que vem e vai, não escolha. Se você não escolhe, você não dá identidade ao que aparece. O que aparece, desaparece; é mutável. Saber que isso aparece NAQUILO que não muda, que é Você, é abraçar incondicionalmente o que quer que surja nesse cenário; é não se importar com isso; é não dar importância a isso; não se tornar importante nisso; não se separar nisso. 

Percebe o que estamos dizendo? Estamos aqui indo na raiz. Estamos dizendo que você "energiza", com o sentido de uma identidade, uma sensação, uma emoção, um pensamento, se separando disso, se tornando uma entidade à parte daquilo que vem e vai. 

Você é essa Liberdade sem escolha, pura Liberdade, pura Consciência, pura Presença, não separada de qualquer experiência nesse presente momento. Sendo assim, não há nada fora do lugar. Nada pode ser mais do que AQUILO que É. 

E onde você entra nisso? 

Mais uma vez, repito, aqui está o ponto: você não entra. Aquele que testemunha e aquilo que é testemunhado aparecem NISSO que é imutável. Chame de pura Presença, Ser, Consciência, Real Natureza, Verdade, Deus, Silêncio, Meditação... 

Esse som da voz, ou o som lá fora, é algo acontecendo aí. Assim como um pensamento pode chegar agora e ir embora, qualquer outra percepção sensorial, como essa da visão, também. Você está de olhos abertos... cores e diferentes formas sendo percebidas NISSO que não muda. As cores mudam, a percepção visual muda, a percepção auditiva muda, o pensamento muda ou uma sensação física, como calor ou frio, ou uma certa dor no corpo, mas estão acontecendo NISSO que não muda.


Você é esse Silêncio, é essa Presença, essa Imutável Realidade, com ou sem sensações físicas, percepções sensoriais, sentimentos, pensamentos, emoções. 

Você sempre permanece nisso, como ISSO que percebe e que é percebido. Só na fala há diferença, mas não há diferença alguma. Só na fala há essas palavras sendo usadas: pensamentos, sentimentos, sensações, percepções, e assim por diante, mas não há nada, a não ser ISSO, acontecendo, deixando de acontecer e permanecendo imutável. É isso!

*Transcrito a partir de uma fala de um encontro presencial em janeiro de 2013


terça-feira, 28 de julho de 2015

A verdade da vida

Estamos mais uma vez juntos.

Este trabalho aponta para algo muito simples, muito direto, e por ser algo tão simples e direto nós não conseguimos admitir, tomar ciência disto. Quando nós falamos da realidade, da verdade, estamos apontando para algo direto, e muito, muito, simples. A verdade é algo muito simples e direto. Por que não conseguimos admitir isso?

Um dia uma mulher, com a idade aproximada de 25 anos, havia acabado de perder sua filha, bem jovem, que teve um ataque do coração e faleceu. Essa jovem senhora, que era uma devota fervorosa de Ramana Maharshi, de repente foi assaltada por uma forte dor, uma grande tristeza, e procurou por Ele. No Ashram, entre o meio dia e duas horas da tarde, eles deixavam Ramana sozinho, pois era um momento que Ele ficava descansando, após o almoço, e foi a hora que ela chegou ali. Havia uma proibição, do pessoal, de entrarem na sala nesse horário, e ela teria que ir embora logo. Como ela não tinha condições de ficar na parte da tarde, entrou no salão. Ramana estava de olhos fechados, ela se aproximou, e ele continuou de olhos fechados, e, em meio aquela dor de ter perdido sua filha, ela perguntou a Ramana: _ Onde está Deus? Onde, Mestre? Onde está Deus? Ramana permaneceu, aproximadamente, por mais quinze minutos de olhos fechados e, sem abrir os olhos, falou bem baixinho: _ Deus é aquilo que acontece.

Eu li esta história hoje e é algo, de fato, muito claro. A resposta de Ramana foi: Deus é aquilo que acontece. Aqui, nós nos deparamos com uma afirmação muito simples, bastante real, e que a mente não pode admitir, porque a natureza do pensamento é sobrepor a realidade deste instante às suas ideias, às suas imagens, ao seu padrão de realidade.

Neste encontro, neste espaço, neste momento, eu convido você a ficar com aquilo que é direto, simples e real. O que é real é: Deus é o que É. Se você puder ficar, neste instante, sem nenhum pensamento diante daquilo que acontecer, você estará diante da Verdade. A Verdade só pode ser o que acontece neste instante, neste presente momento. A natureza da mente é conflitar com isto; é sobrepor a isto uma imagem, uma crença, e essa imaginação é a natureza da mente. É o pensamento que diz se as coisas estão no lugar ou fora do lugar, e que as coisas não deveriam ser como elas são. É o pensamento que conflita com a realidade presente, com a realidade deste instante. Conflitar com a realidade deste instante é resistir, e essa resistência faz surgir um cenário na ilusão da separação entre “o que é” e “o que deveria ser”; a ilusão da imaginação entre “aquilo que é” e “o que poderia ter sido”, ou “que poderá ser”.

É assim que funcionamos, quando nós nos identificamos com o pensamento. Quando se identifica com o pensamento, você perde a visão da realidade, a simples e direta visão daquilo que acontece. Não há verdade nisso, não há liberdade nisso, não há paz nisso, não há inteligência nisso. Nesse mundo das formas, nesse mundo de aparições, as formas estão tomando novas formas e as aparições estão desaparecendo. Essa é a realidade de Deus. Portanto, se o pensamento não aparece para traduzir isto em seus termos, em suas próprias condições, dentro de suas avaliações, o conflito não surge, o sofrimento não surge e o medo não se levanta.

Satsang é um encontro com O que é. Satsang é um encontro com a Realidade. Satsang é um encontro com Deus. É tomar ciência da Verdade, da única Realidade presente fora do pensamento. Aqui reside a Liberação, o fim da ilusão da ignorância. A ignorância aparece como uma ilusão, que é essa ilusão da sobreposição do pensamento à realidade. Sem a sobreposição do pensamento à realidade, não há ignorância, não há sofrimento, não há medo. O medo é fruto da resistência, que nada mais é que uma avaliação, um julgamento, uma interpretação da realidade presente, que é algo que o pensamento faz, e se isto não está o medo não está. Quando o medo e a ilusão não estão presentes, Deus é a Verdade, e a Verdade é Amor, é Paz, é Felicidade.

A constatação e a vivência direta de tudo isso, que é tão simples, tão natural, é Meditação, que é não se confundir com o pensamento, nem dar mais qualquer confiança a ele. É abandonar as convicções e as certezas, das quais o ego tanto se orgulha; é abandonar a segurança das experiências, a arrogância que o conhecimento dá, toda a vaidade do saber e o poder da imaginação. Meditação é abandonar todas as crenças... É ter uma aproximação nova, real, daquilo que acontece.

