sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Na Plena Atenção não há Alguém - Patalk Satsang


Olá pessoal, vocês têm alguma pergunta?

Participante: Às vezes, eu tenho algumas perguntas, mas quando chega a hora de Satsang eu esqueço.

Mestre Marcos Gualberto: Reparem que nós estamos investigando o pensamento e todo o conteúdo da consciência. É só o que podemos investigar. O pensamento é igual a qualquer outra aparição; algo que vem e vai. Você tem uma pergunta, mas se ela não é feita, então, desaparece. Uma pergunta é uma corrente feita de pensamentos. Que importância tem aquilo que aparece e depois vai embora? Há algo aí que não é esquecido. Esse algo é onde o pensamento aparece; é onde o esquecimento acontece e a lembrança, também.

Para nós a percepção sensorial do mundo é algo muito real, assim como o pensamento é bastante real, mas o pensamento tem a qualidade da percepção dos sentidos. A sua experiência de mundo é como a sua experiência mental. O pensamento tem a mesma qualidade do que é material. Eu estou dizendo que o pensamento é um objeto, como qualquer objeto que os sentidos experimentam.

Geralmente nós dizemos “eu estou vendo essa árvore, eu estou ouvindo esse som, eu estou pensando sobre isso”. A experiência é algo mudando, e, portanto, o som, a visão da árvore e o pensamento não permanecem. Não é certo dizer “estou pensando sobre isso, estou vendo essa árvore, estou ouvindo esse som”, porque nada disso permanece. Toda experiência tem a mesma qualidade, que é a  qualidade da impermanência. Seria mais preciso dizermos “ver a árvore, pensar sobre isso, ouvir esse som”,  tirando o pronome eu e ficando com a experiência que não permanece. No entanto, há algo que torna possível essa experiência, que não permanece, não é imutável e não nos permite afirmar “eu, eu vejo, eu penso, eu escuto”: a verdade. É a verdade que permite essa experiência, onde o ver, o pensar, o ouvir e a ideia de alguém presente estão aparecendo.

Quando você está comigo em Satsang, eu estou nesse encontro com a verdade, apontando para você aquilo que não é uma experiência, e que, por natureza, está mudando; não é a ideia de "alguém" presente nessa experiência. Estou sinalizando para você a importância da verdade, que é aquilo que torna isso possível. A dualidade é o conceito de um "eu" na experiência,  pensando, ouvindo e vendo; assim é a sua experiência do mundo. Você não pode afirmar a verdade do mundo, com base num "eu" que experimenta algo sensorial e que está mudando todo o tempo. Esse "eu" é apenas uma ideia ligada a essa experiência, porque só há o ouvir, o ver e o pensar.

A sua experiência do mundo é tão ilusória quanto você nessa experiência. Só lhe resta aquilo onde a experiência e o eu aparece. No sono profundo não há a experiência do "eu" vendo, ouvindo e pensando. Se você, agora mesmo, fechar os olhos e não experimentar um único pensamento aí, inclusive o pensamento "eu sou o corpo", não haverá um "alguém" experimentando. No entanto, algo permanece, algo desconhecido e indescritível, fora de definições e experiências: a Verdade, que está além da mente, porque a mente, aqui, pressupõe a presença de um "eu experimentando esse ver, ouvir, pensar, e toda e qualquer experiência. É aqui que se situa todo conflito humano, que é a ideia de "alguém experimentando o mundo". Isto é a dualidade, com a ideia de "eu e o mundo", "eu e minhas certezas, ou incertezas e dúvidas", "eu e minhas experiências". Quando falamos de ego, estamos falando da ilusão de "alguém experimentando o seu mundo". Estou dizendo o seu mundo, porque não há nenhum mundo separado desse eu; não há nenhum eu separado desse mundo. Repare que eu não estou negando a experiência, estou negando o experimentador. A experiência é parte da aparição nessa Consciência. Essa Consciência é aquilo que chamo de Presença, Ser, Verdade, sua natureza real. Então, há somente a experiência acontecendo e mudando, mas sem "alguém" nisso.

Quando você se identifica com o corpo, dá a essa experiência uma identidade, que quer se livrar da experiência de que “você é o corpo”, isso somente quando a experiência é desagradável. Quando a experiência é agradável ela diz “ótimo, estou bem”, mas quando é desagradável ela diz “estou mal”. Isso vale para tanto para a experiência “eu sou o corpo", como para a experiência "eu vejo essa árvore", "eu escuto esse som", "estou pensando sobre isso". É a mesma coisa.

Em sono profundo, não há a experiência de estar bem ou mal. Apenas observe que isso está mudando, que não é permanente, nem bem-estar ou o mal-estar para "alguém" aí. É assim para toda e qualquer experiência. Seja só o que você É, esse espaço que é livre, enquanto a experiência está mudando. Não há o "eu" pensando ou sentindo esse mal-estar ou bem-estar, ficando, apenas,  esse ilimitado Espaço, que eu chamo de Presença, que não reage e, simplesmente, abraça e acolhe a experiência que está passando; é a natureza de toda a experiência a passar. Assim, acontece um desidentificação da ideia de ser o corpo, além da desidentificação da ideia "estou vendo", "estou ouvindo" ou "estou pensando". Desta forma, o sentido de dualidade termina.

Você deve trabalhar isso momento a momento, em cada segundo da sua vida. O convite da mente vai ser sempre para situar você como um "eu" experimentando o mundo, de dentro do corpo. Estou, aqui, dizendo que você não é o corpo, nem essa experiência dos sentidos. Você está além do corpo, você não está nessa experiência mental. Você está além da mente.

Participante: A única maneira de não se confundir é estar sempre atento a si mesmo? Seria o mesmo que estar presente, consciente?

Mestre Marcos Gualberto: Escute isso, você disse: “A única maneira de não se confundir é estar sempre atento em si mesmo?” 

Em "si mesmo" você não está atento, porque a plena atenção não tem esse si mesmo. Você diz “seria o mesmo que estar presente, consciente?”, entretanto há somente a Presença, não há "você" presente e, quando há Consciência, não há "você" consciente. Você consciente, assim como você presente, atento a si mesmo, isso é só uma crença. Quando há plena atenção, não há esse "si mesmo". Quando há plena Presença, não há esse estar presente. Quando há Consciência, não há isso de estar consciente. Essa pergunta está fundamentada na ideia de "alguém fazendo alguma coisa".

Participante: Ainda é o eu... puxa vida. Obrigado, Mestre.

Mestre Marcos Gualberto: Que bom que você percebeu. É o mesmo truque da mente, o tempo todo. É sempre a mente lhe dando a ideia de que você está experimentando isso. Só tem a experiência, tenho falado muitas vezes isso. Há somente o experimentar, não tem você. Agora mesmo, só tem o experimentar; relaxe, não rejeite, não fuja, não busque mudar o que já está mudando. Toda e qualquer experiência que você esteja vivenciando nesse instante não é você.

A pergunta permanece, sempre a mesma, aqui no caso: quem é esse mesmo atento a si mesmo? Quem é esse que está presente e consciente? Quem é este que está sentindo frustração, decepção, tédio, solidão, medo, cansaço, uma certa energia ou uma falta de energia? Quem é esse que está sentindo enjoo e dor de cabeça? Estou dizendo para você: só há essa experiência, que é viver sem "alguém".  Não se trata de estar consciente, mas tudo acontece nessa Consciência, que é liberdade, porque Ela nunca é tocada, quando o corpo e a mente estão sendo tocados.

Participante: Quando a gente faz essa pergunta “quem está sentindo dor?”, parece que existe alguém que se separa de quem perguntou. Essa dor não some, continua existindo, mas esse que perguntou pode observar essa dor e acolhê-la num processo natural, até se extinguir.

Mestre Marcos Gualberto: Sim, porque essa dor é uma experiência, como todo o resto passando, enquanto que aquilo onde a dor está aparecendo permanece sem ser tocado. Então, quando a pergunta “quem?”, ou “o que é isso?”, é feita nessa dor, o "que é isso" que experimenta, que sente? Nesse momento há Consciência, que está desidentificada da experiência. Essa Consciência está acolhendo a experiência, como algo que aparece nela; não rejeita a experiência, não a bloqueie ou reprime. Apenas, nesse instante, você está de volta à Fonte.

Isso é Meditação, Consciência e Presença. Isso é o real Trabalho. Então, você usa toda e qualquer experiência nesse trabalho e, desta forma, se mantém na experiência de ver, de ouvir, de pensar, de uma dor física ou de um prazer, mas não se confunde com o corpo que experimenta, nem com a mente que analisa. Isso é fascinante, pois você descolou do "eu", do "mim", do senso da pessoa, que mantém uma identidade, seus desejos, suas frustrações e crenças particulares, seus preconceitos e assim por diante.

Isso é a Verdade, que não é pessoal, algo particular. Ela não é exclusiva.

Namastê.

Fala transcrita e revisada a partir de um encontro via Paltalk Senses no dia 18/02/2015
Encontros as segundas, quartas e sextas às 22hs - Baixe gratuito o Paltalk e Participe! 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Busca da Realização Pessoal como um Substituto para o Medo - Satsang



Trabalho, para nós, é sinônimo de realização pessoal. O joão-de-barro constrói uma casa para morar com sua fêmea. Os pássaros fazem um ninho para poder procriar e, ali, os filhotinhos nascerem. Para onde quer que você olhe, você vê os animais fazendo alguma coisa, mas não há uma realização pessoal ali. O que nós chamamos de trabalho, para eles, deve ter um outro nome. Para nós, trabalho é algo que você faz para se autopreencher. O pássaro joão-de-barro faz a casa e vive um tempo ali com a fêmea; depois eles vão embora e deixam a casa vazia. O pássaro constrói o ninho, tem os filhotinhos, que nascem, crescem um pouquinho e vão embora do ninho; depois os pais abandonam o ninho, sem nenhum apego, deixando-o prontinho. Se você observar um pássaro construindo o ninho vai achar que dá trabalho; isso é uma coisa trabalhosa para nós, mas para ele não há nenhum trabalho ali, aquilo não vai lhe preencher em nada; não há medo da dor, nem o desejo de prazer. 
 
Na natureza, nenhum ser vivo acumula, nem para si, nem para a prole. Na natureza, nenhum ser vivo tem a ideia de que a prole é herdeira e sucessora. Então, na natureza, você não vê peso no trabalho, na existência, enquanto nós vivemos sob essa égide da benção e da maldição. Nós vivemos fugindo da dor e buscando o prazer; o prazer chamamos de benção e a dor chamamos de maldição. O trabalho que fazemos é para escapar dessa maldição e para adquirir prazer. A insegurança e o medo nos colocam sob a maldição. 
 
Tudo isso são apenas crenças de que a nossa segurança depende de nós, da autoria de nossos feitos e realizações. Nós transformamos essa insegurança, que é baseada nesse medo, num esforço e numa tentativa de trabalho. Então, a nossa insegurança nos empurra para fugirmos do medo através da realização pessoal, que chamamos de trabalho. Só trabalhamos com um objetivo: adquirir segurança; esta que não chega nunca, não importa a quantidade de resultado que este trabalho nos traz. O símbolo, a bandeira dessa segurança é o papel-moeda, é a cédula, é o dinheiro. Só trabalhamos por medo, pois o trabalho é aquilo que inventamos para substituir esse medo, essa insegurança. O sentido de autoria, de realização, nos impulsiona a esta escravidão, a esta limitação, a esta busca de realização pessoal chamada trabalho; e tudo isso para obtermos a segurança simbolizada naquela bandeira. Na existência, na natureza, você não vê isso. Todos os seres parecem trabalhar, mas nenhum deles, de fato, está trabalhando. 
 
Trabalhar, para nós, tem o sinônimo de preenchimento e realização pessoal; de medo, de pura insegurança; da direta não aceitação de que a Consciência, a Verdade, Deus, é a única realidade, é a única fonte de provisão absoluta, onde não há falta. 


 

O trabalho do predador para obter a presa não é um trabalho, porque não há ali um preenchimento pessoal na realização de alcançar a presa. Quanto ao pássaro que constrói o ninho para ter seus filhotes, não há um trabalho nisso, também, porque não há um preenchimento pessoal. A presa na boca do predador não é um troféu. A casa construída pelo pássaro, para ter seus filhotes, não é a sua posse e, logo, vão embora e a abandonam. 
 
Tudo o que a mente faz, o faz para uma realização pessoal e este é o trabalho. Ter filhos é um trabalho... isso preenche; traz preenchimento e realização. “A mulher tem que ser mãe”: quem inventou essa fórmula? Por que que toda mulher tem quer ser mãe? Por que todo homem tem que ser pai? A mente criou a fórmula, porque a mente busca o preenchimento em realizações, como ter um filho ou uma filha. Isso é um peso, isso é um trabalho. 
 
Assim, no fundo, estamos na mente, sob o medo, a bênção e a maldição, estas que são os dois lados da moeda do medo. Por isso trabalhamos; não só trabalhamos, como, também, nós aprendemos e evoluímos. Trabalhamos para construir, para nos preenchermos. Aprendemos para evoluir, para nos preenchermos. A “liberação”, “libertação”, é a libertação do trabalho, como, também, do conhecimento, porque a “libertação” é o fim do medo. Você não tem mais a necessidade imperiosa de se realizar tendo filhos, nem de se preencher tendo posses. A existência não nos mostra isso, não nos dá esse modelo de vida. A natureza não nos dá esse modelo de vida, porque foi a mente que criou isso. Nós criamos essa artificialidade toda e transformamos a necessidade simples numa coisa muito complexa, porque isso nos preenche, preenche esse "mim", esse "eu", essa "pessoa" que acredito ser; por esse motivo trabalhamos, trabalhamos por isso. A comparação, a imitação, o modelo social e cultural fazem isso conosco. A mente nos torna medíocres e nos coloca para trabalhar.


 

Um dia Cristo disse: "olhem para os pássaros, não semeiam nem colhem, mas o Pai alimenta todos eles. Olhem os lírios do campo, que nem tecem, nem fiam, mas nem mesmo Salomão, em toda sua opulência e glória, vestiu-se como um deles". Cristo está dizendo que vocês não precisam trabalhar, homens de pouca fé, pois, assim como cuida das aves e dos lírios, Deus cuida de vocês; acreditam que, por acaso, vocês valem menos que um pássaro ou uma flor?

Então, ainda vão sair daqui acreditando que precisam trabalhar? Ainda vão sair daqui acreditando que são os autores e realizadores dos próprios feitos? Ainda acreditarão nesta coisa de ter segurança porque estão no controle? Ainda estarão buscando este preenchimento numa ação supostamente pessoal, que poderão vir a realizar esta suposta pessoa? Que essa suposta pessoa um dia será feliz, porque conquistou, com a realização do trabalho, a felicidade? 
 
Então, é isso o que falo sobre o trabalho. 
 
Eu não quero saber de trabalhar, e, quanto ao dinheiro, tenho todo o dinheiro que preciso ter. Quanto às necessidades preenchidas, todas estão sendo preenchidas. Tudo isso por uma ação da Graça, que é a provisão, e eu não me importo se ela aparece neste ou naquele formato. Quem se importaria? Quem ficou aqui para se importar? Porque vocês tem que encontrar um modelo através do qual poderão obter ou realizar esta suposta segurança? Porque vocês se limitam a fazer com que esta Fonte jorre, apenas,  através de um pequeno canal, quando têm todos os canais disponíveis, sendo a própria Fonte?; tendo todos os canais e caminhos, toda a inteligência que se faz presente sempre?. 
 
Então, digo que você está além do medo, além da pessoa, além do trabalho e além dos desejos. Você é a Consciência livre do medo e livre do desejo. Esse "além" não é uma transcendência, é o fim dessa ilusão. A Graça cuida de tudo. Deus vem cuidando de tudo. Pode chamar isso de trabalho de Deus, eu prefiro chamar isso de brincadeira de Deus. Se não houver essa Consciência, o que estará presente é o medo. 
 