O que estou dizendo é que as coisas são como são, e “o que acontece” acontece, porque acontece. A vida não lhe dá nenhuma satisfação. A Verdade não tem nenhum interesse de preencher suas expectativas e seus desejos - isto é pura arrogância, é pura ignorância. Esta é a tal da ignorância, que tem base na ilusão. Não pense sobre a vida, viva. Viver é algo muito simples. Pensar sobre a vida é algo muito complicado. Aquilo que é complexo é complicado. Aquilo que é simples é natural. Pensar sobre a vida é pura complicação e isso requer muito esforço... O esforço para ser infeliz, para ser miserável. Felicidade é a arte de Ser, e isto significa não pensar sobre a vida, apenas viver. Viver sem pensar sobre a vida é a arte da felicidade. É algo natural demais para a mente egoica, para a mente treinada em sua arrogância, em sua expertise, em suas experiências e conhecimento.

Assim, eu quero concluir essa fala dizendo isto: “Deus é O que é. E O que é, é o que acontece”. Não pense sobre isso... Não pense sobre isso.

Namastê!

*Fala de um encontro online via Paltalk no dia 27 de Julho de 2015
Encontros online às segundas, quartas e sextas às 22h - Participe

 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A Voz do Silêncio


Não há mais qualquer possibilidade  de constatação quando nossas convicções estão presentes. Assim, fica impossível a investigação de nossas certezas. Afinal, elas são a prova suficiente de que precisamos.

É assim que paramos de ouvir e questionar nossas próprias experiências, conclusões e motivos. O que não percebemos é que já fomos capturados pelo conhecimento de uma "verdade",  pela força da própria autoridade, e estamos dispostos a provar a outros aquilo em que confiamos como sendo bastante real.

Isso é válido para todos os lados na discussão, nessa troca de meras palavras. Enquanto que a liberdade da Verdade, do Silêncio, do Ser, não se encontra no terreno das palavras, mas se mantém quieta e sem nenhuma necessidade de força de expressão, pois não tem qualquer desejo de afirmar, convencer ou provar qualquer coisa. Como teria? Tudo isso é ainda mental. É aí que se mantém a força da mente egoica, que transformou palavras em certezas, e convictas afirmações, puramente verbais, em "sabedoria", mas que não passam pelo verdadeiro teste do viver.

Nosso propósito, nestes encontros, não é o de polemizar, provar, afirmar ou convencer, e sim ver a futilidade dessa habilidade do intelecto, que se torna um maravilhoso instrumento de refúgio para essa ilusão, a ilusão do "eu", e que agora é um "não-eu"  sábio, entendido e realizado. 

Assim, lhe recomendamos: se o seu real interesse é o Silêncio da investigação, seja bem-vindo ao Satsang. Esse espaço tem apenas esse único propósito. Esses encontros são apenas para essa investigação dos truques de continuidade da "mente". Portanto, quando não sabemos, podemos ouvir; no entanto, quando já sabemos, não estamos mais para ouvir, e sim para ensinar, e/ou ver confirmadas as nossas ideias. Mas, para aqueles que não se importam em saber, e sim em investigar, é o seu momento em Satsang, onde o propósito não é esse de ensinar, aprender ou debater experiências e ideias.

Aqui, nossa ênfase é o silêncio, e não as palavras; é o não-saber ao invés do saber; a não-certeza no lugar da certeza; é a não-mente no lugar da mente. Aqui, o silêncio na autoinvestigação, meditação e entrega é altamente considerado. Assim, faça perguntas e traga sugestões de falas, mas se já tem as respostas para suas perguntas - e plena certeza delas - não é preciso fazer qualquer pergunta. Ou se o que quer mesmo é mais conhecimento, também não faça perguntas, porque não nos ocupamos com o saber e não temos interesse em conhecimentos. Os livros estão cheios deles. Além disso, se sua intenção é a de polemizar e provar o poder e a força de seus argumentos, Satsang não é o lugar indicado.

*Fala extraída de um encontro presencial em Março de 2013

 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A vida é um desafio?

Esses encontros nos mostram qual deve ser a nossa atitude, qual a resposta que precisamos ter a esse desafio que é viver (para a maioria de nós é um grande desafio). 

Satsang significa encontro com a Verdade, e é uma oportunidade que nós temos de confrontar esse desafio. A vida, em si, não é um desafio, mas para a maioria de nós ela assim se constitui, e continuará dessa maneira por um bom tempo, até que compreendamos como atender de uma forma adequada esse desafio, até que ela não seja mais isso. Para o sábio, a vida não é um desafio. 

O desafio é aquela proposta para a qual temos que encontrar uma adequação. Assim é a vida para a maioria de nós. No caso do sábio, aquele que está assentado em sua Natureza Real, assentado em Si mesmo, assentado em seu próprio Ser, nessa Consciência, nessa Presença, a vida não é um desafio, a vida é uma misteriosa Graça, uma misteriosa celebração divina. Até que isso se revele dessa forma para cada um de vocês, estaremos em Satsang trabalhando essa aproximação real. 

A maioria se encontra nessa posição. É uma posição de espanto, e não de admiração. A vida, como um mistério, como uma Graça Divina, é uma admiração, enquanto que, como desafio, é um espanto. A posição da mente é sempre a posição do susto, é a posição da perplexidade. Para a mente, a vida é uma coisa que espanta, que assusta, que apavora, que amedronta, daí tanta luta - a luta da vida. 

Na não-mente há festa; na mente há luta. Na não-mente há celebração e dança; na mente há luta, dor, medo e conflito. Esse é o desafio: ir além dessa condição comum à mente, a este "eu". Aqui, a liberdade de se deparar com pensamentos e com condicionamentos, crenças, opiniões, ideias, julgamentos, sem firmar uma identidade em tudo isso, é um grande desafio. 

Geralmente, este "eu", este "ego", esta ilusória identidade é um cabide, onde toda essa roupa é pendurada, uma espécie de gancho, onde todo tipo de coisa vem sendo pendurada. As crenças, os conceitos, os preconceitos, os desejos, os medos, as opiniões, os julgamentos, os condicionamentos, todos são pendurados nesse cabide, ou apoiados nesse gancho. Esse gancho é essa ilusão de uma identidade presente para viver tudo isto. 

Enquanto essa ilusão, esse condicionamento, esses pensamentos, crenças, julgamentos, e assim por diante, permanecerem, então lá estarão o cabide e suas roupas, o gancho e as suas coisas penduradas. Dessa forma, a vida é difícil, uma tarefa árdua, uma batalha, uma constante busca de preenchimento e realização pessoal. A tentativa de vencer, de ganhar, e todo o medo estão presentes nessa coisa toda, e este é todo o desespero humano, toda miséria humana. 

Você, definitivamente, não é obrigado a isso, a viver dessa forma, a conhecer a vida apenas dessa forma. Essa é a maneira comum. Se não estiverem atentos, percebendo a importância desse despertar, dessa realização, tudo se manterá da mesma forma pelos próximos 20, 40 ou 50 anos. Sem o despertar, o que prevalece é a inconsciência. Nessa inconsciência, essa ilusão sustenta tudo isso... uma vida sem amor, sem liberdade, sem sabedoria, sem felicidade. 

Em seu Ser, você é livre! Portanto, você não é obrigado a continuar sustentando toda essa miséria, a vida nesse formato estreito e tão medíocre. A única porta para o fim dessa ilusão, de toda essa miséria, de todo esse conflito, desespero e luta, de todo esse desafio da vida, está nesse Despertar. 