O detalhe é que se você está com vinte anos, já vem tendo conta desde que tinha cinco anos, até antes disso, e tem alguém pagando por você, sempre, pagando suas contas. Uma criança de cinco anos já gera uma conta enorme e nem tem ideia da conta que faz. Tem sempre alguém pagando por você, e esse alguém é a Consciência, não importa o canal que Ela usa. Agora, se é assim desde que você tinha dois anos de idade, desde quando você saiu da maternidade, porque não vai ser assim até o fim? Por que você tem que se preocupar com contas? Eu não tenho contas. Eu deixo que outros tenham minhas contas. Faça o mesmo e deixe que outros tenham as suas contas. Na verdade, que outros? Não há outros... Outros é a Fonte. Você pode se livrar das suas contas e deixá-las todas com a Fonte, pois é Ela que distribui suas contas, e nem com isso você se preocupa.


Fala transcrita e revisada a partir de um trecho de um encontro Presencial em Recife Fev/2015

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Confiança - Satsang




Aqui, se nós tivéssemos que construir alguma coisa, daria muito, muito trabalho. Como não se trata de construir alguma coisa, eu recomendaria a vocês que apenas confiassem. Está aí um pedido muito complicado para a mente, que foi treinada na desconfiança e vive amedrontada, assustada, mas eu quero afirmar isso para vocês aqui: confiança é uma moeda valiosa. Você  precisa confiar; confiar naquilo que está além de você!

Enquanto você estiver identificado com os pensamentos e aceitar isso como sendo você, continuará na desconfiança. Olhe que coisa simples e extraordinária é isso: poder confiar, poder viver aquilo que você é, de fato, de verdade, não requer muito trabalho, porque não é nenhuma construção - é somente uma atitude interna de entrega. Contudo, não uso muito, aqui, a palavra fé, porque ela geralmente carrega aquele entendimento de rituais, cerimônias, ou um conjunto de conceitos e ideias doutrinárias. Eu uso a palavra confiança.

Temos falado outras vezes sobre a confiança, porque ela caminha junto com a entrega. Se não há confiança, não há entrega. Vocês vieram para encontrar-se consigo mesmos, e precisam de confiança... Confiança para render-se, entregar-se. Tudo é simples assim, muito simples. Nada de teorizar, nada de dar e receber lições intelectuais acerca disso. Você não precisa disso, não precisa mesmo, porque já traz consigo, e é, o Mestre e o discípulo. Você já é todas as escrituras sagradas e todas as palavras dos Sábios, de todos os tempos, que já foram ditas e que serão ditas. É só confiar e, nessa entrega, sentir e perceber isso.

Perceber, para mim, aqui, é sentir diretamente, de maneira tal que sua mente não possa mais convencer  você do contrário; de maneira tal que você saiba claramente, por si mesmo, que não há mais para onde fugir (fugir de si próprio?). Isso acontece quando você volta-se para si mesmo, com toda a força do seu coração... Não é assim? É isso... Quem está enganado? Quem vive com medo? Quem vive assim? Quem desconfia tanto? Quem tem tanto a perder? Quem é esse que acredita nisso? Quem sou eu? Deixe o mundo desabar, deixe tudo cair, todavia fique aí,  inabalável... Sem ser tocado.


Trecho transcrito e revisado de uma fala em um Satsang presencial em 2012

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Vida sem o Eu e sem o Mundo - Paltalk Satsang



Satsang é o encontro de investigação da Verdade, que constitui um espaço não contaminado pelo que acontece. Investigamos essa abertura que é uma transparência e podemos chamar de Consciência. Nós não temos como nos aproximar, de uma forma direta, para verificarmos Isso onde tudo acontece.  Somente pela investigação do conteúdo presente neste espaço é possível este trabalho. Estamos investigando o movimento da mente. Essa Presença engloba todas as coisas e permite que tudo seja exatamente o que é, permanecendo não contaminado.

Assim, a dor e a raiva vem e vão, como todos os conflitos que aparecem e desaparecem, pois são conteúdos nesse não contaminado espaço que chamamos de Consciência. Eles são como as nuvens que aparecem no céu, enquanto o espaço permanece como está, para dar lugar a uma nova nuvem que aparece posteriormente.

Para estar exposto à verdade final é necessário assumir essa Consciência onde nada é desprezado, pois tudo o que aparece é apenas conteúdo. Se você pretende constatar essa verdade final, é necessário não estar identificado com o conteúdo, e aqui estamos diante de algo muito importante que precisa ser visto. Não há nenhum mundo, bem como nenhum "eu" para ver o mundo. Essas ideias de alguém vivendo no mundo significa estar se confundindo com o conteúdo.

A Graça que sempre buscamos nunca esteve ausente. Ela é a Vida, sem a noção de um "eu" presente no mundo, em que há o colapso da ilusão do "eu experimentador" e permanece sempre como um milagre presente. Essa é a Paz, a Liberdade e a Felicidade, que somente ocorre na ausência desse ego experimentador.

Há uma estória Zen onde o mestre pergunta se o discípulo terminou a sopa. O discípulo responde que sim. Então, o mestre diz que está na hora de lavar a tigela. É simples assim:  o pensamento e o mundo sendo experimentados não entram. É a vida acontecendo sem o "eu" e sem o mundo, apenas nesse instante, aqui e agora; apenas o ouvir e o falar, sem "alguém" nessa experiência. Quando a Graça está presente não há nenhuma crença, ideia, afirmação, certezas ou negações, pois não há nada certo ou errado; há somente o direto experimentar, sem o experimentador - a Vida que acolhe tudo.

Tudo o que está aparecendo nesse instante é somente a Vida, sem "alguém" dentro dela. Você é esse espaço sem resistência, rejeição, desejo ou medo. Você é apenas o corpo em seu movimento de tomar a sopa e lavar a tigela, sem propósito ou ambição, não havendo qualquer medo, porque não há desejos e, consequentemente, não há frustração.

Mente é sempre sinônimo de interpretação, logo ela não pode apreciar a vida como se apresenta. A mente sempre colore. É como você ver tudo escuro à sua volta, com óculos escuros, ou tudo amarelo, com uma lente amarela, assim sendo para qualquer cor. A Vida não carrega conflito, mas não é possível para a mente deixar de ter conflito. A Vida é você como essa Presença, transparência, Consciência. O conteúdo não importa, porque são aparições momentâneas com as quais você não se identifica. Você é a transparência que atravessa tudo isso, sendo o espaço onde tudo aparece. Isso é Meditação. Não se confundir com a ilusão da "pessoa" presente na experiência é a verdadeira Meditação.

Obrigado a todos. Vamos ficar por aqui! 

Namastê! 

Fala transcrita e revisada a partir de um encontro via Paltalk Senses no dia 11/02/2015
Encontros todas as segundas, quartas e sextas, às 22 h (horário de Brasília), exceto em períodos de retiros e encontros presenciais que coincidam com os dias de encontro online.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Meditação Real é Consciência - Satsang





- Mestre, Você diz "soltar aquilo que nos faz uma pessoa, nesse mundinho de pai, de marido"... Esse soltar não seria no sentido de abandonar algo que a gente vai fazer também. Por exemplo, o que aconteceu com o Lúcio, com esse chamado da Graça, fez acontecer um monte de coisa no mundinho dele. O mundo vai descolando disso; não é simplesmente abandonar.

MESTRE - Que necessidade seria tão importante para "alguém" tomar essa decisão? Isso é ser muito importante para si mesmo. É valorizar muito a si mesmo. Está querendo agradar a quem? A Deus, a Verdade, a Consciência? Quem faria tal coisa? - Não é isso. Estou lhe convidando para algo muito real. Não saia do lugar onde você está. Apenas não seja uma pessoa ali. Descubra-se como Consciência no seu mundo de relações. É isso o que estamos dizendo.

Abandone essa autoimportância egóica para poder lidar com aquilo que se apresenta, sem esse sentido de medo. Isso é o real trabalho, que você faz no campo ou na cidade, numa montanha, como Arunachala, ou no mercado, como o Saara no Rio de Janeiro. Meditação real é Consciência, Presença, no mercado, na feira ou no shopping. Isso só pode estar diante do seu olhar se você não for cego. De olhos fechados já estamos, há muito tempo, identificados com alguém escolhendo, tentando fugir da vida.

Participante - Mestre, esse estado de Presença que vai se fixando, intensificando-se (o músculo da atenção, como Você mesmo chamou), mas todos os acordados são unânimes que esse momento do despertar é um mistério. Todos os acordados falam que Isso vem, acontece. Eu pergunto isso porque acabei de ler a história do Ramana, dizendo que Ele achava que ia morrer. Isso é um mistério, não é, Mestre?

MESTRE - Mas é só isso que acontece nesse instante. Por que se preocupar com isso? Eu posso lhe garantir que quando caiu aqui eu não estava esperando. O trabalho não é um mistério. A Sadana aqui, o trabalho que Eu prescrevo aqui, não é um mistério. Estou colocando diante de vocês algo que é muito prático. De certa forma, cada um tem o seu Sadana, o seu trabalho. Além disso, Eu não posso. E não importa.

Isso é trabalho da Graça, que é a Consciência, que é Deus, que é o Guru, que é Você em sua natureza Real. O Guru apenas empurra para dentro o externo e o interno puxa de dentro; aí a Verdade assenta no coração, dizia Ramana. É isso.

Participante - Mestre, encontramos o cidadão de Salvador que está deixando a família. Aparentemente isso é uma coisa virtuosa, abdicando para ficar só aqui no Ashram de Ramana. Então, ele não precisaria ter vindo?

MESTRE - Não, não é isto que estou dizendo. Se esse é o Sadana dele, esse é o caminho dele. Talvez não seja o seu. Quem pode dizer o que é aquilo que é? Uma coisa é certa: se você é sincero quanto a isso, a Graça vai cuidar desse equívoco. Se há esse movimento de entrega na Graça, não há equívoco e Ela cuida de tudo. O fato é que cada um tem o seu Sadana, o seu caminho. Quem cuida disso tudo É o Guru, o Mestre, a Presença, a Graça.

Participante - Mestre, eu tenho reparado, nos últimos Satsangs, que ocorrem duas coisas: uma é o que acontece no que Você está falando; outra é uma coisa que acontece entre uma palavra e outra, no silêncio. Neste espaço eu sinto que tem uma borracha apagando o que eu sou. Isso faz algum sentido?


MESTRE - Sentido não, mas o trabalho não faz sentido mesmo. Ele só acontece. Ele não precisa fazer sentido nenhum. Ele acontece para cada um da forma como precisa acontecer. É como está acontecendo com você.

Vamos Terminar. Namaste!





Fala transcrita a partir de um encontro Presencial em Tamil Nadu - Índia - Na cidade de Tiruvannamalai, no túmulo de Annamalai Swami (Iluminado discípulo de Ramana Maharshi no dia 04 de Outubro de 2014

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A Real Felicidade é o Estado sem Ego - Satsang


Nós falamos sobre a felicidade pessoal. Felicidade pessoal é impossível, porque a pessoa é impossível. Felicidade é a Natureza Divina. A pessoa não conhece a felicidade. A pessoa conhece o medo e para fugir do medo ela criou alguma coisa que ela chama de "felicidade", de "liberdade", de  "paz", de "verdade" e de "amor divino".

Isso está fora da mente. O que mais nós podemos falar sobre isso? Todas essas teorias sobre liberdade, felicidade, fé, amor divino, tudo isso é algo criado pela mente. É a sua fuga do medo e a procura de alguma segurança. E isso é a pessoa. Não importa se falamos de uma boa pessoa ou de uma má pessoa. Não importa se falamos de uma pessoa justa ou ímpia, santa ou pecadora, mundana ou não mundana.

O que temos falado é que essa imaginação de "ser alguém" lhe afasta da simplicidade, da naturalidade de ser feliz. Ser feliz é não buscar nada, como a felicidade, o amor, a paz ou a liberdade. Qualquer movimento é um movimento de afastamento dessa natureza básica e essencial, que é paz real, liberdade real, amor real e felicidade real. Isso está fora da mente. É tão simples como deixar de confiar, de acreditar, de depositar segurança nos pensamentos, mas ao mesmo tempo é tão difícil quanto isso, a coisa mais íntima, que é o pensamento.

O problema não é o corpo, mas é o pensamento. Não é o corpo que busca a felicidade, mas é a mente egóica, imaginativa e pessoal, que está à procura disso. O corpo tem necessidades básicas, mas é algo inerte, nele mesmo. Sem o impulso da mente, ele se adapta com facilidade a quaisquer condições, ligadas à sobrevivência, enquanto que a mente não se adapta.

A mente cria supostas necessidades, e é por isso que vocês reclamam a falta de apreciação, sentem-se carentes de chamego (como se diz no Nordeste), de carinho. Vocês têm sempre alguém ou alguns para lhe darem isso, para preencher essa necessidade fictícia, imaginária, que é a necessidade artificial da mente, que nós chamamos de ego.

Vocês estão sempre com raiva, ofendidos, magoados, feridos e chateados, além de serem vingativos, porque são pessoas. Ser pessoa é uma miséria; não ser o que a vida É (o Todo), é estar  sentindo-se separado, precisando de outras pessoas para ser cada vez mais, "alguém". Então, essa busca de felicidade é medo. Essa procura de se manter como alguém recebendo apreciação, chamego, carinho, reconhecimento, atenção, é muito... muito... miserável. Isso significa viver nessa limitação, nesse círculo restrito, o que eu chamo de contração, e no sentido de um “eu” importante.

Quando a vida está presente nessa Consciência, que é a "não-pessoa", a felicidade está presente na "não-carência", na "não-necessidade psicológica" e na "não-busca de atenção, chamego e carinho." Somente então a vida pode lhe surpreender, porque você não é importante. Você é ela. Como ela não está separada do que você é, ela é pura plenitude, generosidade, abundância, suficiência, completude. É isso que você é, quer esteja vivendo num palácio ou numa choupana.

Felicidade é algo incondicional, como são a Liberdade, o Amor e Deus.   É quando você não está mais preocupado se está vivo ou morto, além de não buscar mais fama, reconhecimento, proteção, amparo, cuidado, etc. Vocês precisam deixar isso, com urgência: essa grande infantilidade, essa coisa mesquinha que é viver no ego, numa "autopreocupação" constante e no medo, que não termina nunca, bem como viver nesse desejo,  que é só um desespero de um suposto alguém, que quer ser alguém. Por isso há tanta solidão, depressão, ansiedade e desespero em toda parte.

Curiosamente, isso não é real. A vida não toma conhecimento disso. A existência não toma conhecimento disso. Isso só existe nesse mundo fantasioso de pessoas que acreditamos ser. Algumas até se candidatam em nos tratar e nos curar, como se houvesse cura, tratamento, e pudéssemos ser ajudados ou ajudar outros.

É basicamente isso: desista! Desista do ego; desista da pessoa que você acredita ser. Confie na minha fala: você não é isso! Você é Deus! Você é beatitude, bem-aventurança, felicidade, liberdade suprema. Você não precisa de ajuda; ninguém precisa; não tem alguém que precise.

Mais alguma coisa? Hum? Não é isso não? Você quer isso e mais aquilo. E eu digo que não tem isso e nem aquilo; só tem Ele. Você quer disputar lugar, quer estar bem com Ele e bem com tudo, mas você não pode estar bem com Ele e bem com tudo. É somente quando Ele pode estar que terminam os seus problemas, porque não há mais nenhuma exigência de que algo aconteça diferente do que está acontecendo.

Hoje eu vejo tudo acontecendo certo à minha volta, tudo no lugar. Eu não estou aqui para avaliar, classificar ou julgar nada, e nem para dizer o que está fora do lugar. Essa estúpida arrogância caiu aqui. Por que é que não cai aí? Não cai porque você é muito importante, mais do que a vida, que determina tudo; mais do que Deus que escolhe tudo, que faz tudo do jeito Dele.