Isso significa estar em seu Estado Natural. Significa constatar a si mesmo em seu Estado Natural, em seu Estado Real, além da mente, como pura Consciência, sem esse cabide, ou esse gancho, que sustenta essa identificação com essa programação. Então, é possível a vida, não como um espanto, como um susto, como uma luta, como o medo, mas como admiração, celebração, em seu mistério, como pura Graça. Ou essa liberdade nessa Consciência, ou, nessa inconsciência, o medo. Quando a vida é real, não há morte. Quando a vida é real, a morte acontece momento a momento... a morte da ilusão, a morte desse sentido de separação, a morte do espanto, a morte da morte. A morte da morte é a vida sem morte, a Vida Real. Só pode morrer, desaparecer, terminar, aquilo que não é real. Essa é a morte da morte! A Vida Real é isso! Sem a ilusão de se identificar com o corpo, com uma história pessoal atrelada a um nome, aquilo que está presente é a Vida, e ela não está localizada, não está situada em crenças e condicionamentos, ou em pensamentos; ela não está em um suporte como um gancho, como um cabide, ela está além disso, livre de tudo isso, sem princípio e sem fim. Essa é a Vida Real, além dos opostos viver e morrer, aparecer e desaparecer. 

Alguma pergunta? 

Essa vida em celebração, a Vida Real, a vida em admiração, é algo fora da noção de tempo e espaço, dessa noção mental de localização. Nesse sentido, não é mais um desafio, não carrega toda essa complexidade, toda essa inquietude, agitação e estresse, toda essa inveja e ambição. Em seu próprio ritmo, em seu próprio movimento, a vida flui sem qualquer esforço, sem qualquer obstáculo, sem qualquer dificuldade.  Essa impessoal, indescritível e anônima Consciência se apresenta nisto, que aqui estamos chamando de vida.

Tudo isso se revela nesse despertar, nessa realização, nessa constatação, nisso que Você é, além do corpo e da mente. 

Participante: Mestre, não sei como deixar de fazer isso, de sustentar toda essa farsa de ser alguém, que me cansa tanto. Já estou saturada de fazer isso, e não sei como não fazer.

Mestre Gualberto: Todo esse fazer é automático. Não há como deixar de fazer isso enquanto a ilusão de autoria estiver presente. Enquanto você continuar acreditando que está aí dentro do corpo, não há como deixar de se comportar como "alguém" acreditando fazer alguma coisa. Aqui, a primeira coisa é abandonar essa ilusão, mesmo que a princípio isso seja visto apenas através de uma aproximação intelectual. Se puder aceitar o fato de que você não é o nome e esse corpo, de que você não controla absolutamente nada... o coração está batendo, a respiração e a digestão acontecendo, o sono vem quando quer, os pensamentos aparecem e você não escolhe; os sentimentos também vem e vão, e você não pode se livrar deles quando quer, nem controlá-los, assim como não pode controlar as batidas do coração, a digestão, o momento de ir ao banheiro... se puder ao menos ficar com essa base tão clara de que há algo que move esse mecanismo, esse organismo, e que esse você aí fazendo isso é só uma ilusão, já é um ótimo começo. Se pode aceitar isso, para começar, só lhe resta agora investigar toda essa ilusão do condicionamento, das crenças, das opiniões, das ideias. Assim, você investiga esse Eu Sou, que é a sua Natureza Real.

Aqui, a questão é que você não pode fazer isso sozinho, ou já teria feito. Portanto, venha ao Satsang. 

Participante: Estarei em Sampa.

Mestre Gualberto: Ótimo! Faça isso!  Todo esse trabalho é da Graça. Nesse sentido, o trabalho não é seu, é do Mestre. Eu costumo dizer que o único trabalho que vocês fazem é o trabalho de atrapalhar. Vocês conseguem atrapalhar bastante isso, são ótimos para atrapalhar essa coisa. Fazem isso muito bem. 

Vamos ficar por aqui? Valeu pelo encontro. Namastê!
 *Fala ocorrida durante um encontro online via Paltalk no dia 22 de Julho de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Onde está o Guru?


Que bom estarmos juntos em mais um encontro.

Estes encontros pelo Paltalk são muito bons, mas o trabalho acontece para valer nos encontros presenciais. É o que quero começar dizendo para todos os que estão participando da sala: é importante vocês estarem no (encontro) presencial.

Eu o aconselho a encontrar um Mestre e ficar com um Mestre só.

Deixem-me falar, um pouco, para vocês sobre esta questão da importância do Guru.

O Guru é a Presença, a Graça, a Consciência, a Verdade na forma. No ego, na mente, você está confuso. A natureza da mente é a confusão, é a escolha. Toda escolha, na mente, e a escolha em si, como um produto da mente, nasce desta confusão. Você não pode, não tem condições de decidir nada sobre essa Liberação, Realização. A forma como se processa e acontece esse trabalho, aqui, é através da entrega; não se trata de uma escolha, e é preciso uma rendição completa! O trabalho, todo ele, é da Graça! Todo o trabalho é desta Presença! Isto significa que o Guru, o Mestre, que é a Presença na forma, vai trabalhar diretamente com o discípulo, e apontar diretamente para ele, mostrar aquilo que ele precisa ver.

Este trabalho é o trabalho da Graça, da Presença. É preciso estar suficientemente maduro para ser encontrado por esta Graça, por esta Presença, e isto é o que significa encontrar o Mestre. Encontrar um Mestre é ser encontrado pela Presença. O discípulo “encontra” o Mestre e se entrega, se rende a Ele. O Mestre, em sua Graça, dissipa todas as dúvidas, todas as incertezas, todos os medos. O Mestre, em sua Graça, confere ao discípulo essa Realização. Mestre, Presença, Consciência é a Verdade interna do discípulo. O Guru externo, este Mestre externo, é a mesma Presença Interna, uma só voz, uma só e única Graça, uma só e Única Presença.

É preciso ter muito claro isso aí dentro de você. Onde está o Guru? Só pode ser "O Guru". Este Guru, com artigo definido, é o único Guru Real. Se você acredita que qualquer Guru funciona, isso também é só uma crença mental, pois somente "O Guru" funciona, “O Guru” com artigo definido. O Guru interno, esta Presença interna, se apresenta como o seu Guru do lado de fora.

Eu estou dizendo que toda essa famosa promiscuidade espiritual, onde, na mente, nós amamos todos os Gurus, não significa absolutamente nada. No caminho real do Despertar não pode haver promiscuidade. Você não pode seguir ouvindo, entendendo teoricamente, pois isto só é possível na promiscuidade, quando, na mente, no ego, você acredita estar aprendendo com todos, e, na verdade, não está se rendendo, se entregando, a nenhum; não está se permitindo essa desconstrução diante da Presença da Graça, do Guru interno que, agora, se apresenta externamente.

Estamos juntos?

Não é possível nos escondermos da Graça, da Presença do Guru.