Só tem a vontade Dele, Deus, que é uma outra palavra para Consciência, essa indescritível verdade que, soberanamente, triunfa acima de todas as vontades, desejos e escolhas.  E agora o que vocês me dizem?

Deus, você, essa árvore, esse espaço, é todo esse movimento misterioso, indizível, indescritível.  Se não gostarmos da palavra Deus, a gente cria uma outra: pode chamar de God ou outro nome.

Participante - Não dá pra ter Deus e o nosso mundinho?

MESTRE - Não. Nosso mundinho é imaginário. O nosso mundinho é um conflito, é um problema, é um sofrimento, uma miséria, para a nossa própria e pessoal imaginação. Por isso que está tudo errado, tudo fora do lugar, e vocês não fizeram nada certo até hoje; jamais farão.

Participante - É a Bíblia que diz que quem vê Deus morre?

MESTRE - Sim. Quem vê Deus morre. Eu vou parafrasear: quem vê Deus descobre que nunca esteve vivo. Quem vê Deus descobre que só tem Ele. Enquanto não se vê Deus, a cegueira é a ilusão de que se está vendo alguma coisa criada pela própria cegueira, pela ilusão, pela imaginação. Então, quando ver-se alguma coisa que é chamada Deus e o mundo, isso é parte dessa cegueira, dessa ilusão.

Não é nesse Deus que estou falando. Estou falando Daquilo que se apresenta quando não há mais essa cegueira da dualidade, em que há um "eu", o mundo e Deus.

Participante - Essa felicidade que você fala não é a felicidade que a gente experimenta aqui às vezes, não é?

MESTRE - Essa é imaginação.

Participante - Porque se tudo é o que é...

MESTRE - Essa é a felicidade.

Participante - Porque tudo é o que é, não há espaço para a tristeza.

MESTRE - É a ausência de tristeza.  A Natureza Divina é a alegria. Deus é a suprema alegria, mas não é a alegria que tem esse oposto chamado tristeza, como o outro lado da moeda. É algo completamente, radicalmente, diferente disso.

Participante - Então, é uma alegria que a gente não tem a menor noção do que seja.

MESTRE - Na mente, não. Na mente, você não tem isso.

Participante - Às vezes temos flashes disso, em Satsang.

MESTRE - Na mente, não. Porém, vocês todos têm lampejos diretos daquilo que são. Isso nunca nos abandona, porque nós somos Isso, que não é o que vem e vai. A cegueira, a ilusão e essa suposta felicidade vêm e vão. É a mente que vem e vai, não Aquilo que você É e não deixa de ser.

Participante - Mestre, parece que existe um processo em direção a essa felicidade. Por exemplo, é muito comum ouvir relato de quem está em Satsang de que está mais leve, com menos problemas.  Então, é como se a gente fosse se aproximando dessa felicidade?

MESTRE - Não vamos nos aproximando dessa felicidade. O sentido de separação perde seu encanto; só isso. Na razão em que esse sentido de separação, que é a ilusão do sentido de uma identidade separada, começa a perder o encanto aí, você pode vivenciar mais o seu Estado Natural, que é Paz. 

Participante - A mente e o corpo vão ficando mais afinados com essa Verdade.

MESTRE - Sim... mais harmonizada e sintonizada. Até então, não somos naturais na mente e no corpo. A lua não atrapalha o sol em nada, mas se a lua pudesse acreditar que é o sol, ela ia criar muito problema para ela mesma. Teria muito deveres, obrigações, muito trabalho dos quais não teria capacidade de cuidar. Então, ela estaria realmente em apuros. É  o que acontece com o intelecto (mente) quando tenta se passar por essa Sabedoria Inata, essa Consciência.

Participante - Essa mente que você (Mestre) acessa é a mente funcional e não a mente egoica. Não é isso?

MESTRE - Isso. Ela não passa por esse movimento da separatividade, pois já tem a liberdade de Ser.  A lua ocupa o lugar dela, quer o sol esteja presente ou não, e ele nunca deixa de estar presente.

A mente funcional não é a mente egoica. E o que você chama de mente eu chamaria de função da Consciência. A Consciência pode assumir qualquer função, mas a mente não pode assumir a função da Consciência. Seria a lua tentando fazer o trabalho do sol.

Aqui, ego significa a imaginação de ser a Consciência. É a mente se imaginando suprema para escolher, realizar, fazer e controlar, o que é pura ilusão. É a vontade e ação, o fazer e poder da mente egoica, uma usurpadora de trono, ou que pretende ser.

Vocês precisam urgentemente trabalhar isso. Precisam ficar atentos a esse suposto rei num trono falso, irreal. Quando se sentem coitadinhos, pobrezinhos, não amados, rejeitados diminuídos, e reclamam ou reivindicam internamente direitos, estão se limitando a um sentido de pessoa.

Vocês estão em apuros. Ser um homem casado, uma mulher casada, um filho, um pai, um avô, uma avó, um chefe de família, um patrão, um empregador, um empregado, um amigo, ou seja, ser tudo de alguém para alguém, para si mesmo, tudo isso é estar em apuros. Isso é ser uma pessoa. Soltem isso. Entrem fundo nesse mergulho, que, aqui, eu chamo de meditação, que é trazer Consciência para dentro desse movimento inconsciente que é ser alguém.

Reparem que meditação não é sentar, fechar os olhos e passar 10 minutos, uma hora, assim. Não é isso. É algo que exige Presença, Consciência, agora, nesse instante. O que se passa aqui é frustração, raiva, medo, decepção, busca de ser aceito? O que se passa aqui é um sentido de ofensa, o desejo de ferir, ofender, magoar, diminuir? O que se passa aqui é inveja? Eu não vou brigar com isso, vou apenas ficar ciente de que isto está aqui; não vou mais alimentar isso. Essa ciência, essa Consciência, por si só, faz o trabalho e esse "eu" que se alimenta do prazer morre nessa atenção. Isto é meditação.

Não é isso? Como me dirijo a uma pessoa, a um cachorro? Como me dirijo a alguém, esperando algo de alguém ou de um animal, ou de alguma coisa? Essa é a real meditação. Até quando estou brincando, contando uma piada ou sacaneando alguém, eu trago consciência para isso. Eu não faço isso de uma forma automática, pessoal, para ser o mais engraçadinho, a figurinha da vez, para ser importante. E quando, também, não entro, porque não entro? Para ser importante, o mais santo, o bom menino? Você quer enganar a quem? A si mesmo? É uma questão de Consciência, de Presença, de atenção sobre si mesmo.


Fala transcrita a partir de um encontro Presencial em Tamil Nadu - Índia - Na cidade de Tiruvannamalai, no túmulo de Annamalai Swami (discípulo realizado de Ramana Maharshi), no dia 04 de Outubro de 2014

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Livre de todas as crenças - Paltalk Satsang




Estamos mais uma vez trabalhando juntos a questão do Despertar. A princípio, nós não temos qualquer noção do que isso significa. Vocês não têm ideia do lugar para onde essa fala aponta. Até mesmo os mais antigos são literalmente raptados por essa inconsciência, dando-se conta disso somente depois. Então, quando falamos sobre Despertar, estamos falando do fim dessa inconsciência, desses padrões de hábitos repetidos continuamente e praticados por uma suposta pessoa. O fim desse “Eu” é a própria Presença.

Soa muito estranha essa fala, pois a própria Presença é a única possibilidade, que é esse solo onde tudo brota, essa condição que permite tudo aparecer e depois ir embora ...inclusive essa inconsciência egóica, que é esse movimento de separatividade.

Não há nada para ser encontrado por meio de uma pesquisa ou de uma prática espiritual. Você destrói a possibilidade de constatar essa Presença, aqui e agora, quando fica ocupado com a ideia de futuro, acreditando que, um dia, conseguirá alcançar Isso, por meio de algum esforço. Fazendo isso, você destrói essa possibilidade. Temos insistido que essa Presença já é a paz que nunca esteve perdida.

Estamos sempre apontando para Aquilo que é o alfa e o ômega, que é esse terreno, essa Presença de imutável Paz, Liberdade e Amor. É lindo nós estarmos, nesse momento investigando todo o jogo dessa ilusão absolutamente convincente, que é esse truque divino, tão substancial e sólido.  Entretanto, numa inspeção mais próxima, podemos perceber que não tem qualquer substância, que tudo não passa de uma crença.

A ideia do mundo do lado de fora, sendo visto por uma entidade do lado de dentro, é essa ilusão, como, por exemplo, você agora me ouvindo e acreditando haver uma suposta pessoa falando coisas. Entretanto, existe somente um único movimento, aonde o som falado e o som ouvido acontecem no mesmo espaço. Assim, não há emissão e recepção, há apenas a dança desse jogo mental maravilhoso e convincente de que há dois elementos: o lado de dentro e o do lado de fora, um comunicando e outro recebendo.

Esquecemos que há um só Espaço, permitindo esses fenômenos acontecerem. Assim, sejam bem vindos a esse mistério chamado Consciência. É o mesmo para a ideia do pensador e do pensamento, bem como essa convicção de que existe um observador e aquilo que é observado, aquele que sente e o sentimento, e um indivíduo que fala e outro que escuta.

Essa não é uma ilusão para ser destruída. Você não vai destruir a ilusão, porque você é a própria ilusão e não pode fazer nada a respeito disso. Sempre que você aparece, a ilusão está presente. Quando você desaparece, a ilusão termina, assim como o sentido de dualidade.

É possível que esse seja o significado da palavra advaita (palavra em sânscrito que significa “não dual”, segundo o dicionário enciclopédico de teologia – nota do revisor), eu não sei bem, nem me importo, mas uma vez constatado o fenômeno, aparentemente engendrado nessa única realidade, a ilusão termina. Você, como pensamento, é somente uma ilusão.

A primeira ideia que surge, quando você vem a esses encontros, é a de que "tem que desaparecer" e, então, você faz muito esforço para isso, fortalecendo ainda mais o sentido de ser "alguém". Dessa forma, é preciso que essa ilusão termine. Todavia, ela não dará fim a ela mesma, pois você não pode dar fim a si mesmo.

Ramana Maharshi dizia que esse seria o caso de um ladrão vestido de policial tentando prender a si mesmo. Esse não é um trabalho seu, mas da própria Consciência. “Você” não vai chegar à Iluminação um dia, pois isso é uma ideia bastante inútil. Onde você pensa que está esse centro chamado "mim"?  Isso é somente uma ideia.

Ninguém está fazendo isso, porque ninguém pode fazê-lo, no entanto, simplesmente acontece. Você está inteiramente envolvido neste trabalho, entretanto, ele não acontece porque “Você” faz algo. Outrossim, também, não acontece se você não doa completamente a sua vida por Isso. É necessário que você desapareça, morra por Isso, mas isso é muito duro e a mente não quer ouvir isto. A mente ama estar ativa e se esforçar em algum sentido, mas aqui estamos falando de uma direção diferente.

A partir desse Espaço, a realização é possível. Vocês não estão ouvindo um professor teórico; esse não é um ensino. Reparem que não há nada sendo explicado.  Isso vai soar sempre como um convite a essa possibilidade, que é essa Presença, que é esse Silêncio da Real Consciência.

Vocês se aproximam de Satsang com muitas teorias, certezas e conhecimentos.  A sua dificuldade aqui é ouvir, porque você compara a fala com alguma coisa que leu e estudou. O ponto é que você é um sabedor, entendido e "sabe tudo". O ponto é que você está lá sabendo.  Você pode dizer que não sabe nada, mas na verdade você "sabe muito", está cheio de crenças e conceitos. Essa tem sido a dificuldade daqueles que se aproximam. Essas pessoas estão em busca de um tipo de liberdade onde vão dizer ao final: "eu cheguei, eu consegui". É sempre a liberdade de "alguém" para alguém. A mente fica confusa e se refugia no conhecimento para conseguir encontrar sua liberdade, entretanto a liberação não acontece dessa forma.

Esse é o jogo da espiritualidade e da busca, onde você até relaxa e se rende, mergulhando profundamente em si mesmo, em profundas reflexões, analisando, sondando, mas sempre continuando aí como um ego. Você continua aí como um ego, sempre se transformando e melhorando, tendo uma fala mansa, tendo mais humildade, mais simplicidade, abandonando certos alimentos, parando de beber e fumar. Dessa forma, tudo vai aparentemente melhorando e você passa o resto da vida tentando reiteradamente; sempre avançando, para, finalmente, depois de muitos anos de grandes esforços, conseguir ser "alguém" espiritual. Alguém...

Serei honesto com você: sua situação está bem pior, pois agora carrega a vaidade e a arrogância de quem sabe e porque se espiritualizou. A realização de Deus não tem nada a ver com isso. Sendo apenas o fim do sentido de separação, Isso não tem nada a ver com sua capacidade intelectual, eloquência, ou postura amável, simples e humilde, decorrentes de disciplinas impostas. É preciso soltar tudo isso, “vomitar” tudo isso.

Estou lhe convidando a ouvir o pássaro cantando, a sentir o perfume e a beleza da flor se abrindo, a andar pelas ruas sentido o chão debaixo dos pés; a ser vulnerável à vida, como ela se apresenta, estando livre de todas as crenças, disciplinas e ações baseadas em noções de espiritualidade.

Isso significa ser vulnerável à chuva que cai, ao sol que brilha e ao som de crianças gritando. É a liberdade de ser o Silêncio que acolhe a vida como ela é, sem nenhuma disciplina gerada pelo medo.

No Zen eles dizem: "comer quando tiver fome e beber quando tiver sede, numa vida sem passado ou futuro". A mente não tem nada a ver com o Despertar, pois Isso está fora dela. Não é uma idealização que a “pessoa" possa alcançar.

É bem isso…


Fala transcrita e revisada a partir de uma fala via Paltalk Senses no dia 04 de Fevereiro de 2015 
Encontros todas as segundas, quartas e sextas as 22h - horário de Brasília - Participem é Gratuito

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Ilusão não tem um princípio - Paltalk Satsang



Essas falas estão sempre nos indicando isso: nós estamos juntos trabalhando o fim do sentido de separatividade, do sentido de dualidade. Quando falamos do fim do sentido de dualidade, estamos falando  do fim da ilusão; dessa ilusão onde há esse fragmento chamado "eu", de um lado, e o mundo sendo experimentado por este “eu”, do outro lado. Assim, temos a questão do sujeito e do objeto; isso é a dualidade e aqui está o sentido de separatividade.

A mente, em si, no sentido mais amplo da palavra, não é inerentemente dualista, isso é apenas uma aparência. Ela parece se tornar dualista ou inconsciente, ignorante, apenas pelo pensamento, por uma parte, um mero fragmento. Acompanhem isso com calma: quando a mente, através do pensamento, atribui a essa Consciência o significado de um experimentador experimentando, de um “eu” separado do mundo, de um sujeito diante desse objeto chamado mundo, faz com que tenhamos a ilusão da separatividade, da dualidade, e nós temos, então, essa conhecida mente separatista, egóica, dual. Nós convidamos você a perceber isso: a ilusão do sentido de separatividade criado pelo pensamento, quando esse pensamento cria essa crença. Agora, por exemplo, nesse instante, só há a Consciência presente. Esta Consciência é este ouvir; é todo e qualquer pensamento aparecendo; toda e qualquer experiência aparecendo. Quando há a crença de que há alguém nisso, que há alguém dentro dessa experiência, pensando, ouvindo, ou experimentando, aí, então, nós temos a mente dual, a mente egóica, em conflito como um experimentador.

Colocando de uma forma bem simples: você diz “eu não gosto disso”; “isso está errado”; “estou sofrendo”; “estou preocupado”; “tenho medo”; “eu posso escolher”. Quando você faz isso, o que temos aí é a mente dual, dualista, separatista; é o pensamento, a partir de uma crença, se separando como "alguém" -  alguém para pensar, sentir, escolher, resolver, gostar ou não gostar... Isso é a dualidade, o sentido de separatividade. Dá para acompanhar isso?