O Guru real, em sua vida, vai destruir a ilusão. O Guru real vai terminar com a ilusão da separatividade, porque o Guru real é a Consciência, a Presença. Podemos passar muito tempo ouvindo falas, lendo livros, assistindo a gravações em vídeos, aprendendo, ficando cada dia mais entendidos a respeito do assunto chamado “liberação, iluminação, despertar", mas isto não significa absolutamente nada, pois é só mais conteúdo sendo acumulado, e não tem nada a ver com o real trabalho do despertar, o real trabalho espiritual. O seu encontro com a verdade é o seu fim; o fim desse "você", que você acredita ser; o fim de todo conhecimento, de toda experiência, de todas as dúvidas, certezas, esperanças, crenças, fantasias, sonhos acerca disso; o fim de toda ilusão.

Então, eu quero dizer para todos vocês presentes nessa sala, em especial para aqueles que aqui estão e adoram esse namoro virtual, esse romance divino através da internet, que, se é para valer, tem que ser para valer. E aqui eu não posso, via internet, olhar em seus olhos e lhe pedir algo. E nada, que você tem para me dar, poderá me acrescentar alguma coisa, mas, com certeza, vai diminuir o peso aí, que é o peso de ser "alguém". Você está acumulado de muitas coisas, carregando uma bagagem muito grande.

Despertar é o fim do ego, do "eu", do "mim", dessa pessoa que você acredita ser, e tudo isto é o peso. É isso que eu peço de você. Este é o meu trabalho. Meu trabalho é ensinar-lhe a devoção e a entrega, a autoinvestigação e a Meditação... É mostrar-lhe a importância de despir-se de todo esse conteúdo, de todo esse lixo acumulado na mente, investigando, com você, essa ilusão de ser uma "pessoa"... ilusão de uma vida separada, de decisões e escolhas.

É nesta proximidade, nesta confiança, que todo o trabalho é possível. É hora de deixar tudo por isso. Investir tudo nisto: saúde, tempo, trabalho, dinheiro, lazer... O Tempo é este tempo, o momento é este, para você que está aqui em Satsang. Seu momento é o momento de despertar, de ir além da ilusão. Não basta ouvir belas e conclusivas falas sobre isso, e abarrotar o cérebro com informações Advaitas. Em Satsang verdadeiramente não estamos preocupados com informações, com conhecimentos, pois isto se torna uma nova crença... mais uma crença.

Portanto, quero lembrar a vocês que nessa semana, teremos a oportunidade de estarmos juntos, mais uma vez, em Jaboatão dos Guararapes, encontro de Recife. Na próxima semana estaremos em São Paulo, que é mais uma oportunidade, e depois disso estaremos no Rio de Janeiro.

Vamos ficar por aqui. Valeu pelo encontro. Nosso próximo encontro será na quarta-feira, aqui pelo Paltalk, mais uma vez. Namastê!


*Fala transcrita a partir de um encontro online via Paltallk no dia 20 de Julho de 2015 - Encontros online gratuitos, todas as segundas, quartas e sextas-feiras as 22h. Participe!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

É preciso uma entrega, um foco, uma energia total nisso!


Esse contato com um Mestre vivo vai lhe dar Liberdade, Paz, Amor Real, Felicidade Real, mas Ele não pode fazer isso – embora somente Ele possa fazer isso – enquanto o poder estiver presente, o poder dessa suposta entidade presente aí. 

Então, não se engane. Ele vai, primeiro, ter que despir você desse poder, disso que lhe investe de autoridade para ser "alguém". Tudo o que está investindo você da autoridade de ser "alguém", ele vai ter que despi-lo. Você não decidiu vir, mas você pode ainda se manter, por um tempo, naquela tão comum e habitual resistência ao movimento da vida. E a vida nesse movimento, neste instante, para você é o movimento da entrega: a entrega do poder. Na sua vida, há toda uma ornamentação que investe você de poder e lhe dá essa credencial de ser "alguém" no mundo. O trabalho de um Mestre é tirar isso, porque isso é o peso de ser uma pessoa. Aqui, você precisa perder o medo, soltar o medo, porque, se você não soltá-lo, ele, que é a estrutura na qual o ego e o sentido de "alguém" se apoiam, não vai ruir, nem desabar. 

Despertar, realizar Deus nessa vida é para alguns poucos. O Bhagavad Gita diz algo semelhante a isso: “De um milhão que me procuram, mil me encontram, e, desses mil, um se realiza em mim.” Você não está aqui numa corrida, disputando com outros; você está aqui para ir além desse "alguém" que você acredita ser. Se você quiser algo mais light e dietético, vá assistir a vídeos de outros acordados, ler livros desses mestres, e ver um mestre a cada seis meses... Mas nesse trabalho real o medo tem que cair.

Nesse trabalho real, como o meu Guru me mostrou, é preciso uma entrega total, um foco total, uma energia total direcionada a isso, todos os seus recursos nisso. Você está aqui apenas para isto: Realizar Deus. Todo o seu tempo, toda a sua saúde, todo o seu dinheiro, toda a sua emoção e toda a energia, antes dispensada para um intelecto, preocupado com busca de informações, troca de opiniões, e julgamentos, tudo isso deverá voltar-se para essa realização. Isso terá um preço; o que eu tenho para lhe dar não tem preço, mas o que você tem para me dar vai ter um preço, custar-lhe algo, ou melhor, vai lhe custar tudo!

Essa estrutura de ser "alguém" está montada no poder, naquilo que lhe confere poder. Então, tudo na sua vida que lhe confere poder, o poder de ser "alguém", diante de um Mestre vivo tem que cair. Por isso, o que eu tenho para lhe entregar não tem preço, mas o que você tem que me entregar tem que ter um preço. Se não estiver disposto a fazer isso, essa estrutura de poder se mantém, o ego se mantém, a ilusão se mantém e não há Deus, não há Realização.

Por isso que Buda, Jesus, Ramana e todos os outros falaram, apontaram para esse desistir do poder de ser "alguém", assentado no dinheiro, na saúde, enfim, em qualquer outra coisa. Onde a estrutura de ser "alguém" estiver assentada, essa estrutura vai ter que ser explodida pela dinamite da Graça. Por isso, o tema de todas as minhas falas, pelo menos das falas mais diretas, dentro de encontros presenciais, todas giram em torno da entrega, da rendição, do se aquietar, do deixar nas mãos de Deus, do entregar à Graça, do sair do controle, do sair do volante, do sair dessa suposta liberdade de comando e ver claramente o quanto você é dependente dessa Presença Divina para cuidar de tudo.

Na prática, a teoria sempre é outra. É fácil se deleitar ouvindo uma fala, mas uma fala não resolve, ler alguns livros não resolve, ver alguns vídeos não resolve...

E, então? O que vocês vão fazer agora?


*Extraído de uma fala em encontro presencial na cidade de São Paulo em Julho de 2015 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Satsang significa Meditação


O que nós tratamos dentro de Satsang, o assunto que, de fato, nos interessa, não é algo que possamos definir ou descrever. Não podemos ter uma aproximação direta disso através de ideias. Assim, nossas falas são sempre limitadas.

É preciso a simplicidade natural de uma mente inteiramente aberta, pois, assim, ela se torna capaz dessa aproximação. É apenas a aproximação da investigação que nós, de fato, podemos ter dentro de Satsang. Nós podemos investigar isso, esse movimento confuso, esse movimento da mente. Aqui, uma mente aberta é uma mente desarmada, e essa é a simplicidade dessa aproximação. Dessa forma, o que ela pode fazer é se abrir para esta investigação, em simplicidade, e, quando isso acontece, essa limitação dela fica exposta. É quando, então, temos um toque real da Consciência, um toque real dessa Presença, nesse processo de desconstrução da mente em sua confusão e limitação.

Por muito tempo você tem se identificado com essa limitação, com essa confusão, com essa desordem, com toda essa tagarelice da mente. Você tem se identificado com esses pensamentos, sentimentos, sensações e emoções. Assim, neste momento, essa mente aberta significa o coração aberto, desarmado, para averiguar tudo isso, diante da constatação dessa inquietude, dessa limitação, dessa confusão. Com isso, acontece um rompimento, um desligamento, uma desidentificação da crença de um “eu” presente. Quando há essa desidentificação, esse mundo especial criado pelo pensamento, pelas imagens, por crenças, julgamentos, opiniões, desejos e por todo esse medo, desaparece. Nesse momento você se depara com o silêncio, com o fim da mente.

A natureza da mente é sempre estar ocupada, envolvida com alguma coisa. Assim é todo esse processo da imaginação. É esse o mundo que termina; o mundo que, quando constatado e visto, desaparece. Nesse momento, você pode repousar, descansar, no coração. Assim, essa abertura traz esse descanso, essa constatação permite o relaxamento e a quietude, e esse silêncio está dentro da Meditação.

Agora mesmo você pode acompanhar essa fala acontecendo, todas essas palavras sendo colocadas em Satsang. Quando você acompanha isso dessa forma, esse investigar, que é apenas um olhar sem pretensão alguma para esse movimento da mente, faz com que o sentido do “eu” fique inteiramente desarmado, e, sem resistência, ele termina desaparecendo.

Então, há este observar sem se confundir, sem se embolar com a mente. É como tomar ciência de que as nuvens no céu estão sempre passando... Enquanto o céu permanece, as nuvens passam. Assim, esse céu da Consciência, dessa Presença, desse Silêncio, dessa atenção sem qualquer escolha, permanece, enquanto pensamentos, sensações, sentimentos e emoções passam. Essa Meditação é o seu Estado Natural, que não está ligado a absolutamente nada. Assim, você permanece sem se ligar a pensamentos, ideias e crenças. Permanece como essa Presença que presencia tudo isso, agora mesmo, enquanto você está aqui.

Escutar essa fala é como se tornar ciente de um pensamento presente. Você é a Presença se tornando ciente desse pensamento; você é a Presença nesse ouvir dessa fala. Sempre, em Satsang, você está sendo conduzido a essa constatação do seu Estado Natural, que é Meditação. Satsang significa Meditação. Não se trata de refletir sobre ideias e pensamentos, mas sim permanecer desidentificado de ideias, crenças e pensamentos. Significa permanecer nesse silêncio do seu Estado Natural, agora, não mais preso a nenhuma ideia, nenhum pensamento, sentimento ou sensação particular. Isso significa estar neste testemunhar, além da ideia do testemunhar. Significa permanecer como Consciência, além da ideia de uma consciência – nesse estado sem pretensão.

Permaneça, neste momento, como Consciência presente, como Presença presente, sem intenção, desejo, motivo, ou tentativa de segurar alguma coisa... nessa lembrança sem pensamentos. Essa constatação é a lembrança desse silêncio presente, como Consciência do seu Estado Natural. Meditação é isso. Meditação é o seu Estado Natural.

O que todos anseiam profundamente é essa lembrança: a lembrança do Estado Natural, desse estado livre do medo, livre de conflitos, livre de todo esse desespero, de toda essa aflição, de toda essa resistência que o pensamento produz. Essa é a realização da liberação!

Vamos ficar por aqui. Valeu pelo encontro, por mais este momento juntos. Até o próximo encontro.

*Extraído de um encontro online via Paltalk ocorrida no dia 15 de Julho de 2015 

 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Investigando a natureza da experiência

Esse é mais um encontro onde a natureza da experiência é investigada. Aqui investigamos a natureza da experiência e, ao investigá-la, nós percebemos claramente algumas coisas: a primeira é a dependência dessa experiência de sua Fonte, portanto, a primeira coisa importante é compreender que nenhuma experiência está separada da Fonte. 

Nós temos equivocadamente creditado à experiência uma independência que ela não tem, e temos como exemplo disso o próprio pensamento. É interessante notarmos que nós valorizamos o pensamento em detrimento da Fonte, pois, para nós, ele tem muita importância, e uma autonomia, independência e valorização muito grandes. Então, a primeira coisa está neste engano. Em razão disso, você se confunde com o pensamento, porque ainda não está claro que ele não é algo independente. Isso ainda não ficou claro para você.

Não há nenhum pensamento que esteja separado da Consciência, desta Consciência. O pensamento é somente um aparecimento, uma aparição; ele não é independente da Consciência. Então, a segunda coisa aqui é a intermitência, pois o pensamento é algo intermitente, enquanto que a Consciência permanece sempre presente. Durante o dia, seus pensamentos estão sempre mudando, mas a Fonte, onde eles aparecem, não muda. Então, os pensamentos são intermitentes, enquanto que a Fonte permanece imutável. A Consciência permanece imutável, enquanto os pensamentos permanecem mutáveis e intermitentes.

Portanto, esse é o segundo aspecto claro e importante da experiência, e, aqui, a gente usa o exemplo do pensamento, mas isso pode ser visto, também, em toda e qualquer experiência emocional. Ela não está separada da Fonte, em primeiro lugar, e, em segundo lugar, ela é intermitente, mutável. Um outro aspecto de toda e qualquer experiência, seja um pensamento, uma emoção, uma sensação, é que estamos diante de algo limitado, e o sinal dessa limitação está no fato de poder ser descrito, além de estar centrada em um determinado mecanismo, organismo. A experiência é algo que acontece para alguém, como pensamento, emoção, sentimento; algo muito particular, pessoal, e, portanto, algo muito limitado.

Aqui, investigamos, ainda, o terceiro aspecto muito claro de toda e qualquer experiência. Nosso interesse em Satsang vai além dessa natureza intermitente e limitada, e ilusoriamente autônoma, que é a natureza de toda e qualquer experiência. Nosso interesse em Satsang está na Fonte, que É a Consciência. A Consciência é essa Presença não pessoal, não intermitente, não mutável e não limitada da experiência. Aqui, a sua vida centrada na mente egoica é a vida centrada na natureza da experiência, que é intermitente, mutável e limitada. Aqui está a "pessoa" e você se confunde com isso; você se confunde acreditando "ser alguém", uma "pessoa" vivendo uma vida pessoal, particular, dentro dessa intermitência, mutabilidade e limitação da experiência - aqui está o "eu".

Tudo em sua vida, com base no pensamento, na emoção, no sentimento, na interpretação dada a qualquer sensação, está baseado nisso. Acompanham isso? Essa é só mais uma forma de falar, para você, aquilo que temos falado, e estamos falando, vez após vez, após vez. Palavras diferentes, tratando sempre da mesma coisa, dessa ilusão de "ser alguém", mas de uma forma mais dura, eu diria. De uma forma mais direta eu diria: a ilusão do sentido da "pessoa", presente nesse instante, não é real!