Se isso não estiver presente, se o pensamento não estiver, através dessa crença, se separando, confiando, acreditando nisso - se ele não aparece aí - não há dualidade, não há separatividade. Há somente experiência, e a experiência é a própria Consciência. O pensamento é a Consciência, o sentimento é a Consciência, a sensação é a Consciência; tudo é essa Consciência, nada está separado Dela. Tudo é uma expressão dessa única Consciência.

O ego, o “eu”, esse “mim”, esse sentido dual, surge quando há a crença de alguém nessa coisa. Agora mesmo, um pensamento pode acontecer aí, nesse cérebro, nessa cabeça, mas esse pensamento não tem alguém por trás dele. Uma sensação pode estar acontecendo nesse instante, mas não tem alguém por trás dessa sensação. Quando esse “eu” surge, ele se separa e diz: “não quero pensar assim”. Na verdade, não tem "ele" pensando assim, só tem o pensamento acontecendo, mas ele se separa e cria o conflito, que é dual. E o conflito entre esse suposto “eu” pensando e o pensamento acontecendo como algo separado dele, entre alguém sentindo e o próprio sentimento presente sendo rejeitado, ou sendo apreciado, por essa suposta entidade que está experimentando isso, não é real.

Agora percebam que a mente, em si, não é dualista, porque ela é, ainda, uma expressão da Consciência. Já essa mente dualista, separatista, egóica, é a ilusão de um experimentador dessa coisa chamada pensamento. O pensamento é só o pensamento; não há o pensador. Então, diante da experiência do medo, e há somente medo, não tem "alguém" para se livrar do medo. Se isso está aí, permaneça aí; é só uma experiência, como qualquer outra experiência, que passa, que vai passar.

Se você não der um significado a essa experiência, que é o sentido de um "alguém" rejeitando, valorizando, criando uma história sobre isso, ela será só uma experiência dentro dessa ilimitada Consciência, dessa ilimitada Presença não dual, não separatista. Então, é só uma experiência dessa Consciência e não uma experiência pessoal, não uma experiência minha, desse “mim”.

Nós estamos vivendo o tempo todo segurando a imagem de alguém controlando, ou com poder de controlar, a sensação, o pensamento, o sentimento, a emoção, toda e qualquer experiência. Aqui está a ilusão da mente egóica; é aqui que está a ilusão do sentido de separatividade.

PARTICIPANTE: Por que essa particularização da mente em um experimentador? Para que isso? Quando surge?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: É uma pergunta interessante... Vocês que precisam me responder.

PARTICIPANTE: É automático isso.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: O que você chama de automático, eu chamo de inconsciente. A natureza da mente dual – que faz você estar sempre sendo capturado por essa pegadinha da consciência – é inconsciência.

Há muito tempo o movimento da mente é esse de vir a ser, de buscar ser, de experimentar. Então, nós estamos, na verdade, viciados em vir a ser, em experimentar, em participar, em nos perdermos nessa inconsciência.

Você pergunta: “quando?” Não existe quando. Só podemos saber como isso acontece, mas, quando não sabemos, ninguém sabe. Sabemos que acontece quando essa Consciência, aparentemente, se perde nesse movimento, quando o pensamento assume a particularização de um fragmento nessa experimentação.

PARTICIPANTE: Em algum momento isso apareceu aqui?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Não foi em algum momento. Na inconsciência, isso apareceu aí. Agora, quem é a Consciência de que estamos falando? A Consciência nunca deixa de ser consciente. Aquilo que nós chamamos de Consciência é como esse movimento do pensamento que se separa, como um fragmento, para experimentar.

PARTICIPANTE: Como uma faísca que dá um salto para fora da fogueira?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: A ilusão não tem um princípio, assim como essa inconsciência não tem um princípio, então, não é em algum momento. Nós estamos apenas num jogo de aparências. Estamos lidando com aparições, somente aparições, que não são reais. A aparição do “eu” não é algo real; a aparição da mente egóica não é algo real; a aparição do sentido de separatividade não é algo real, pois é somente uma aparição. A ideia que fazemos é de que isso é uma aparição no tempo. Eu prefiro dizer que é uma aparição, como a própria aparição da inconsciência, nessa Consciência, que nunca deixa de ser o que Ela é. Essa inconsciência é a mecanicidade, é o vício, é o sentido de separação, é o sentido da mente dualista.

PARTICIPANTE: Mestre, quando estamos investigando isso, e em alguns momentos quando trago consciência para o momento, isso pode ser visto. É possível notar que não há ninguém na experiência, mas só isso não resolve a coisa. No momento seguinte já há inconsciência e na maior parte do tempo eu estou me percebendo separado da experiência.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Esse é o hábito, esse é o vício, esse é movimento do pensamento, se separando como um fragmento na experimentação, no experimentar. É isso o que a mente tem feito o tempo todo.

PARTICIPANTE: Mestre, no seu processo, como foi isso aí? Você olhando esse pensamento vindo... Estava sempre atento, ou você se perdia também? Como era? A sensação que eu tenho é que não tem nada para fazer. Isso é tão automático, tão sutil, que só um milagre, só a Graça pode fazer alguma coisa. São 24 horas que você tem que ficar olhando, mas você não consegue olhar 24 horas. Você consegue olhar um minuto, e, no momento seguinte, você já foi embora, e num outro momento você consegue... Enfim, eu queria saber se com você foi assim também.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Então... A primeira coisa que me chamou atenção na pergunta foi a questão do pensamento acontecendo naquele que está Acordado, naquele que está Desperto. A primeira coisa é quando ela diz: “o pensamento quase não ocorre...” Mas não é assim. A questão não é o pensamento não acontecer; o pensamento não é o problema. O problema é estar identificado como o experimentador desse pensamento. É para isso que é importante vocês se atentarem: quando o pensamento aparece você se identifica com ele, se perde e dá uma identidade a ele.

Na verdade, vocês fazem perguntas para mim, perguntas para o Marcos, e eu compreendo isso também. Eu não preciso, de fato, lhe dar uma resposta que seja pessoal quanto a isso, porque, basicamente, é a mesma coisa acontecendo com todos. Esse trabalho, esse processo, acontece com todos de uma forma bem parecida; ao menos algumas coisas são bem parecidas.

A resposta é essa: você vai se perder sim, muitas vezes. Você, como sendo esse sentido de “alguém”, sendo esse “experimentador”, já está nisso há muito tempo; você é muito bom nisso - em ser alguém. Então, é natural que você só conheça isso. A mente vai voltar a fazer isso muitas vezes, mas ela vai ficando mais fraca e mais lerda para fazer isso.  Então, com o passar do tempo, aí nesse mecanismo, essa Consciência vai se estabelecendo. Essa armadilha do pensamento, ao tomar esse formato, se separando como uma entidade, como alguém experimentando, ele próprio experimentando, vai perdendo a força. É algo que acontece nesse mecanismo, nesse corpo-mente, de uma forma lenta, de uma forma gradual.

PARTICIPANTE: Essas colocações não fazem sentido para o intelecto. A sua vivência direta nos passa a certeza que é assim mesmo. Tenho a certeza de que só o seu amor faz a diferença. Igual à vaquinha Lakshmi do Ramana, nessa confiança cega no Guru.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Aqui você está em Satsang, diante da Presença, diante da Graça.

PARTICIPANTE: Investigar como foi para você ajuda em alguma coisa para nós? Ou seja, necessariamente seria igual para todos? Porque você, nas suas falas, não está falando do seu processo, mas sempre do agora.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: É, estou apenas falando do processo, não do processo de Marcos Gualberto, mas do processo. Então, de uma certa forma, estou falando da vivência desse trabalho aqui, que é a mesma aí em todos vocês

PARTICIPANTE: Se foi assim com Marcos Gualberto e ele chegou lá, a gente tem chance, né? Uma esperança.

PARTICIPANTE: É difícil para o Mestre falar de um si que não existe mais.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: É bem complicado mesmo.