Não há absolutamente "alguém" presente. Essa intermitência,“essa autonomia”, essa limitação da experiência estar confundida com isso é somente a ilusão de "alguém", agora, aqui. Não tem "alguém" agora, aqui; não tem você dentro desse corpo, agora, aí. Essa experiência sensorial de ouvir tem exatamente essa qualidade, carrega esses aspectos. Eu aqui enumerei apenas três aspectos, porém, na verdade, há muitos outros aspectos ligados a essa experiência, mas não tem "alguém", agora, aqui, dentro do corpo. Não tem você ouvindo, pois esse ouvir é só uma experiência não separada da Fonte, que é Consciência. A Consciência não sabe nada sobre intermitência, autonomia e limitação; Ela não está interessada, como a mente egoica está, em traduzir, interpretar, tentar fazer ou acreditar poder fazer alguma coisa com isso tudo.

Enquanto você mantém a ilusão desse personagem, que você acredita ser, confundido com essa limitação, que é a limitação da experiência, acreditando ser o experimentador disso, uma "pessoa" nisso, a ilusão se mantém. Então, o sofrimento da pessoa é a ilusão de que a limitação da experiência é a vida de "alguém". Sem a ilusão desta experiência, da identificação com ela, que é supostamente autônoma, intermitente, ilimitada, não há sofrimento, e assim a Vida se revela Naquilo que se apresenta, como Isso que É, como Aquilo que É. Claro isso?

Então, eu lhe recomendo abandonar a ilusão de estar identificado com o corpo e suas experiências. Estar identificado com o corpo e suas experiências é acreditar ser "alguém" presente, e, assim, a vida não é a Vida, é só a "minha vida", e a "minha vida" é ilusão, a ilusão do “eu estou aqui”, “eu sou alguém”. Desta forma, o que está acontecendo tem sempre que favorecer esse “alguém que eu sou”, dar tudo certo para esse “alguém que eu sou”, e estar tudo sob o controle deste “alguém que eu sou”: "eu não tenho isso, mas preciso ter"... "Eu não ganhei, mas preciso ganhar"... "Eu perdi, mas eu não aceito". E assim nós temos muitos modos de fazer uma aproximação equivocada daquilo que acontece, disto que acontece. Você está viciado nisto, em ser "alguém"; você é uma figura muito importante. Tudo o que aprendeu, até hoje, foi para ajudar você a "ser mais você". Você ouviu muitas falas, leu muitos livros, teve muitos estímulos. Existem milhares e milhares de livros de autoajuda e todos eles estão prontos para "ajudar você" a acreditar em "si mesmo".

Participante - As necessidades físicas e financeiras nos prendem. Há uma identidade pessoal, cheia de responsabilidades e de ocupações. Até posso não me preocupar muito, mas a necessidade de ter dinheiro e cuidar da família, sempre, estão ali. Acho difícil lidar com isso. 

Mestre Gualberto: Sendo assim, livre-se de tudo. Livre-se da ideia de que está dentro do corpo, de que é "alguém" presente dentro do corpo. Livre-se da ilusão de ser "alguém". Assim, a ilusão dessas necessidades financeiras e dessa ilusória identidade pessoal, cheia de responsabilidades e ocupações, desaparecem.

Você continua dizendo: _ "Até posso não me preocupar muito, mas há a necessidade de ter dinheiro e cuidar da família". E eu lhe digo: livre-se da família. Vá além da ilusão de ter alguma coisa, de estar em relação com um mundo do lado de fora, de ser responsável por este mundo; vá além da ilusão de ser dono, proprietário, de alguma coisa chamada família. Livre-se da ilusão de ser "alguém", e aquilo que você, hoje, chama de família continuará aparecendo, mas não mais nessa ilusão de responsabilidade de "alguém" que pode, com seus esforços, ganhar dinheiro e cuidar dela.

Se isso não ficar claro, você continuará dizendo “eu acho difícil lidar com isso” e não é verdade. Não é difícil lidar com isso, simplesmente porque é impossível lidar com isso. O ego jamais pode lidar com algo, ou cuidar de qualquer coisa, porém carrega a ilusão dessa identidade pessoal, cheia de responsabilidades, de preocupações, sendo dona, poderosa, e tendo que ganhar dinheiro e cuidar dos outros, que chama de família. Vá além dessa ilusão de ser "alguém", e a vida cuidará de tudo, como sempre fez, sem a sua autoimportância nisso, sem essa ilusão de ser "alguém" dentro disso.

Você não dá uma única respiração porque pode, ou porque quer, entretanto, mesmo assim, se orgulha de ter o poder de ganhar dinheiro e de cuidar de uma família, composta de uma esposa, de dois, três ou seis filhos. Você não sabe, nem mesmo, se vai despertar pela manhã no dia seguinte, e, mesmo assim, acredita, que é o seu trabalho que lhe dá o dinheiro e o poder de cuidar de uma família. Tudo ilusão. Você não controla, nem mesmo, sua digestão, porém acredita ter o poder controlar o futuro dos seus filhos, de cuidar da saúde da sua família. Você não é dono nem do próprio corpo “que tem”, mas acredita ter uma grande família, e uma grande responsabilidade de cuidar dela. Isso é real? Quando fala de necessidades do corpo, ou fala de necessidades físicas, isso é problema seu ou problema da existência? Quem cuida desse corpo, que você diz que "é seu", é a mesma Presença que o faz respirar, ter a digestão, a excreção e tudo o mais.

A única coisa que realmente importa é perder essa ilusão de estar no controle, de ser "alguém" aí. Livre-se da ilusão de ser "alguém", que a vida continua, o corpo continua, a família continua; tudo continua, mas a ilusão de "ter tudo isso" termina. A ilusão de ser "alguém", nisto tudo, termina, porque não há mais “ego”, não há mais “eu” ou “mim”. Ok?

Sua única obrigação, seu único dever, a única coisa que você, de fato, precisa fazer, é cair fora disso; cair fora de toda essa ilusão. A única coisa que lhe compete fazer, é abandonar o sentido de separação. A única coisa que você está fazendo aqui, seu único dever real, é abandonar a ilusão de ser "alguém". Só há um propósito, que é o de realizar sua Verdadeira Natureza. Ninguém pode realizar Isso em seu lugar, portanto este é o seu único dever: realizar Isso, nesse instante, aqui e agora.


*Transcrito a partir de um encontro online via Paltalk no dia 08 de Junho de 2015


segunda-feira, 13 de julho de 2015

A origem de todos os problemas



Vocês escrevem para mim: "o que fazer com o desejo, com o medo, com a preocupação, com a ansiedade?" O problema não é o que fazer com isso, o problema é: quem está aí tentando fazer alguma coisa? Esse é o problema. Quem está aí, tentando fazer algo? Você não percebe que está fugindo de um perigo por uma porta que é a entrada do mesmo espaço onde o perigo está presente. Você acredita que pode escapar por esta porta, mas ela é a porta de entrada do perigo do qual você quer escapar. Você não está indo para fora e sim entrando ainda mais na situação. O problema todo é que você está procurando, no pensamento, uma solução para o problema criado no próprio pensamento. E quem é que está fazendo isso? Tudo o que você não quer, você confirma como uma verdade para si mesmo quando nega, quando rejeita, quando tenta escapar disso.

Eu vejo frases como essas: “eu não suporto esse ego”; “eu odeio esse ego”; “a mente está jogando sujo comigo”. O ego não é seu inimigo. O ego é a ilusão de que você tem um inimigo. “A mente está aprontando comigo..." Não é verdade. É tão curioso esse truque, porque você culpa a mente, o ego, de alguma coisa. Você não percebe que isso é o próprio ego se separando. Você não tem um inimigo. Não há nada acontecendo na sua vida sendo provocado pelo ego. Tudo, absolutamente tudo, é Deus fazendo, para acordar você desse sonho de resistência ao que É, ao desafio, ou à expressão da Vida como Ela é. Ela é assim. Se não há essa separação, não há conflito.

Você se depara apenas com um desafio, com uma expressão da Consciência, para você despertar dentro desta Consciência, nesta Consciência, para esta Consciência... Despertar desse incidente, desse evento, desse acontecimento, que ainda é a Consciência... Despertar para a Consciência como a única coisa. Para cada um, para cada organismo, cada mecanismo, esses "desafios" se apresentam de uma forma: para um é o desafio da saúde, para outro é o desafio do dinheiro, para outros é o desafio do relacionamento, etc. E está tudo no lugar... tudo no lugar. Mas, se você continuar ouvindo o que a mente diz, em sua imaginação, aí dentro da sua cabeça, ou através da boca do outro, que é a mesma mente falando, continuará na ilusão de "ser alguém", sempre com problemas.

Pare de ouvir o que a mente diz aí dentro da sua cabeça, que, assim, você para de ouvir o que quer que a mente esteja dizendo através da boca do outro. Você tem que começar aí em você; tem que parar de acreditar aí no que a imaginação diz; tem que ser livre aí; parar de sonhar aí, e, somente então, poderá dizer para alguém: "você está sonhando, isso é só um sonho. Eu já passei por esse sonho também, e vi que isso era um sonho. Você está nele, mas é só um sonho...”

Isso é um trabalho para cada um de vocês... Um trabalho da Graça, da Consciência, da Presença, do Mestre dentro de você, do seu Guru, mas você tem que ouvi-lo. Você acha que vai conseguir me ouvir sem ouvir o seu mestre interno? Você acha que seu mestre interno está dizendo algo diferente do que eu estou dizendo? Você acha que pode, sem ouvir aí dentro, me ouvir aqui?

E agora?

Se você continuar a acreditar na pessoa que você acredita ser, vai continuar a acreditar em pessoas à sua volta, e se comprometer com elas. Pessoas do lado de fora são tão ilusórias quanto a pessoa aí do lado de dentro. É nesse sentido que esse relacionamento que nós estamos mantendo uns com os outros é uma fraude. Ego não apóia ego, não o ajuda, não torna outro ego sábio, não dá felicidade para outro ego, e vocês "estão" no ego, sendo pessoas, esperando isso dos relacionamentos. Querem até salvar o outro! Vocês querem até salvar o mundo!

Há três dias que o corpo aqui está resfriado, e você vê que a voz está diferente. Agora, o que isso tem a ver com o que Eu Sou? Isso mudou o que aqui? Se o corpo fica febril, com tosse, ou com coriza, ou um mal-estar típico dele, isso é ele, não Sou Eu. Porque a mente diz coisas aí, ela não é sua inimiga, como o corpo não é meu inimigo. O corpo é só uma limitação quando está com uma debilidade. Quando a mente diz coisas aí e produz, em sua fantasia, estados de todos os tipos, ela é sua inimiga, ou está apenas fazendo o trabalho dela? Percebem o que estou dizendo? Quando o corpo está doente, debilitado, qual o problema? O que há de errado com o corpo? O corpo vai morrer mesmo... É a natureza dele, é a natureza da mente. Isso não faz do corpo o seu inimigo; não faz da mente a sua inimiga. Agora, se você se identifica com a mente e se separa, acreditando poder mudar o que ela produz na sua imaginação, aí você tem um inimigo imaginário. E quem tem um inimigo imaginário? Quem? O próprio sentido de "alguém" presente é a ilusão de alguém querendo mudar alguma coisa que não tem conserto.

A cada dez minutos, ou quinze, ou cinco, ou três, passa um avião sobre este espaço. Qual é o problema? Eu poderia tornar isso um problema: "isso vai me impedir de ouvir a fala acontecendo"; "vai me impedir de falar e vai quebrar minha linha de pensamento". Eu tenho que ter uma linha de pensamento? Eu tenho que estar aqui ouvindo, criando uma resistência ao fato de que a cada cinco ou dez, quinze minutos, passa um avião para interromper o que é tão importante para eu ouvir aqui? É assim que surgem os inimigos que vocês têm. Todos imaginários... Todos! O ego é esse inimigo imaginário, e cria todos os outros inimigos. Se faz frio, está frio, se faz calor, está calor, se o pneu fura, vou chegar atrasado. Você está lidando com a vida como ela se mostra. Para que colocar um inimigo dentro disso?

Eu posso viver sem conflito? Essa é a pergunta. É possível a vida sem conflito, sem sofrimento? No fundo, vocês estão viciados nisso. Já ouvi até alguém dizer: “ah, deve ser muito sem graça viver a sua vida, deve ser muito estranho viver assim, deve ser monótono viver como você vive”. Já ouvi isso. É... deve ser.

O problema com vocês é que vocês querem mudar o que É. Eu não quero, eu estou feliz. Para mim, tudo é Deus... Tudo é Deus e nada é Deus... Nada é Deus, mas tudo é Deus (risadas).

Eu não me identifico com o que acontece. É só um jogo. O que está acontecendo agora, daqui a pouco muda, é outro modelo,  outro formato, outra configuração. E daí? Eu estou colocando para você o que você precisa assumir aí, para descobrir o que é viver com sabedoria, com amor, com liberdade, com felicidade. Você faz as circunstâncias serem tão importantes que sucumbe. Quando as situações, as circunstâncias, são alegres, você está alegre; quando elas são tristes, você está triste. O problema não é estar triste ou alegre, o problema é você acreditar que está, aí, podendo mudar o mundo.


*Extraído de uma fala de um encontro presencial na cidade de São Paulo em Fevereiro de 2015

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Um Grande Jogo Divino


A gente acredita que o mundo é uma coisa evidente. A gente não tem esta ideia de que o mundo é uma coisa evidente?

Eu quero dizer a vocês que ele não é evidente. Só é evidente Aquilo no qual o mundo aparece. Você não pode provar a existência do mundo para mim, nem para você mesmo, separado Daquilo que é Você.

É você quem fala acerca da evidência do mundo, não é o mundo que reclama evidência. O que quero dizer é que o que vemos e o que experimentamos não é real, separado Daquilo que é Você. O que estou dizendo é que não existe nenhuma experiência, nenhum mundo separado Daquilo que é Você.