A coisa básica é essa: olhe de novo, e de novo, para essa mesma direção. Repare que esse lugar, esse espaço, essa coisa aí, está fora dessas medidas do pensamento. A Graça é uma ação da Graça e sempre misteriosa, como tudo o que Deus faz. Você vai ouvindo essas falas em Satsang, mas não tem nenhum valor intelectual guardar e arquivar isso aí. O trabalho, em si, já está acontecendo nesse instante, nesse momento, nesse contato.

Toda essa segurança da mente, todo esse posicionamento da mente, todo esse desejo de se manter como uma entidade separada, tudo isso está se dissolvendo, está desaparecendo. Esse é o trabalho.

PARTICIPANTE: Consciência e ilusão da não consciência... Sempre foi assim, não é?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Isso, sempre foi assim: Consciência e a ilusão da não- consciência. Sempre foi assim e sempre será assim. Esse é o mistério da Graça. Agora, para esse, ou para aquele mecanismo particular, essa ilusão termina e, quando ela termina, dizemos: “fulaninho despertou”; “fulaninho não está mais dormindo”; “não está mais na ilusão da separatividade”; “não está mais na ilusão da mente egóica”; “não está mais na ilusão da inconsciência”; “voltou para casa”.

Namastê!


Fala transcrita e revisada a partir de um encontro via Paltalk Senses no dia 19/01/2015
Encontros todas as segundas, quartas e sextas as 22h - horário de Brasília - gratuito

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Deus não é Espiritual - Paltalk Satsang


Vocês sabem que nesses encontros nós estamos investigando essa Verdade, fazendo uma investigação acerca daquilo que somos. Essa simples alegria de ser é algo que se tornou anuviado pelo mundo de conceitos, crenças e ideologias, nessa busca de algo maior do que a simples vida do dia-a-dia. Em razão disso, nós estamos confiando na suposta pessoa que acreditamos ser, nessa busca de conceitos, crenças, filosofia e religiões que nos trouxeram a esse ponto, que é a confiança de alguém presente, que vive e faz escolhas, acumulando experiências e conhecimentos, esforçando-se para se tornar "alguém" no mundo. Estamos dizendo em Satsang que tudo isso é um sonho, como os da noite, onde o mundo imaginado pelo pensamento se apresenta.

Essa pessoa, na verdade, é só uma lembrança. A pessoa é apenas memória, que é apenas imaginação, e esse é o sonho. Essa pessoa busca liberdade, mas sendo só imaginação e memória nesse conjunto de crenças e idéias, está em busca de uma  liberdade dentro do jogo chamado espiritualidade, que é uma outra forma de busca, embora mais fina e requintada. A mente cansou do mundo e passou a buscar fora do mundo. É o que acontece a vocês. O buscador é a mente, nessa imaginação e no sonho, que está em busca do próprio sonho; a imaginação em busca daquilo que ela mesmo imaginou, e assim o jogo continua.

A mente vai transformar qualquer coisa em parte de sua ambição, nesse ou no outro mundo, mas sempre dentro dela mesma, transformando qualquer coisa num fazer para chegar lá, num esforço para obter algo. São os jogos maravilhosos da mente em seu trabalho, naquilo que ela é boa, sempre buscando, querendo e esperando. A mente tenta escapar do passado, que é memória, e busca o futuro através de desejos e projeções de sonhos; é um sonho atrás de um sonho, que também é imaginação.

A visão que você faz de si mesmo lhe dá a imagem que tem do mundo, que é uma fantasia, um sonho, uma ilusão. Essa sua vida é uma ilusão. A mente vai sempre sussurrar baixinho que existe uma outra possibilidade, inventando uma outra coisa, nesse mercado da conquista, nesse mundo ou em outro mundo.  O que você pode fazer agora?

Estamos desejando essa Realização, que é o fim desse mundo de imaginação na mente, mas você sempre termina se perdendo nela. Você nunca consegue ver o mundo de verdade naquilo que ele é, pois a mente sempre está configurando tudo isso em seus próprios termos.

Enquanto a mente estiver presente, a ilusão estará também, com todas essas avaliações e conclusões fragmentadas e, por isso, parciais. É preciso soltar a mente, soltando esse processo de estar estabelecido na imaginação, como todas as crenças, imaginações, pensamentos e julgamentos.

É preciso soltar esse modo de ver, sentir e ser, que a mente representa. A pessoa é isso: uma ilusão. Você como uma pessoa é uma ilusão. Agora mesmo, deixe a idéia de alguém presente ouvindo e se permita ouvir sem alguém, sem tirar qualquer conclusão dessa fala, sem obter qualquer certeza. Não deixe que isso que aparece se torne mais uma crença para você. Temos que usar palavras aqui, mas são apenas conceitos verbalizados que não têm importância. A mente adora palavras e se alimenta de conceitos.  As conclusões e crenças de todos os tipos são os músculos da mente. A força da mente está em suas crenças e conclusões.  A mente ama isso.

A boca aqui faz uma fala. A mente se agarra às palavras, transforma-as numa crença e dá força para ela, aumentando a estrutura da pessoa, o que lhe mantém prisioneiro no sentido de ser alguém. Se a mente diz "eu preciso soltar isso", ocorre mais um desejo, mais um sonho, baseado em fantasia e imaginação, mas não funciona assim.  A mente sempre perde o ponto.  Ela adora passado e futuro, que lhe dão vida, mas sem ambos ela fica desempregada e seus músculos atrofiam, suas crenças e conclusões perdem a importância.

Eu sei como você se sente quando, na mente, me escuta.  Essas palavras soltas estão apontando para o fim da mente, e isso é a ultima coisa que ela quer ouvir. Então, você fica assustado, mas ainda está aí.  Permita-se apenas ouvir, pois não é uma questão de fazer, mas sim de constatar. Fazer requer tempo, enquanto constatar é algo imediato. Somente de imediato pode ser contatada a verdade e a realidade disso.

A mente quer sempre algo para fazer, mas eu nunca dou nada para ela fazer. Vocês já tentaram tudo. Estamos fazendo algo a nossa vida inteira, mas nada satisfaz a mente.  Alguns acham que terão maior satisfação em Satsang, algo mais amplo e profundo.  É assustador saber isso, mas aqui é o fim da mente, da ambição, da busca e do desejo de satisfação.  Aqui seus desejos, motivações e sonhos viram areia fina de praia na mão e que corre pelos dedos.  Veja como é isso, quando fica muito pouca coisa depois que a mão abre. Tente fazer isso com água também; tente agarrá-la e depois abra a mão e veja o que fica.

Tanto a ambição material, como a espiritual se comportam assim, mas você não pode ter isso aqui. Se você quer ser um "ser espiritual", esse não é o lugar para você. O ser espiritual, ou um mestre ascencionado, está sempre crescendo para se tornar "alguém mais evoluído". Deus não é um ser espiritual. Você em sua natureza real não é espiritual, mas, sim, Deus que é Consciência; não é "alguém".

O despertar é o fim da ilusão desse sentido de separatividade, não tem nada a ver com ser espiritual; é esse mergulho no desconhecido, naquilo que você já É. Essa é a real verdade em sua totalidade.

Esta é a alegria real, inocente, pura e verdadeira, sem contaminação mental. Nossa natureza verdadeira é o amor incondicional, que é Deus; não é um conceito maravilhoso, mas algo muito real. Isso significa a morte de tudo o que você já conheceu, desse "você" que acha que é, e ainda alimenta isso.  Deve ocorrer uma abertura para Isso aqui presente, que sempre foi e sempre é.

Essas falas são contraditórias, alguns acham confusas, outros pensam que não elas dizem nada. Estão todos certos, pois estamos sempre apontando para esse espaço não contaminado. Chuva, guerra, neve, tudo vem e vai, assim como sensações, pensamentos e emoções, nessa Presença, livre do seu conteúdo.

Vamos ficar por aqui.
Paltalk Transmitido e revisado a partir de uma fala via Paltalk Senses no dia 02/02/15
Encontros todas as segundas, quartas e sextas as 22h horário de Brasília - É gratuito - Participem!

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