Isto é importante. E por quê? Porque isto desmantela completamente a ideia que temos de que estamos vivos e podemos morrer; que o mundo existe. Nada disso é evidente. Não é uma experiência real. Nascer e morrer não são experiências reais, porque o mundo não é real.

Qualquer experiência que você viva no mundo está dentro desta ideia de que o mundo existe como algo separado de você. Porém, isso não é real, não é algo evidente. É a Presença, que é Você, que dá essa aparente evidência ao mundo e a qualquer experiência que você tenha - inclusive nascer e morrer. A experiência em si não é real.

Você não nasce e não morre exatamente por isso: porque você não existe, como forma, no mundo, e o mundo não existe, também como forma, separado Daquilo que Você É. O que estou dizendo é que só existe essa Presença, na qual tudo parece aparecer - e que também só parece aparecer.

Então, não há evidência nenhuma aí, separada Daquilo que é Você. Isso é muito simples. O que estou dizendo é que essa Presença, que é Você, dá realidade a qualquer aparente experiência que você tenha. Estou afirmando que você não pode me provar sua existência apontando para o seu corpo e dizendo “eu estou aqui”, pois eu te pergunto: aqui onde? Essa sua localização no espaço e no mundo não é uma evidência para mim. Só é uma evidência para mim Aquilo que Eu Sou, e no Qual você aparece como forma. Talvez você tenha que ouvir isso de novo: o que estou dizendo é que sua altura, largura, seu peso, a cor da sua pele, e qualquer percepção sensorial que você tenha do mundo, só tem uma evidência, que é a evidência da sua Presença.

As percepções e evidências isoladas, bem como as experiências separadas, não existem. O que estou dizendo é que o mundo não reclama evidência de existência; que nenhuma sensação e percepção sensorial reclama evidência de existência - somente essa Consciência, que percebe tudo isso acontecendo. E isto tudo está acontecendo nesta Consciência, não fora Dela. Então, não há mundo fora Dela. Os sentidos – tato, audição, olfato, paladar, visão - nada está acontecendo separado Disso que É Você, que não é uma experiência, nem uma sensação; que não é uma aparição; que não nasce e não morre. Isso põe fim completamente a essa ideia “eu e o mundo”.

Não há "eu" e não há "mundo". O som que você escuta, as cores que você vê, as formas, tudo isso que aparece e desaparece, antes de, aparentemente, ser assim, Isso que Você É já É – Isso que não aparece nunca. Por exemplo: nós estamos aqui, mas essa é uma aparição nessa Consciência. Antes dessa aparição aparente, isso já estava presente nessa Consciência. Tudo já está presente na Consciência, até que Ela o manifeste.

Então, não há futuro, como não há passado, para a Consciência, que é seu Estado Natural, atemporal. Estamos aqui, num grupo, e alguém novo chega... Mas isso é só uma aparição. Para a Consciência não separada, para Ela, na qual não há qualquer experiência, não tem nada novo acontecendo; isso não é uma novidade, não é o futuro se desdobrando.

Agora mesmo, estou falando essas coisas aqui, vendo isso com você, mas, na sua Real Natureza, não há nada novo. A mente, que se move na ideia de presente, passado e futuro, tempo e espaço, fica abismada com Isso, tentando entender e ajustar Isso a uma experiência; entretanto, não há como fazê-lo, pois Isso não é uma experiência. O Ser, Consciência, Presença, não é uma experiência. 

Presente, passado e futuro não existem. O mundo não existe. O nascer e o morrer não existem. Formas, peso, altura, largura, profundidade... Nada disso é a Real Experiência. Podemos até dizer que o Ser é essa Real Experiência, ou poderíamos, também, dizer que o Ser não conhece nenhuma experiência. Estamos dizendo a mesma coisa, utilizando palavras diferentes. Isso é o fim da dualidade, isso é o fim da ideia “eu sou o corpo, eu estou no mundo”.

Agora mesmo, o corpo sente alguma dor ou algum desconforto, mas isso é um corpo; nada disso é uma experiência para a Consciência. É somente uma aparição, porque a Consciência jamais é tocada por qualquer acontecimento – qualquer acontecimento aparente. É um grande jogo Divino. Não tem nada acontecendo, e, ao mesmo tempo, tudo está acontecendo neste presente momento.

O fundamento de tudo, de toda aparição e desaparição, de tudo o que acontece e não acontece, e, ao mesmo tempo, a liberdade de tudo isso, é essa Presença real que é Você, em sua Natureza Essencial, além do corpo e do mundo; e além do “eu”, que é só uma ideia que aparece. Nessa noção de “corpo e mundo”, tem sempre a ideia de um “eu” dentro do corpo, experimentando o mundo e vivendo sua vida, mas isso não é real.

Ser é a Vida sem opostos. Os opostos "vida" e "morte' são só ideias, conceitos. Paz, silêncio, liberdade, felicidade e beatitude são a Natureza Essencial, não qualidades desta Presença, desta Consciência; são a própria natureza dessa Consciência, dessa Presença.
 
Realização é ser o que Você É – beatitude, paz, felicidade, liberdade. Realização é a verificação do simples, do Natural Estado de Ser que é Você – sua Real Natureza. Não se trata de qualidades suas, mas sim de sua Natureza. Tudo aquilo que vem e vai, aparece e desaparece, e tudo o que pode ser adquirido e será perdido um dia são qualidades, não a Natureza. Qualidades se adquirem, Natureza não se adquire.

O corpo apareceu... vai desaparecer. As virtudes podem ser adquiridas, entretanto aparecem e desaparecem. Aquilo que não é você em sua Real Natureza pode até aparecer como uma qualidade, mas, como não é você, é somente uma qualidade, uma virtude, algo que você ganhou, conquistou, adquiriu; é parte da experiência do mundo, algo sem evidência real.

Real é a sua Natureza, e é Ela que dá a liberdade para que as qualidades apareçam, porém está livre dessas qualidades. Ela dá liberdade para que o mundo e o corpo apareçam, e, até mesmo, para que essa ideia do “eu” apareça. Mas isso não dá evidência nenhuma a nada disso, pois essas aparições são somente aparições. É essa Presença, Consciência, Verdade, que É Você – Aquilo ou Isso que conhece tudo o que vem e vai. Este é o Real evidente.

Não há nada separado Disso. Então, não pode ser conhecido, mas pode conhecer tudo. Repare: Isso não pode ser conhecido, mas pode conhecer tudo, porque tudo só aparece e desaparece Nisso. Assim sendo, tudo o que você experimenta – qualquer objeto, qualquer sensação – nada disso tem qualquer realidade separada dessa Presença, dessa Consciência, na qual a coisa está acontecendo ou aparecendo.

Não há nenhuma certeza de nada, e nem evidência de coisa alguma - nomes, cores, formas e assim por diante. Somente a Consciência é real, essa Presença não experimentada, não conhecida e não explicada, sem qualquer qualidade.
Somente essa Consciência é real: O que conhece, sem jamais ser conhecido; O que aí está, sem jamais desaparecer.

É isso aí.

*Extraído de um encontro presencial em Imbariê em Dezembro de 2012


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